A Coreia do Sul está colocando em prática um dos projetos mais ambiciosos de democratização do acesso à inteligência artificial. O governo pretende disponibilizar serviços de IA generativa gratuitamente para toda a população, sem limites de utilização, por meio do programa “AI for All”, ou “IA para Todos”.
A iniciativa busca ampliar o acesso da população à tecnologia, diminuir a chamada divisão digital e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência do país em relação às plataformas de inteligência artificial desenvolvidas por empresas estrangeiras.
O projeto avançou nesta semana com a escolha de três consórcios liderados por SK Telecom, KT e Kakao. Os grupos serão responsáveis pelo desenvolvimento e pela operação dos serviços de IA destinados ao público.
Governo quer transformar IA em serviço acessível a todos
A proposta do governo sul-coreano vai além da oferta de um chatbot gratuito.
A intenção é criar uma infraestrutura pública de inteligência artificial capaz de atender diferentes necessidades da população, desde tarefas cotidianas até o acesso a serviços governamentais.
A primeira etapa prevê o lançamento de um chatbot de uso geral. Posteriormente, a tecnologia deverá evoluir para agentes de IA capazes de executar tarefas de maneira mais autônoma.
O objetivo de longo prazo é fazer com que cada cidadão tenha acesso a um agente pessoal de inteligência artificial que possa auxiliar em atividades econômicas e sociais.
Serviço será gratuito e sem limite de uso
Um dos principais diferenciais do projeto é a promessa de oferecer acesso gratuito e sem limites de utilização.
O governo considera que as restrições existentes nas versões gratuitas de plataformas internacionais podem dificultar a democratização da tecnologia.
Além disso, existe uma preocupação estratégica com a dependência de empresas estrangeiras. Atualmente, grande parte dos sul-coreanos que utilizam inteligência artificial generativa recorre a plataformas desenvolvidas por companhias de outros países.
Com o “AI for All”, Seoul pretende criar uma alternativa baseada principalmente em modelos desenvolvidos na própria Coreia do Sul.
Três grandes grupos foram escolhidos
O governo selecionou três consórcios para colocar o projeto em funcionamento:
- SK Telecom
- KT
- Kakao
Os três grupos foram escolhidos entre seis candidatos após uma avaliação dos planos apresentados e das capacidades tecnológicas de cada proposta.
A previsão é que os acordos sejam assinados em setembro, antes do início da fase beta do serviço. A implantação para toda a população deverá ocorrer até o final de 2026.
SK Telecom aposta em diferentes modelos de IA
O consórcio liderado pela SK Telecom pretende utilizar principalmente seu modelo A.X K2, desenvolvido dentro do programa sul-coreano de modelos fundamentais soberanos.
A empresa também deverá integrar modelos desenvolvidos por outras companhias nacionais, incluindo soluções da Upstage, Motif Technologies e LG AI Research.
A estratégia busca criar um ecossistema no qual diferentes modelos possam ser utilizados dentro do serviço público de inteligência artificial.
KT pretende levar IA para diferentes plataformas
O consórcio liderado pela KT também utilizará uma combinação de modelos nacionais.
Entre eles está o Mi K Pro 2.5, desenvolvido pela própria empresa, além de soluções de outras companhias sul-coreanas.
A proposta inclui disponibilizar pontos de acesso à inteligência artificial em plataformas digitais utilizadas diariamente pelos cidadãos, incluindo o portal Daum e outros serviços parceiros.
A ideia é fazer com que a IA esteja presente em ambientes digitais já conhecidos pelos usuários, reduzindo a necessidade de aprender a utilizar uma nova plataforma.
Kakao quer integrar IA ao aplicativo de mensagens
O terceiro consórcio selecionado é liderado pela Kakao, uma das principais empresas de tecnologia da Coreia do Sul.
A estratégia do grupo prevê utilizar o popular serviço de mensagens da empresa como uma das principais portas de entrada para os recursos de inteligência artificial.
Os usuários poderão acessar funções de chatbot e agentes de IA dentro de uma experiência integrada.
O consórcio também reúne empresas e instituições dos setores financeiro, médico, tecnológico e de inteligência artificial, incluindo LG AI Research, LG CNS, LG Electronics, Lunit e o Seoul National University Hospital.
IA poderá ajudar cidadãos a acessar serviços públicos
Uma das características mais importantes do projeto é a integração entre inteligência artificial e serviços governamentais.
A proposta é permitir que os cidadãos utilizem agentes de IA não apenas para obter informações, mas também para encontrar serviços públicos e, futuramente, realizar solicitações.
Na prática, um usuário poderá conversar com um agente para descobrir quais benefícios ou serviços públicos estão disponíveis e receber auxílio durante o processo de solicitação.
Esse modelo representa uma mudança importante em relação aos chatbots tradicionais, que normalmente apenas respondem perguntas.
Governo fornecerá infraestrutura para o projeto
Para acelerar a implementação, o governo sul-coreano disponibilizará 512 GPUs Nvidia B200 aos três consórcios selecionados ainda em 2026.
A partir de 2027, o governo também pretende utilizar recursos públicos para financiar parte dos custos necessários à manutenção do serviço oferecido à população.
A infraestrutura computacional é fundamental para sustentar um serviço de IA de escala nacional, principalmente diante da promessa de acesso gratuito e sem limite de utilização.
Coreia quer reduzir dependência de empresas estrangeiras
A iniciativa também possui uma dimensão estratégica.
A Coreia do Sul considera que depender excessivamente de plataformas estrangeiras pode representar riscos econômicos e tecnológicos, especialmente caso empresas internacionais alterem preços, limites de utilização ou encerrem determinados serviços.
O governo pretende, portanto, fortalecer os modelos desenvolvidos no país e criar um ecossistema próprio de inteligência artificial.
Pelas regras do programa, os serviços deverão utilizar predominantemente modelos nacionais. Pelo menos 50% do uso deverá estar baseado em modelos fundamentais desenvolvidos na Coreia, enquanto ao menos 30% deverá utilizar modelos nacionais produzidos por empresas diferentes da responsável pelo serviço.
Projeto pretende combater a divisão digital
Outro objetivo declarado é evitar que a expansão da inteligência artificial aumente as desigualdades sociais.
Segundo o Ministério da Ciência e TIC da Coreia do Sul, aproximadamente dois terços da população já utilizaram algum serviço de IA, mas uma parcela significativa dos cidadãos ainda não tem contato com essas ferramentas.
O governo entende que a capacidade de utilizar inteligência artificial poderá ter impacto crescente sobre a competitividade profissional e econômica das pessoas.
Por isso, garantir acesso amplo à tecnologia passou a ser tratado como uma questão de inclusão digital.
Coreia do Sul mira uma sociedade com IA integrada
O plano sul-coreano prevê uma evolução gradual.
Primeiro, será disponibilizado o chatbot de uso geral. Em seguida, o governo pretende ampliar os recursos de agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas.
A partir de 2027, a meta é avançar em direção a um modelo no qual cada cidadão possa contar com seu próprio agente de IA.
O governo chama essa visão de uma “sociedade universal de IA”, na qual os benefícios econômicos e sociais da tecnologia estejam disponíveis para toda a população.
Uma experiência que pode influenciar outros países
A iniciativa sul-coreana coloca o país entre os primeiros a tratar o acesso à inteligência artificial como uma política pública de alcance nacional.
O projeto combina três objetivos: ampliar o acesso da população, fortalecer a indústria doméstica de IA e diminuir a dependência tecnológica de plataformas estrangeiras.
Se conseguir cumprir a promessa de oferecer um serviço gratuito, sem limite de uso e integrado a serviços públicos, a Coreia do Sul poderá criar um modelo que desperte o interesse de outros governos.
A próxima etapa será observar o funcionamento da versão beta prevista para setembro e verificar se a infraestrutura e os modelos nacionais conseguem atender à demanda de milhões de usuários.









