Os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), defenderam a retomada do debate sobre a necessidade de diploma de jornalismo para o exercício da profissão no Brasil.

A manifestação ocorreu nesta terça-feira (18), durante uma sessão da Primeira Turma do Supremo que analisava um processo relacionado ao direito de resposta. O tema surgiu em meio às discussões sobre os limites da liberdade de imprensa, a responsabilidade no exercício da atividade jornalística e a proteção constitucional ao sigilo da fonte. 

A decisão que atualmente permite o exercício da profissão sem diploma específico foi tomada pelo STF em 2009. Agora, os ministros sinalizam que a questão pode voltar a ser examinada pela Corte.

Decisão de 2009 pode ser revisitada

Em 2009, o STF derrubou a obrigatoriedade do diploma de curso superior em Jornalismo para o exercício profissional.

Desde então, a atividade jornalística passou a poder ser exercida sem a exigência de formação universitária específica.

A possibilidade de revisar esse entendimento voltou ao debate dentro do próprio Supremo, quase duas décadas depois da decisão original. 

A discussão, entretanto, não significa que a exigência tenha sido restabelecida. Até o momento, continua valendo o entendimento de 2009.

Debate envolve liberdade de imprensa e responsabilidade

A discussão levantada pelos ministros está relacionada a uma questão mais ampla: como equilibrar a liberdade de imprensa com a responsabilidade daqueles que produzem e divulgam informações.

Moraes afirmou que a liberdade de imprensa constitui uma garantia fundamental, mas argumentou que ela não pode ser utilizada como proteção para práticas criminosas. 

O debate ganhou força em um contexto de controvérsia envolvendo investigações sobre o jornalista maranhense Luís Pablo e uma de suas fontes, caso que provocou discussões dentro e fora do STF sobre os limites do sigilo jornalístico.

Sigilo da fonte também entrou na discussão

O episódio envolvendo o jornalista e sua fonte tornou-se um dos elementos do debate sobre a atividade profissional.

A Constituição brasileira assegura aos jornalistas o direito ao sigilo da fonte, especialmente quando necessário ao exercício profissional. Ao mesmo tempo, ministros do Supremo vêm discutindo se essa garantia pode ser invocada quando existem suspeitas de práticas criminosas.

Moraes sustentou que o sigilo não deve servir de proteção para crimes praticados sob a aparência de atividade jornalística. 

O presidente do STF, Luiz Edson Fachin, por outro lado, reafirmou o compromisso da Corte com a liberdade de imprensa e com o direito fundamental dos jornalistas ao sigilo de suas fontes. 

Fenaj apoia retomada da discussão

A possibilidade de reabrir o debate recebeu apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

A entidade defende que a formação específica pode contribuir para enfrentar os desafios atuais da profissão, especialmente diante da expansão das plataformas digitais, da circulação de informações falsas e da necessidade de critérios técnicos e éticos para o exercício do jornalismo. 

Para a entidade, a discussão não deve ser tratada apenas como uma questão corporativa, mas também como parte do debate sobre qualidade da informação e responsabilidade profissional.

Entidades de imprensa têm posições diferentes

A possibilidade de retomada da exigência também provoca reações distintas entre organizações ligadas ao setor.

Enquanto a Fenaj apoia uma revisão da decisão de 2009, outras entidades manifestaram preocupação com a forma e o contexto em que o debate foi retomado.

A discussão envolve questões constitucionais sensíveis, especialmente a liberdade de expressão, o direito à informação e a proteção da atividade jornalística.

Por isso, uma eventual mudança exigiria uma análise cuidadosa sobre os critérios para acesso à profissão e seus efeitos sobre a liberdade de imprensa.

PEC sobre diploma continua no Congresso

A exigência de formação superior para jornalistas também é discutida no Congresso Nacional.

Uma proposta de emenda à Constituição que busca restabelecer a obrigatoriedade do diploma foi aprovada pelo Senado em 2012, mas permanece sem conclusão na Câmara dos Deputados. 

Com a manifestação de ministros do STF, o assunto ganha novamente relevância política e jurídica.

Uma eventual mudança no entendimento da Corte poderia ter impacto direto sobre o debate legislativo.

Discussão acontece em meio à transformação do jornalismo

O debate sobre a formação profissional ocorre em um cenário muito diferente daquele existente quando o STF tomou sua decisão, em 2009.

Desde então, redes sociais, plataformas digitais, blogs, podcasts, canais independentes e ferramentas de inteligência artificial transformaram profundamente a produção e a distribuição de informações.

A facilidade de publicação ampliou o número de pessoas que produzem conteúdo jornalístico ou semelhante ao jornalismo, ao mesmo tempo em que aumentou os desafios relacionados à verificação de informações, responsabilidade editorial e disseminação de conteúdos falsos.

É justamente nesse ambiente que defensores da formação específica argumentam que a qualificação profissional ganhou ainda mais importância.

Mudança não seria automática

Apesar das declarações dos ministros, é importante destacar que não existe, neste momento, uma nova decisão do STF restabelecendo a obrigatoriedade do diploma.

A manifestação de Moraes e Dino indica uma disposição para reexaminar o entendimento firmado em 2009, mas uma eventual alteração dependeria de uma nova análise judicial e dos procedimentos próprios da Corte.

Até que isso aconteça, permanece vigente a regra estabelecida pelo Supremo há 17 anos.

Debate pode ganhar novas dimensões

A possibilidade de revisão coloca novamente em discussão o papel da formação profissional no jornalismo brasileiro.

De um lado, defensores do diploma argumentam que a graduação oferece conhecimentos técnicos, jurídicos e éticos necessários para o exercício responsável da profissão.

Do outro, críticos da exigência sustentam que a obrigatoriedade poderia restringir o acesso à atividade e afetar a própria liberdade de expressão.

A discussão também terá de considerar o novo ambiente digital, no qual a distinção entre jornalismo profissional, produção independente de conteúdo e comunicação em redes sociais se tornou cada vez mais complexa.

STF volta a colocar jornalismo no centro das atenções

A manifestação de Alexandre de Moraes e Flávio Dino não restabelece o diploma obrigatório, mas recoloca uma questão que parecia consolidada desde 2009 no centro do debate jurídico brasileiro.

Agora, uma eventual revisão poderá envolver não apenas a formação acadêmica dos jornalistas, mas também temas como liberdade de imprensa, sigilo da fonte, responsabilidade profissional, direito de resposta e combate à desinformação.

O debate promete continuar tanto no Supremo quanto no Congresso, com diferentes setores da sociedade discutindo qual deve ser o equilíbrio entre qualificação profissional e liberdade de expressão no jornalismo brasileiro.