Recepção reuniu autoridades, diplomatas e representantes de diferentes setores; comércio, investimentos, tecnologia e aproximação entre os dois países estiveram no centro dos discursos
Os 77 anos da fundação da República Popular da China foram celebrados em Brasília em uma recepção que também serviu de palco para destacar a crescente aproximação entre chineses e brasileiros. Autoridades dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, integrantes das Forças Armadas, diplomatas, empresários, jornalistas e representantes da sociedade civil participaram do encontro promovido pela Embaixada da China.
O embaixador Zhu Qingqiao e a embaixatriz Zhou Yongmei receberam os convidados. Entre as autoridades presentes estavam o ministro da Agricultura e Pecuária, André Carlos Alves de Paula Filho, e a embaixadora Susan Kleebank, secretária para Ásia e Pacífico do Ministério das Relações Exteriores, que representou o governo brasileiro.
Em um ano no qual Brasil e China completam 52 anos de relações diplomáticas, boa parte da cerimônia foi dedicada ao caminho percorrido pelos dois países e, principalmente, às possibilidades que se abrem para os próximos anos.
China aposta em inovação e modernização
Em seu discurso, Zhu Qingqiao traçou um panorama das transformações vividas pela China desde a fundação da República Popular, em 1949. O embaixador chamou atenção para o atual processo de modernização da economia e para a crescente participação de setores ligados à inovação.
Manufatura avançada, inteligência artificial, robótica e tecnologia digital foram algumas das áreas citadas pelo diplomata como exemplos dessa transformação.
Zhu também ressaltou o desempenho da economia chinesa. De acordo com os dados apresentados durante a cerimônia, o Produto Interno Bruto do país cresceu 4,7% no primeiro semestre de 2026 na comparação com igual período do ano anterior.
Ao falar sobre a abertura do país e as oportunidades econômicas geradas pelo mercado chinês, deixou uma mensagem aos parceiros internacionais.
“Caminhar ao lado da China é abraçar oportunidades. Confiar na China é confiar no amanhã. Investir na China é investir no futuro”, declarou.
Brasil ocupa posição de destaque
A relação com o Brasil ganhou atenção especial. Zhu destacou o diálogo entre os presidentes Xi Jinping e Luiz Inácio Lula da Silva e afirmou que os laços bilaterais alcançaram um novo patamar.
Na avaliação apresentada pelo embaixador, a relação evoluiu de uma parceria estratégica para uma “comunidade de futuro compartilhado” entre os dois países, conceito associado por Pequim à construção de um mundo mais justo e sustentável.
Essa aproximação, segundo Zhu, não ocorre apenas entre os governos. Ela envolve parlamentos, partidos políticos, Forças Armadas, estados, municípios e diferentes segmentos das duas sociedades.
No cenário internacional, Brasil e China também mantêm interlocução em espaços como as Nações Unidas, o BRICS e o G20.
Comércio se aproxima de US$ 100 bilhões no semestre
Os números ajudam a dimensionar a importância econômica dessa relação. A China ocupa há 17 anos consecutivos a posição de maior parceiro comercial do Brasil.
No primeiro semestre de 2026, o intercâmbio entre os dois países chegou a aproximadamente US$ 96,8 bilhões. Desse total, cerca de US$ 58,3 bilhões corresponderam às exportações brasileiras para o mercado chinês, enquanto as importações provenientes da China somaram aproximadamente US$ 38,5 bilhões.
A diferença deixou para o Brasil um superávit próximo de US$ 19,8 bilhões.
O agronegócio permanece como um dos pilares desse intercâmbio, mas os dois governos enxergam espaço para uma relação cada vez mais diversificada. Energia, infraestrutura, economia digital, biotecnologia, mobilidade elétrica, inteligência artificial, fontes renováveis e tecnologia espacial aparecem entre os setores com potencial de expansão.
“O mercado chinês estará sempre aberto ao Brasil e ao mundo”, afirmou Zhu.
Investimentos aproximam as duas economias
Susan Kleebank destacou justamente a complementaridade entre as duas maiores economias em desenvolvimento dos hemisférios Oriental e Ocidental.
Segundo a diplomata brasileira, alimentos e energia estão entre os setores nos quais essa complementaridade fica mais evidente. Soja e petróleo foram mencionados como exemplos da relevância do Brasil para o abastecimento do mercado chinês.
Na direção oposta, os investimentos chineses vêm ganhando espaço no Brasil. Kleebank chamou atenção especialmente para o setor automotivo e para a chegada e expansão de fabricantes chineses de veículos elétricos e híbridos.
Para o Brasil, esses investimentos representam geração de empregos, modernização industrial e incorporação de novas tecnologias. Para as companhias chinesas, o mercado brasileiro também funciona como importante plataforma para sua internacionalização.
Parceria chega às fronteiras da tecnologia
A cooperação entre Brasília e Pequim, porém, já ultrapassa amplamente a compra e venda de produtos.
Susan Kleebank lembrou a histórica parceria espacial entre os dois países, responsável pela construção e pelo lançamento conjunto de satélites. Citou ainda a colaboração em observação astronômica, pesquisa científica, educação, saúde, inteligência artificial, transição energética, preservação ambiental e enfrentamento das mudanças climáticas.
“Estamos cooperando nas fronteiras do conhecimento”, resumiu.
A diplomata ressaltou ainda que essa relação não pertence exclusivamente aos governos. Cientistas, médicos, professores, estudantes, artistas, empresários e gestores públicos também participam da construção dos vínculos entre as duas sociedades.
Cultura e turismo aproximam brasileiros e chineses
Em 2026, essa aproximação também ganhou uma dimensão cultural com o Ano Cultural Brasil-China. Exposições, apresentações musicais, teatro, atividades ligadas ao patrimônio e intercâmbios acadêmicos integram a programação.
Para Zhu Qingqiao, ampliar o contato direto entre brasileiros e chineses é fundamental para que as duas sociedades se conheçam melhor.
O turismo acompanha esse movimento. Mais de 113 mil chineses visitaram o Brasil somente nos primeiros oito meses de 2026, segundo os números apresentados durante a recepção. O fluxo de brasileiros interessados em conhecer a China também vem crescendo.
Zhu incentivou os brasileiros a visitarem seu país e defendeu que a experiência pessoal permite conhecer uma China que muitas vezes é diferente das percepções construídas à distância.
Multilateralismo em um mundo de transformações
O cenário internacional também apareceu no pronunciamento do embaixador. Zhu reiterou a defesa chinesa do multilateralismo, do papel central das Nações Unidas e de uma ordem internacional fundamentada no direito internacional.
O diplomata defendeu a igualdade entre os países e destacou a intenção da China de aprofundar a cooperação com as nações do Sul Global.
Também mencionou as iniciativas chinesas de Desenvolvimento Global, Segurança Global e Civilização Global, além das propostas de cooperação internacional relacionadas à inteligência artificial.
Ao abordar as guerras e tensões internacionais, Zhu afirmou que Pequim defende soluções políticas e diplomáticas e mencionou a atuação chinesa diante das crises no Oriente Médio e na Ucrânia.
“Vamos de mãos dadas”
Para concluir seu discurso, o embaixador escolheu palavras brasileiras.
Recorrendo a Carlos Drummond de Andrade, Zhu citou versos de Mãos Dadas: “O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”
A escolha resumiu o tom da celebração. Mais do que recordar os 77 anos da República Popular da China, a noite projetou para o futuro uma relação que já movimenta dezenas de bilhões de dólares e avança para setores que vão da inteligência artificial ao espaço, sem deixar de lado cultura, turismo e intercâmbio entre as sociedades.
Susan Kleebank também ressaltou a importância da parceria e cumprimentou a representação chinesa pela data nacional.
A cerimônia terminou com um brinde à prosperidade dos dois países e à amizade entre brasileiros e chineses — uma relação que, após 52 anos de vínculos diplomáticos, ganha novas frentes e amplia seu peso na agenda internacional.










