A indústria argentina atravessa uma das fases mais críticas de sua história recente. Um levantamento internacional apontou que o país teve o pior desempenho industrial do mundo nos últimos dois anos, empatando com a Hungria em retração da atividade manufatureira.

De acordo com estudo elaborado pela consultoria Audemus, com base em dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI), a produção industrial da Argentina acumulou uma queda média de 7,9% entre 2023 e 2025, colocando o país na última posição entre 80 economias analisadas.

A deterioração não se limita à produção. O mercado de trabalho industrial também sofreu forte impacto, com a eliminação de mais de 79 mil empregos formais e o fechamento de aproximadamente 2.900 empresas do setor desde a mudança de governo.

Queda generalizada na indústria

O levantamento mostra que a crise industrial argentina é ampla e atinge praticamente todos os segmentos da manufatura. Das 16 principais áreas analisadas, 14 registraram retração na produção, enquanto 18 dos 19 setores avaliados apresentaram redução no número de trabalhadores empregados.

Entre os segmentos mais afetados estão:

  • Metalurgia, pressionada pela queda da demanda e aumento das importações;
  • Indústria têxtil, impactada pela entrada de produtos estrangeiros mais competitivos;
  • Setor automotivo, que enfrenta desaceleração produtiva e menor utilização da capacidade instalada.

Políticas econômicas estão no centro do debate

Segundo a consultoria, o desempenho negativo está diretamente ligado às medidas econômicas adotadas pelo atual governo argentino. Entre os fatores apontados estão:

  • abertura comercial acelerada;
  • valorização do câmbio;
  • redução de investimentos públicos;
  • diminuição de incentivos à produção nacional.

Essas mudanças vêm ampliando a pressão sobre a indústria local, especialmente diante do avanço das importações e da entrada de grandes marcas internacionais em diversos setores.

Capacidade instalada no menor nível em mais de uma década

Outro indicador que preocupa economistas é a utilização da capacidade instalada industrial, que caiu para 54,1% no início de 2026, o menor nível registrado para um primeiro bimestre em mais de dez anos.

Na prática, isso significa que quase metade do potencial produtivo das fábricas argentinas está parada.

Especialistas avaliam que, apesar de algumas expectativas de estabilização macroeconômica, ainda não há sinais concretos de recuperação consistente da atividade industrial no curto prazo.

Argentina fica atrás de vizinhos latino-americanos

Enquanto a indústria argentina encolhe, outros países da região apresentaram resultados positivos no mesmo período. Brasil, Chile, Peru e Uruguai registraram crescimento industrial, ampliando o contraste entre a situação argentina e a de seus vizinhos.

Entidades empresariais e representantes do setor produtivo têm alertado para o risco de aprofundamento do processo de desindustrialização, com possibilidade de novos fechamentos de empresas e aumento do desemprego ao longo de 2026.

O cenário reforça um dos principais desafios econômicos da Argentina atualmente: equilibrar ajustes macroeconômicos com a preservação da capacidade produtiva e dos empregos industriais.