Os avanços da China em inteligência artificial, robótica, modelos abertos e infraestrutura computacional podem abrir novas frentes de cooperação tecnológica com o Brasil. A avaliação foi apresentada por especialistas brasileiros durante o seminário “Brasil, China e a Governança da Inteligência Artificial”, realizado no Rio de Janeiro.

O encontro foi promovido pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) e pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e reuniu especialistas para discutir o desenvolvimento da IA e os caminhos para ampliar a capacidade tecnológica brasileira.

China ganha destaque no desenvolvimento de robôs e modelos de IA

Entre os participantes estava Diogo Cortiz, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e pesquisador sênior do NIC.br. Segundo ele, a China alcançou uma posição de destaque mundial especialmente no campo da robótica.

Cortiz relatou sua participação em uma conferência de inteligência artificial realizada em Xangai, que reuniu mais de 300 mil participantes ao longo de vários dias. O evento também contou com a presença de empresas de diferentes setores apresentando aplicações e serviços baseados em tecnologia.

O pesquisador também chamou atenção para a evolução dos modelos chineses de inteligência artificial. De acordo com sua avaliação, a percepção de que a China estaria atrás de outros países no desenvolvimento desses sistemas já não corresponde ao cenário atual.

Um dos pontos destacados foi a disponibilização aberta de determinados modelos chineses, característica que pode facilitar pesquisas, adaptações e novas aplicações tecnológicas.

Infraestrutura computacional é considerada estratégica

A capacidade de processamento foi outro tema central do debate. Para Cortiz, a construção de uma infraestrutura nacional capaz de sustentar o desenvolvimento e a utilização de sistemas de IA é fundamental para a soberania tecnológica.

Nesse contexto, ele avaliou positivamente a decisão brasileira de diversificar fornecedores de infraestrutura computacional, incluindo equipamentos de origem chinesa e norte-americana.

A estratégia, segundo o especialista, pode permitir ao Brasil desenvolver conhecimento sobre diferentes arquiteturas tecnológicas e preparar profissionais e empresas nacionais para um cenário em que a capacidade computacional terá papel cada vez mais importante

Brasil terá supercomputador fruto de acordo com a China

O diplomata Eugênio Vargas García também defendeu a diversificação dos parceiros internacionais do Brasil no setor tecnológico.

A estratégia envolve não apenas a aquisição de equipamentos, mas também a possibilidade de estabelecer mecanismos de transferência de tecnologia, capacitação de profissionais e fortalecimento da indústria brasileira.

Um dos supercomputadores previstos para o Brasil será desenvolvido a partir de um acordo com a China e deverá ser instalado no Rio de Janeiro. Para o diplomata, a cooperação internacional pode contribuir para ampliar as capacidades brasileiras sem criar uma dependência exclusiva de um único fornecedor.

Iniciativa chinesa busca ampliar uso da inteligência artificial

Outro ponto abordado durante o seminário foi a estratégia chinesa conhecida como “AI Plus”, incorporada ao planejamento econômico do país com o objetivo de ampliar a utilização da inteligência artificial em diferentes setores.

A proposta parte da ideia de que o impacto econômico da IA não depende apenas da capacidade de desenvolver modelos avançados, mas também da habilidade de incorporá-los a empresas, serviços e atividades produtivas.

Para Cortiz, a capacidade de adoção tecnológica pode ser tão importante quanto a própria criação das ferramentas de inteligência artificial.

Cooperação tecnológica entre Brasil e China ganha espaço

O debate ocorre em meio ao aprofundamento da agenda tecnológica entre Brasil e China. Além do comércio e dos investimentos, os dois países vêm ampliando discussões relacionadas à inovação, infraestrutura digital, ciência e tecnologia.

Para os especialistas presentes no seminário, a cooperação em inteligência artificial pode envolver diferentes etapas, desde a infraestrutura necessária para treinar e executar modelos até a formação de profissionais e o desenvolvimento de aplicações voltadas à economia.

A discussão também coloca em evidência um desafio brasileiro: construir capacidade própria em um setor marcado por investimentos elevados e rápida evolução tecnológica.

Nesse cenário, a aproximação com diferentes parceiros internacionais, incluindo a China, é apresentada como uma alternativa para ampliar o acesso a tecnologias, conhecimento e infraestrutura, ao mesmo tempo em que o Brasil busca desenvolver seu próprio ecossistema de inteligência artificial.