A presença de empresas chinesas no mercado brasileiro vem ganhando novas dimensões. Além do comércio de produtos, companhias do país asiático estão ampliando investimentos em produção nacional, tecnologia, mobilidade elétrica, serviços digitais, alimentação, eletrodomésticos e comércio eletrônico.

O movimento indica uma transformação no perfil da relação econômica entre Brasil e China. A estratégia deixou de estar concentrada apenas na exportação de produtos e passou a envolver também fabricação local, desenvolvimento tecnológico, logística e formação de cadeias de fornecedores.

De acordo com dados da Euromonitor International, os investimentos chineses no Brasil somaram aproximadamente R$ 230 bilhões entre 2015 e 2025, o equivalente a cerca de US$ 45 bilhões. Apenas em 2025, foram aproximadamente R$ 31 bilhões, ou US$ 6,1 bilhões. O valor colocou o Brasil entre os principais destinos mundiais dos investimentos chineses naquele ano.

Carros elétricos ganham espaço

Um dos setores em que essa expansão se tornou mais evidente é o de mobilidade elétrica. Atualmente, 13 marcas chinesas de veículos elétricos estão presentes no mercado brasileiro, entre elas BYD, Haval, Geely e Caoa Chery. Algumas dessas empresas já contam com produção nacional.

A BYD começou sua operação industrial no Brasil em 2015, com a produção de chassis para ônibus elétricos em Campinas, no interior de São Paulo. Desde então, ampliou sua atuação para diferentes segmentos, incluindo soluções de energia solar, caminhões e outras tecnologias relacionadas à mobilidade.

A empresa também avançou na infraestrutura de recarga para veículos elétricos e mantém investimentos voltados ao desenvolvimento de novas tecnologias.

Na Bahia, a companhia destinou R$ 5,5 bilhões ao complexo industrial de Camaçari, consolidando uma estratégia de ampliação da produção local e de desenvolvimento de sua cadeia industrial no país.

A chegada de novas montadoras também contribui para ampliar a cadeia de fornecedores e aumentar a participação da indústria chinesa na produção brasileira. O setor automotivo chinês recebeu pelo menos US$ 965 milhões em investimentos no Brasil em 2025, segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

Mixue aposta no mercado brasileiro

A expansão chinesa também chegou ao setor de alimentação. A Mixue abriu sua primeira unidade no Brasil em São Paulo, transformando o país no primeiro mercado fora da região Ásia-Pacífico a receber investimentos da companhia.

A empresa anunciou planos de investir aproximadamente R$ 3 bilhões até 2030, com a possibilidade de chegar a 1.000 lojas e instalar uma fábrica no país.

A estratégia demonstra como marcas chinesas estão buscando não apenas vender produtos no mercado brasileiro, mas estabelecer operações locais e adaptar seus modelos de negócio às características dos consumidores.

99 amplia serviços digitais

No setor de tecnologia e mobilidade urbana, a 99 representa outro exemplo da integração empresarial entre os dois países. A companhia brasileira foi adquirida pela chinesa DiDi em 2018 e passou a fazer parte da estratégia internacional do grupo.

A plataforma atua em mobilidade, logística, entrega de alimentos e serviços financeiros, além de desenvolver iniciativas relacionadas à integração com o transporte público.

Segundo dados divulgados pela empresa, a 99 possui cerca de 85 milhões de usuários ativos, está presente em mais de 4.400 cidades e reúne aproximadamente 2,5 milhões de motoristas parceiros.

Para Bruno Rossini, diretor de comunicação da 99, o Brasil teve papel importante na expansão internacional da companhia e atualmente representa seu maior mercado fora da China.

Midea amplia fabricação no Brasil

A indústria de eletrodomésticos também ganhou relevância na expansão das empresas chinesas. A Midea produz no Brasil equipamentos como refrigeradores, máquinas de lavar e aparelhos de ar-condicionado.

A companhia considera o país um de seus principais mercados internacionais e vem ampliando sua estrutura produtiva.

Em Minas Gerais, a empresa anunciou investimentos de R$ 828 milhões, dos quais aproximadamente R$ 630 milhões foram destinados à construção de uma fábrica em Pouso Alegre.

A estratégia de fabricação local também reduz parte da dependência de importações e permite que as empresas adaptem sua produção às características da demanda brasileira.

AliExpress fortalece presença no comércio eletrônico

O comércio eletrônico completa esse processo de diversificação. Presente no Brasil há 15 anos, o AliExpress ampliou sua integração com o mercado nacional e, em 2024, estabeleceu uma parceria com o Magazine Luiza.

A iniciativa busca aproximar vendedores brasileiros do mercado internacional e ampliar a oferta de produtos disponíveis aos consumidores.

Segundo a empresa, o Brasil está entre os cinco maiores mercados do AliExpress no mundo.

A estratégia também acompanha uma mudança mais ampla no modelo de atuação de empresas chinesas. Em vez de depender exclusivamente da exportação de produtos, muitas companhias passaram a combinar tecnologia, logística, produção local e adaptação de seus serviços aos diferentes mercados.

Relação econômica entra em nova fase

A expansão das empresas chinesas mostra que a relação econômica entre Brasil e China vem adquirindo características mais diversificadas.

Investimentos em automóveis elétricos, fábricas, tecnologia, plataformas digitais, alimentação, eletrodomésticos e comércio eletrônico revelam uma presença que ultrapassa o comércio tradicional de mercadorias.

Os dados do CEBC também apontam para uma ampliação dos investimentos chineses em diferentes setores da economia brasileira. Em 2025, energia, mineração, indústria automobilística, petróleo e tecnologia da informação estiveram entre as principais áreas de aplicação de recursos chineses no país.

Nesse cenário, o Brasil passa a ocupar uma posição relevante nas estratégias de expansão internacional de empresas chinesas, enquanto a relação bilateral incorpora novos elementos, como produção nacional, transferência de tecnologia, desenvolvimento de fornecedores e integração das cadeias de suprimentos.