A relação entre Itália e Brasil ganhou novo destaque durante a visita do subsecretário de Estado para os Italianos no Mundo, Massimo Dell’Utri, ao país. Em missão oficial realizada entre 17 e 22 de setembro, com compromissos em São Paulo e Porto Alegre, o representante italiano ressaltou a dimensão da comunidade de origem italiana e seu potencial para aproximar os dois países.

Segundo Dell’Utri, o Brasil está entre os países mais importantes do mundo quando se trata da presença italiana no exterior. Ele afirmou que o país abriga quase 1 milhão de cidadãos italianos e aproximadamente 32 milhões de pessoas de origem italiana, formando uma comunidade que, ao longo de gerações, participou do desenvolvimento da sociedade brasileira.

Para o subsecretário, essa presença representa uma espécie de ligação natural entre Brasil e Itália, com potencial para contribuir para o relacionamento bilateral em diferentes áreas.

Italianidade como instrumento de aproximação

Durante a missão, Dell’Utri definiu a italianidade existente no Brasil como uma realidade viva, dinâmica e capaz de contribuir para a construção do futuro.

A avaliação amplia o significado tradicional dos vínculos entre os dois países. Em vez de tratar a imigração italiana apenas como parte da história brasileira, a diplomacia italiana passou a destacar também os laços culturais, familiares, econômicos e sociais mantidos pelas comunidades de descendentes.

A Farnesina, nome pelo qual é conhecido o Ministério das Relações Exteriores da Itália, considera os italianos residentes no exterior e suas comunidades como importantes pontos de conexão entre a Itália e os países onde vivem.

Brasil concentra uma das maiores comunidades italianas fora da Itália

A dimensão da comunidade brasileira de origem italiana é um dos principais fatores que tornam o Brasil estratégico para a diplomacia italiana.

Os cerca de 32 milhões de descendentes mencionados por Dell’Utri representam uma rede formada ao longo de várias gerações. Essa presença está associada a elementos como língua, cultura, gastronomia, tradições familiares, negócios e intercâmbios entre instituições dos dois países.

A existência dessa comunidade também contribui para manter relações entre cidades, associações, empresas, universidades e organizações culturais brasileiras e italianas.

Cidadania italiana entra no debate

A visita de Dell’Utri ocorre em um período de mudanças nas regras de reconhecimento da cidadania italiana por descendência.

Em 2025, a Itália aprovou alterações que restringiram determinadas possibilidades de transmissão automática da cidadania para pessoas nascidas fora do território italiano e que possuem outra nacionalidade.

Entre as situações contempladas pelas novas regras estão casos específicos envolvendo pais ou avós que possuem, ou possuíam ao morrer, exclusivamente a cidadania italiana, além de outras condições previstas pela legislação.

As mudanças tiveram impacto particularmente relevante em países com grandes comunidades de descendentes, entre eles o Brasil.

Governo italiano mantém diálogo sobre as regras

Durante sua passagem pelo Brasil, Dell’Utri também abordou a possibilidade de discutir novamente a legislação sobre cidadania.

Em São Paulo, o subsecretário afirmou que uma lei pode ser revista e reconheceu a existência de insatisfação entre integrantes da comunidade italiana. Ao mesmo tempo, destacou que o tema envolve questões jurídicas e institucionais que precisam ser analisadas antes de qualquer eventual mudança.

A legislação já foi submetida à análise da Corte Constitucional italiana, enquanto também há expectativa em relação a questões que podem chegar à Corte de Justiça da União Europeia. Dell’Utri não apresentou uma promessa de alteração das regras, mas indicou disposição para manter o debate aberto.

Tajani também ressaltou os descendentes no Brasil

A passagem de Dell’Utri pelo Brasil ocorreu poucos dias depois de uma visita do chanceler italiano Antonio Tajani.

Em manifestação relacionada à presença italiana no Brasil, Tajani também destacou a dimensão da comunidade de origem italiana. Segundo o chanceler, os cerca de 32 milhões de brasileiros com ascendência italiana constituem um patrimônio formado por vínculos familiares, culturais e históricos.

As declarações dos dois representantes mostram a importância atribuída pela diplomacia italiana às comunidades de descendentes espalhadas pelo mundo.

Ao mesmo tempo em que a Itália estabeleceu critérios mais restritivos para determinados processos de reconhecimento de cidadania, o governo italiano continua buscando fortalecer os vínculos culturais, econômicos e institucionais com essas comunidades.

Uma ponte entre Brasil e Itália

A presença italiana no Brasil ultrapassa a dimensão histórica da imigração. Ao longo das gerações, os descendentes passaram a integrar profundamente a sociedade brasileira, mantendo, em diferentes níveis, relações com a cultura e as instituições italianas.

Para a diplomacia italiana, essa comunidade pode desempenhar um papel relevante na construção das relações futuras entre os dois países.

A missão de Dell’Utri reforça justamente essa perspectiva: a italianidade existente no Brasil é apresentada não apenas como herança do passado, mas como uma conexão que pode continuar contribuindo para a aproximação entre Brasil e Itália nas próximas décadas.