Cerimônia realizada em Brasília reúne 60 novos diplomatas, incluindo dois indígenas e uma quilombola, e representa um avanço na diversidade do Ministério das Relações Exteriores.

Brasília, 5 de novembro de 2026 — A diplomacia brasileira viveu um momento histórico nesta quarta-feira (4), com a posse de dois indígenas e uma mulher quilombola no Ministério das Relações Exteriores (MRE). A cerimônia, realizada no Palácio Itamaraty, em Brasília, marcou uma nova etapa na ampliação da representatividade dos povos originários e das comunidades tradicionais na política externa brasileira.

Os novos diplomatas indígenas são Marcelo Kariri Meneses e Idjahure Achkar de Mendonça Pinto, pertencentes aos povos Kariri e Terena, respectivamente. Também tomou posse Helen Jaine Gomes Borgens, de 25 anos, integrante da comunidade quilombola do Retiro, localizada em Simolândia, no nordeste de Goiás.

A solenidade reuniu autoridades e representantes de diferentes setores da sociedade. Entre os presentes estavam a ministra substituta das Relações Exteriores, embaixadora Maria Laura da Rocha, o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, e a ministra da Igualdade Racial, Rachel de Oliveira.

O escritor e líder indígena Ailton Krenak, primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras, participou como orador da cerimônia.

Diversidade na diplomacia brasileira

A nova turma do Instituto Rio Branco é composta por 60 diplomatas. Desse total, 27 integram grupos historicamente sub-representados, incluindo 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência, dois indígenas e uma quilombola.

Outro destaque é a participação feminina. Com 27 mulheres, equivalentes a 45% dos integrantes, a turma registra a maior proporção feminina da história da instituição.

Os novos servidores ingressam na carreira como terceiros-secretários e deverão cumprir o curso de formação do Instituto Rio Branco, responsável pela preparação dos profissionais que representarão o Brasil no cenário internacional.

Um novo capítulo para os povos indígenas

A posse representa um marco na trajetória de inclusão dos povos indígenas nos espaços de decisão do Estado brasileiro.

Pela primeira vez, o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) contou com vagas especificamente reservadas para indígenas e quilombolas, conforme as novas regras de ações afirmativas no serviço público federal.

A presença indígena na diplomacia também amplia a possibilidade de incorporar diferentes conhecimentos, experiências e perspectivas às discussões internacionais, especialmente em temas como mudanças climáticas, proteção da biodiversidade, direitos humanos e desenvolvimento sustentável.

Formação e oportunidades

O ingresso dos novos diplomatas ocorre em um contexto de iniciativas voltadas à ampliação da participação indígena nas relações internacionais.

Entre elas está o programa Kuntari Katu — Líderes Indígenas na Política Global, desenvolvido pelo Ministério dos Povos Indígenas, com foco na formação de lideranças para atuação em espaços internacionais.

Outra iniciativa é a concessão de bolsas de preparação para candidatos indígenas interessados na carreira diplomática, em parceria com o Itamaraty e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Representatividade além das fronteiras

A chegada dos novos profissionais ao Itamaraty amplia a diversidade de trajetórias presentes na instituição responsável por representar o Brasil perante outros países e organismos internacionais.

Mais do que o ingresso em uma carreira pública, a posse dos diplomatas indígenas simboliza a abertura de novas oportunidades para que integrantes dos povos originários participem diretamente da construção e da execução da política externa brasileira.

O desafio, a partir de agora, será consolidar os avanços no acesso à carreira e fortalecer as condições para uma representação cada vez mais plural da sociedade brasileira no cenário internacional.