A China decidiu renovar as autorizações de exportação de carne bovina para 402 frigoríficos dos Estados Unidos e ainda habilitou outras 77 unidades americanas, elevando para 730 o número total de plantas autorizadas a vender ao mercado chinês. Apesar do movimento, representantes do setor brasileiro avaliam que a medida tem efeito mais político do que comercial e não deve alterar significativamente o cenário das exportações no curto prazo.

As licenças de diversos frigoríficos norte-americanos estavam vencidas desde fevereiro e março do ano passado. Mesmo com a retomada das habilitações, 38 plantas seguem com embarques suspensos.

Gesto diplomático, mas com pouco impacto imediato

A leitura predominante entre exportadores brasileiros e autoridades do setor é de que a decisão de Pequim ocorre em meio à visita do presidente Donald Trump à China e representa uma sinalização diplomática, sem capacidade real de modificar a dinâmica atual do mercado.

Isso porque os Estados Unidos enfrentam atualmente uma oferta restrita de carne bovina, reflexo da redução do rebanho local, o que limita sua capacidade de ampliar exportações.

Embora os americanos tenham uma cota de 164 mil toneladas para exportação à China em 2026, até fevereiro haviam embarcado menos de mil toneladas, número considerado muito abaixo do potencial autorizado.

Segundo Luis Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, a disponibilidade limitada de produto nos Estados Unidos reduz qualquer possibilidade de impacto relevante.

Na avaliação do setor privado brasileiro, a concorrência adicional existe, mas não representa ameaça direta aos negócios em andamento, principalmente porque os EUA atuam em nichos e tipos de cortes diferentes dos exportados pelo Brasil ao mercado chinês.

Brasil segue dominante no mercado chinês

A China continua sendo o principal destino da carne bovina brasileira. Somente nos primeiros quatro meses de 2026, o país asiático adquiriu quase 475 mil toneladas de carne do Brasil.

A cota brasileira para exportação ao mercado chinês está fixada em 1,1 milhão de toneladas. Dados divulgados por Pequim em 9 de maio indicavam que 50% desse volume já havia sido preenchido, considerando os embarques recebidos até meados de março.

Pelas estimativas do setor exportador, os volumes enviados entre abril e junho devem praticamente esgotar a cota disponível, já que os embarques mensais vêm girando em torno de 140 mil toneladas.

Com isso, a expectativa é de que, a partir da segunda quinzena de junho, frigoríficos brasileiros desacelerem gradualmente o ritmo de abate e produção destinados especificamente ao mercado chinês.

Mercado americano ainda gera expectativa para o Brasil

Enquanto monitora os movimentos da China, o setor brasileiro também acompanha com atenção uma possível mudança tarifária nos Estados Unidos.

Recentemente, Donald Trump indicou a possibilidade de retirar a tarifa de 26,4% sobre a importação de carne bovina brasileira, medida que beneficiaria diretamente os frigoríficos nacionais. No entanto, até o momento, a decisão ainda não foi formalizada por meio de ordem executiva.

Hoje, os Estados Unidos ocupam a posição de segundo maior destino da carne bovina brasileira, atrás apenas da China.

Entre janeiro e abril de 2026, o Brasil exportou 149,8 mil toneladas para o mercado americano, gerando uma receita de US$ 962,5 milhões para o setor.

Especialistas avaliam que, caso a redução tarifária seja confirmada, os EUA podem ganhar ainda mais relevância para os frigoríficos brasileiros, especialmente no segundo semestre, quando a cota chinesa estiver esgotada e houver necessidade de redirecionamento das vendas.

Setor mantém confiança

Apesar da movimentação diplomática entre China e Estados Unidos, o sentimento entre exportadores brasileiros é de tranquilidade. A combinação entre forte demanda chinesa, competitividade da carne nacional e limitações da oferta americana mantém o Brasil em posição estratégica no comércio global da proteína bovina.