A elevação do nível dos oceanos deixou de ser uma ameaça distante e já representa um problema concreto para comunidades costeiras em diferentes partes do planeta. Um novo relatório das Nações Unidas alerta que, sem medidas urgentes de adaptação, até 1,2 bilhão de pessoas poderão ser deslocadas até 2050 em consequência dos impactos provocados pelo avanço das águas.

O documento foi apresentado pela subsecretária-geral da ONU, Amina J. Mohammed, durante a 55ª Reunião dos Líderes do Fórum das Ilhas do Pacífico, em Palau.

A organização destaca que o fenômeno afeta muito mais do que áreas próximas ao litoral. Segurança alimentar, abastecimento de água, saúde, infraestrutura, economia, patrimônio cultural e até questões relacionadas à soberania dos países podem ser afetados.

770 milhões de pessoas vivem em áreas vulneráveis

Atualmente, aproximadamente 770 milhões de pessoas vivem em regiões costeiras localizadas a menos de cinco metros acima da linha de maré alta.

Isso significa que cerca de uma em cada dez pessoas no mundo está vivendo em áreas particularmente expostas aos efeitos da elevação do nível do mar.

Para essas populações, o aumento das águas pode intensificar inundações, erosão costeira, contaminação de fontes de água doce e destruição de infraestrutura.

A situação é ainda mais preocupante em pequenas ilhas e regiões densamente povoadas, onde existem poucas alternativas para deslocamento das comunidades.

Oceanos estão subindo em ritmo acelerado

Segundo o relatório da ONU, o aumento do nível médio dos oceanos está relacionado principalmente ao aquecimento das águas e ao derretimento de geleiras e mantos de gelo.

O ritmo observado recentemente é considerado excepcional.

Em 2024, o nível médio global do mar aumentou aproximadamente 5,9 milímetros em apenas um ano, o maior crescimento anual registrado até agora.

Entre 2014 e 2023, a média anual havia sido de aproximadamente 4,7 milímetros.

Embora alguns milímetros possam parecer pouco, a elevação acumulada ao longo de décadas pode produzir mudanças significativas em regiões costeiras.

Mudança climática acelera o problema

O aquecimento global influencia diretamente a elevação dos oceanos.

Quando a temperatura dos mares aumenta, a água se expande. Ao mesmo tempo, o aumento das temperaturas provoca o derretimento de geleiras e grandes massas de gelo, acrescentando mais água aos oceanos.

Esses processos combinados fazem com que o nível do mar continue aumentando.

O relatório da ONU ressalta que a velocidade dessa transformação está aumentando e que as decisões tomadas atualmente terão influência direta sobre a dimensão dos impactos nas próximas décadas.

Cidades costeiras enfrentam riscos crescentes

Grandes centros urbanos localizados próximos ao litoral estão entre os locais mais expostos.

A elevação do nível do mar pode aumentar a frequência e a intensidade das inundações, principalmente quando o avanço das águas se combina com tempestades, marés altas e chuvas intensas.

Além dos danos imediatos, cidades costeiras podem enfrentar custos cada vez maiores para proteger portos, estradas, sistemas de saneamento, redes elétricas e áreas residenciais.

O problema é particularmente complexo em cidades que possuem milhões de habitantes concentrados em áreas próximas ao nível do oceano.

Infraestrutura já acumula trilhões em riscos

Os impactos econômicos também estão crescendo.

Segundo o relatório apresentado pela ONU, os danos relacionados à infraestrutura costeira já são estimados em mais de US$ 1,8 trilhão.

Sem investimentos adequados em adaptação, as perdas econômicas globais anuais podem alcançar entre US$ 1,2 trilhão e US$ 4 trilhões até o final do século.

Esses valores incluem impactos sobre infraestrutura, atividades econômicas e comunidades afetadas pela transformação das áreas costeiras.

Turismo e pesca estão entre os setores ameaçados

A elevação do nível do mar também ameaça setores fundamentais para diversas economias.

Pesca, turismo e atividades portuárias dependem diretamente da estabilidade das regiões costeiras.

No Caribe, por exemplo, o relatório aponta que quase 40% das praias podem desaparecer até 2050 se as tendências atuais continuarem.

A perda dessas áreas teria consequências importantes para países que dependem do turismo marítimo como fonte de receitas e empregos.

Água potável pode ser contaminada

Um dos riscos menos visíveis está relacionado ao abastecimento de água.

À medida que o mar avança sobre áreas costeiras, a água salgada pode penetrar em reservas subterrâneas de água doce.

Esse processo, conhecido como intrusão salina, pode comprometer fontes utilizadas para abastecimento humano e agricultura.

Em comunidades insulares, onde as fontes de água doce são naturalmente limitadas, o problema pode assumir proporções ainda maiores.

Segurança alimentar também está em risco

A agricultura em regiões costeiras pode sofrer com a salinização do solo e das reservas de água.

A redução da disponibilidade de água doce pode dificultar a produção de alimentos, enquanto tempestades e inundações podem destruir plantações e infraestrutura agrícola.

Em áreas que dependem fortemente da pesca, alterações nos ecossistemas marinhos também podem comprometer a renda das comunidades.

Dessa forma, a elevação dos oceanos pode criar uma combinação de problemas ambientais, econômicos e sociais.

Pequenos países insulares estão entre os mais vulneráveis

As pequenas nações insulares do Pacífico estão entre as áreas que enfrentam os maiores riscos.

Em alguns desses países, o território disponível é extremamente limitado. O avanço do mar pode obrigar comunidades inteiras a buscar novos locais para viver.

Algumas populações insulares já começaram a discutir ou implementar processos de realocação planejada diante da perda progressiva de território.

A ONU alerta que essas mudanças precisam ser conduzidas de forma a proteger os direitos das populações afetadas e preservar sua identidade cultural.

Elevação do mar também cria problemas jurídicos

O problema não termina nas fronteiras físicas dos países.

A mudança permanente da linha costeira pode levantar questões relacionadas à definição de territórios, fronteiras marítimas e direitos sobre recursos naturais.

A ONU defende que a elevação do nível do mar não deve provocar automaticamente a perda dos direitos dos Estados sobre suas zonas marítimas reconhecidas pelo direito internacional.

A organização considera necessária uma cooperação internacional para estabelecer maior segurança jurídica diante das transformações provocadas pelas mudanças climáticas.

ONU apresenta 18 recomendações

O relatório apresenta 18 recomendações para ajudar os países a enfrentar o problema.

Entre as medidas estão a redução acelerada das emissões de gases de efeito estufa, o fortalecimento dos sistemas de alerta precoce, o aumento do financiamento destinado à adaptação climática e a ampliação da coleta de dados científicos.

A ONU também defende maior apoio às comunidades que já estão expostas aos efeitos da elevação dos oceanos.

A estratégia combina ações para reduzir a causa do problema com medidas destinadas a preparar populações e infraestrutura para mudanças que já estão em andamento.

Reduzir emissões continua sendo fundamental

Mesmo com investimentos em adaptação, a ONU ressalta que limitar o aquecimento global continua sendo essencial.

Quanto maior o aumento da temperatura do planeta, maiores tendem a ser os impactos sobre os oceanos e as geleiras.

Isso significa que políticas de redução das emissões de gases de efeito estufa podem influenciar diretamente a velocidade com que o nível do mar continuará subindo ao longo deste século.

Ao mesmo tempo, os países precisam se preparar para os impactos que já não podem ser completamente evitados.

Um desafio que exige ação internacional

A elevação do nível do mar não respeita fronteiras nacionais.

Os impactos podem atingir países que contribuíram em proporções muito diferentes para as emissões responsáveis pelo aquecimento global.

Por isso, as Nações Unidas defendem uma resposta baseada em cooperação internacional, financiamento climático, compartilhamento de tecnologia e proteção das populações mais vulneráveis.

O alerta apresentado em Palau reforça que o problema já está acontecendo e que o tempo disponível para preparação é limitado.

Se medidas de adaptação e redução das emissões forem ampliadas, será possível diminuir parte dos impactos projetados. Caso contrário, milhões de pessoas poderão enfrentar deslocamentos, perda de infraestrutura e mudanças profundas em seus territórios nas próximas décadas.