Bangladesh está avançando em um dos maiores programas de modernização de sua Força Aérea nas últimas décadas. O país prepara um acordo para iniciar negociações formais com a China para a possível aquisição de caças multifunção J-10CE, além de helicópteros de ataque e outros equipamentos militares.

A movimentação foi confirmada pelo assessor de Informação e Radiodifusão do primeiro-ministro de Bangladesh, Zahed Ur Rahman. Segundo ele, um comitê do governo já elaborou uma minuta de acordo após reuniões com representantes chineses, e o documento foi encaminhado às autoridades responsáveis pela análise e aprovação.

Embora o governo ainda não tenha confirmado oficialmente a quantidade de aeronaves, veículos de imprensa vêm apontando uma possível compra de até 24 J-10CE. Outros documentos e reportagens mencionam uma configuração de 20 aeronaves. Por isso, o número final ainda depende das negociações entre Dhaka e Pequim.

J-10CE pode representar salto tecnológico

A eventual aquisição representaria uma mudança importante para a Força Aérea de Bangladesh.

Atualmente, a frota de caças do país é composta principalmente por aeronaves chinesas da família F-7, além de um número menor de caças russos MiG-29.

O J-10CE pertence a uma geração muito mais moderna de aeronaves de combate. Trata-se da versão de exportação do J-10C, desenvolvido pela Chengdu Aircraft Industry Group.

O caça é monomotor, supersônico e possui capacidade multifunção, podendo executar missões de defesa aérea, combate além do alcance visual, ataque contra alvos terrestres e outras operações.

Experiência do Paquistão chamou atenção de Bangladesh

Um dos fatores que influenciaram o interesse de Dhaka está relacionado ao desempenho atribuído ao J-10 durante o confronto entre Índia e Paquistão em maio de 2025.

O Paquistão utilizou J-10C equipados com mísseis ar-ar de longo alcance durante os combates. Segundo autoridades e fontes que acompanharam o conflito, aeronaves indianas foram atingidas durante os confrontos.

A extensão exata das perdas indianas e a identificação de todas as aeronaves envolvidas continuam sendo objeto de disputa. Portanto, alegações específicas sobre o abatimento de determinados caças devem ser tratadas com cautela.

Ainda assim, o episódio aumentou a visibilidade internacional do J-10CE e passou a ser considerado por Bangladesh como uma referência de desempenho operacional.

J-10CE utiliza radar AESA

Uma das principais características do J-10C e de sua variante de exportação é a utilização de um radar de varredura eletrônica ativa, conhecido como AESA.

Esse tipo de radar permite acompanhar múltiplos alvos e realizar operações de combate além do alcance visual, aumentando a capacidade do piloto de detectar, acompanhar e engajar ameaças.

O caça também possui arquitetura digital integrada, sistemas de enlace de dados e recursos destinados à operação em rede.

A configuração exata dos sistemas eletrônicos fornecidos na versão de exportação pode variar de acordo com o contrato firmado com cada cliente.

Armamento inclui mísseis de longo alcance

O J-10CE pode empregar uma ampla variedade de armamentos chineses.

Entre eles está o PL-10E, um míssil ar-ar de curto alcance guiado por infravermelho, destinado principalmente ao combate aproximado.

Para enfrentamentos a distâncias maiores, a aeronave pode utilizar o PL-15E, míssil ar-ar equipado com radar ativo e desenvolvido para engajamentos além do alcance visual.

A aeronave também possui capacidade de empregar armamentos destinados a ataques contra alvos terrestres e marítimos.

Essa variedade permite que uma mesma plataforma seja utilizada em diferentes tipos de missões.

Caça chega a Mach 1,8

Segundo dados técnicos disponíveis em fontes abertas, o J-10CE possui velocidade máxima próxima de Mach 1,8 e teto operacional de aproximadamente 18 mil metros.

A aeronave tem cerca de 17 metros de comprimento e pode transportar armamentos, sensores e tanques externos em múltiplos pontos de fixação.

O caça também dispõe de capacidade de reabastecimento em voo, recurso que pode aumentar seu alcance e ampliar a flexibilidade operacional em determinadas missões.

Os números de alcance e raio de combate, entretanto, variam de acordo com o peso da aeronave, quantidade de combustível, armamentos transportados e perfil da missão.

Bangladesh já depende fortemente da China

A possível compra do J-10CE não representa uma aproximação inédita entre os dois países.

A China é atualmente o principal fornecedor de equipamentos militares para Bangladesh.

Nas últimas duas décadas, Pequim forneceu ao país diferentes tipos de equipamentos, incluindo aeronaves de combate, navios, submarinos, blindados e sistemas de mísseis.

A continuidade dessa relação cria uma vantagem logística para a eventual aquisição do J-10CE, já que Bangladesh possui experiência com equipamentos chineses e infraestrutura relacionada à manutenção de aeronaves produzidas no país asiático.

Compra pode custar bilhões de dólares

O valor final da possível aquisição ainda não foi oficialmente definido.

Entretanto, documentos e reportagens locais indicaram anteriormente uma proposta envolvendo 20 J-10CE por cerca de US$ 2,3 bilhões, considerando não apenas as aeronaves, mas também treinamento, suporte técnico, logística, infraestrutura, seguros e outros custos associados.

Esse modelo é importante porque o preço de aquisição de um caça não representa necessariamente o custo total de um programa militar.

Treinamento de pilotos e equipes de manutenção, peças de reposição, equipamentos de apoio, armamentos e infraestrutura podem representar uma parcela significativa do investimento.

Programa também inclui helicópteros e drones

A modernização planejada por Bangladesh não está limitada aos caças.

O governo também trabalha em projetos envolvendo helicópteros de ataque, helicópteros para transporte de autoridades e sistemas aéreos não tripulados.

O objetivo é renovar diferentes segmentos da aviação militar e aumentar a capacidade operacional da Força Aérea.

A aquisição dos J-10CE seria, portanto, apenas uma parte de um programa mais amplo de modernização.

China pode ampliar presença no mercado internacional

Para Pequim, uma eventual venda para Bangladesh teria importância que vai além do valor financeiro do contrato.

O J-10CE ainda possui uma base relativamente limitada de operadores estrangeiros, e novos clientes ajudariam a ampliar a presença internacional do caça.

O Paquistão é um dos principais operadores estrangeiros conhecidos do modelo, enquanto outros países também demonstraram interesse na aeronave.

Uma possível encomenda de Bangladesh colocaria o país entre os operadores internacionais de uma das principais plataformas de combate desenvolvidas pela indústria aeronáutica chinesa.

Índia acompanha movimento com atenção

A possível aquisição também tem implicações estratégicas no Sul da Ásia.

Bangladesh e Índia compartilham uma extensa fronteira terrestre e possuem relações históricas complexas, enquanto a Índia opera uma força aérea equipada com aeronaves de diferentes origens, incluindo caças franceses Rafale.

A introdução de uma frota moderna de J-10CE em Bangladesh poderia alterar parcialmente o equilíbrio de capacidades aéreas na região.

Isso não significa, porém, que uma compra de até 24 aeronaves isoladamente modificaria o equilíbrio militar do Sul da Ásia. O efeito dependeria de fatores como treinamento, disponibilidade, armamentos, infraestrutura, sistemas de alerta antecipado e integração com outras forças.

Acordo ainda depende de aprovação

Apesar do avanço das negociações, a aquisição ainda não deve ser tratada como uma entrega imediata de aeronaves.

O governo de Bangladesh precisa concluir as negociações, definir quantidade, configuração, preço, cronograma de pagamento e condições de entrega.

O próprio governo indicou que a compra poderá ser executada no atual ano fiscal caso haja recursos disponíveis. Caso contrário, o programa poderá ser transferido para o orçamento seguinte.

Se o contrato for finalmente assinado, a chegada dos J-10CE representará uma das mudanças mais significativas na capacidade de combate da Força Aérea de Bangladesh em décadas.