Artigo de opinião: Raul de Taunay

Neste domingo resolvi escrever o óbvio: o mundo parou. Numa virada de página, num piscar de olhos, num estalo de dedos, a vida mudou e dificilmente voltará a ser como antes. Um vírus mortífero, com elevado grau de contágio, nos pegou de surpresa, nos imobilizou, nos deu um rabo-de-arraia, uma chave de perna, um “haishu”, um “teicho” de derrubar. Em abril e maio entraremos todos no pico da prisão domiciliar e das internações, apreensivos, assustados e, alguns de nós, infelizmente, mortos. Parece um cenário de filme lúgubre de Netflix, porém é a configuração do que nos espera nesta segunda década do século 21: abraços virando guilhotinas, beijos tornando-se venenos. Cada um encerrado em si, com medo de visitar parentes, de receber filhos e netos, e de atrair, num aperto de mãos, as legiões assassinas microscópicas.

No Congo, onde estou, os voos estão cancelados e não há mais companhias aéreas operando em Brazzaville. Ou seja, estou ilhado, sem poder sair e, possivelmente, em breve, sem ter onde abastecer-me pois a comida e os combustíveis começam a escassear.

No Brasil, a situação não é melhor: somos um país de massas com poucos meios de proteger as massas; temos carência absoluta de leitos, de aparelhos respiratórios e outros equipamentos hospitalares; somos amantes de um fatalismo latino que nessas horas de disciplina e seriedade não ajuda em nada; e vamos encarar estagnação na atividade econômica, com aumento da nossa já absurda taxa de desemprego e informalidade.

No resto do mundo a pandemia já explodiu, pegou em cheio a raça humana e parece impossível de ser controlada pois até hoje não existe tratamento cientificamente válido a não ser trancar-se, nutrir-se bem e… orar.

A China parece ir melhor, depois de muito sofrimento, mas a Europa e a América do Norte estão mergulhando agora, de roupa e tudo, na correnteza inevitável do contágio.

São poucos os irrefletidos que desdenham a gravidade da situação. A maioria das pessoas vem se adequando a esta nova etapa mais intimista da vida. Uma fase menos superficial, menos soberba, menos alienada, mais solidária e consciente. Uma fase em que, melhor do que ficar buscando brigas ou culpados, devemos puxar pela imaginação e descobrir meios criativos de distração à domicílio. Com os espaços culturais e artísticos fechados por toda parte, o otimismo prevalecerá se enxergarmos a vida por meio de um novo raio de sol, desenvolvendo hábitos saudáveis: ler, meditar, ouvir música, ver filmes, jogar baralho, xadrez, damas, gamão, bolinha de gude, futebol de botão, pintar, desenhar, esculpir, cozer, bordar, recitar, cantar, tocar instrumentos, surfar pela rede, cozinhar, jogar porrinha com papel, moedas ou palitos quebrados – enfim, há tanta coisa a se fazer em casa, sobretudo, escapar desse clima ruim, desse grau mental dos memes fakes e das baixarias.

Para quem não está só em casa, é o momento de relaxar em família, recuperar o amor de sua mulher ou marido, brincar e conversar com os filhos sem dar-lhes lições de moral. Eles querem amor e não aulas. Essas, eles encontram na rede de internet, com grande facilidade.

Reaprenda-se, enfim, como ser humano mais aberto e menos fanatizado, e sentirá no seu coração um sentimento novo de equidade e certeza de que o contágio é democrático, pega gente de todos os segmentos da sociedade, os ricos, os pobres, os relevantes, os irrelevantes. Quem não se cuidar poderá aterrissar numa vala comum pela eternidade.

Imortal, só mesmo o espírito a purgar os atos que cada qual cometeu em vida. Imortal só mesmo a História, pois ela não existe apenas para nos lembrar dos efeitos devastadores das pandemias passadas sobre a humanidade, ela serve para registrar igualmente que, aprendida a lição, a raça humana continuará sendo também uma doença, uma espécie de Coronavirus, uma pandemia que, vorazmente, faz adoecer o planeta, assim como os vírus, as bactérias, os bacilos, os micróbios e os microrganismos de todas formas e origens nos atacam e nos fazem adoecer.

Nesta batalha sem trégua entre micro e macro organismos, entre sardinhas e baleias, há piranhas, lambaris, piracanjubas, arraias, polvos, camarões, lagostas e tubarões buscando igualmente a salvação.

Na última trincheira da convulsão, bem no final da linha, eis que a Filosofia, a Poesia, a Música, a Esperança e a Fé resistem bravamente ao embate, trazendo consolo, alegrias e um sentido a tudo isso.

Raul de Taunay