O livro vencedor foi anunciado no dia 28 de agosto, em cerimônia na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Depois do sucesso da quarta edição, que recompensou Senhor Vênus, de Rachilde, publicado pela Editora Hedra e traduzido por Flávia Lago, a Embaixada da França no Brasil, por meio do seu Escritório do Livro e do Debate de Ideias, e um júri de profissionais da tradução do francês para o português do Brasil, anunciaram o ganhador dessa quinta edição.

O júri de 2026, composto pela tradutora premiada da quarta edição, Flávia Lago, assim como pelo professor, pesquisador, autor e tradutor Marcelo Jacques de Moraes, e pela professora e tradutora Laura Barbosa Campos, concordou em premiar Djeddo Dewal, mãe da calamidade, de Amadou Hampâté Bâ, traduzido por Fernanda Murad Machado e publicado pela Editora Hedra. Para o júri, a tradutora conseguiu, com qualidade excepcional, restituir toda a vitalidade de um texto nascido da tradição oral do povo fula, na África Ocidental, preservando o ritmo, as referências culturais e os jogos de linguagem desse conto iniciático e fundador. O júri também fez questão de destacar a ambição do projeto da tradutora, que pesquisou e mergulhou na obra de Hampâté Bâ para restituir todo esse universo da melhor maneira possível, fazendo desse trabalho, como diz o júri, “o trabalho de uma vida”.

Os finalistas do Prêmio eram:
⦁ O ensaio Queer zones 2: sexopolíticas de Sam Bourcier, traduzido por Caroline Micaelia e Henrique Provinzano Amaral e publicado pela editora Crocodilo edições, que recebeu a menção honrosa do júri;
⦁ As duas peças de teatro A catedral dos porcos & Ópera poeira, traduzidas por Prisca Agustoni e publicadas pela editora Ars et Vita;
⦁ Os Contos dos sábios crioulos de Patrick Chamoiseau, traduzidos por Raquel Camargo e publicados pela Editora 34;
⦁ A Condessa Ensanguentada de Valentine Penrose, traduzida por Flávia Falleiros e publicada pela editora Ercolano;
⦁ E o ensaio Civilização ou barbárie: antropologia sem complacência de Cheikh Anta Diop, traduzido por César Sobrinho e publicado por Edições Sesc São Paulo.

O Prêmio:
A tradutora recebeu 2.500 euros para usar num projeto vinculado à tradução

A tradutora:
Fernanda Murad Machado é professora na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pesquisadora com atuação destacada em literaturas africanas francófonas, literatura francesa, tradução e história cultural da África nos séculos XIX e XX. Formou-se em Letras Modernas pela Université Paris-Sorbonne em 2003; fez mestrado em Literatura e Língua Francesas pela mesma instituição em 2005; e concluiu o doutorado em Literatura e Civilização Francesas em 2010, também pela Sorbonne. Seus temas de pesquisa incluem a oralidade africana, relações entre escritor e leitor, representação feminina na literatura francófona africana, identidades culturais, memória histórica e tradução. É autora de L’univers fabuleux d’Amadou Hampâté Bâ. D’une relation singulière entre l’écrivain

D’une relation singulière entre l’écrivain et son lecteur (pups–Sorbonne, 2015)

O livro:
Njeddo Dewal, mãe da calamidade (1993) é um dos mais importantes contos iniciáticos do povo fula, difundido em diversas regiões da África Ocidental. De caráter simbólico e alegórico, a narrativa combina fantasia, ética, filosofia e religião, sendo tradicionalmente usada como veículo de transmissão de conhecimento. O texto foi coletado e traduzido por Hampâté Bâ, que o transformou em livro sem abrir mão do espírito performático da oralidade: repetições, fórmulas de abertura, cantigas, diálogos e onomatopeias recriam na página o ambiente da contação de histórias. Esta edição reúne uma introdução e um capítulo dedicado à genealogia mítica do conto, além de notas e comentários voltados à simbologia da cultura fula, todos redigidos pelo próprio autor — mas sem deixar de preservar as zonas de mistério que uma leitura iniciática exige.

Ficha técnica do livro:
ISBN: 978-65-89705-67-3
Ano de Publicação: 2025
Edição: 1ª
Páginas: 288
Dimensões: 14,0 × 21,0 cm
Idioma: Português

O autor:

Amadou Hampâté Bâ (Bandiagara, 1901–Abidjan, 1991) nasceu no Sudão Francês, atual Mali. Escritor, historiador, etnólogo, poeta e contador de histórias, foi um dos maiores especialistas da cultura fula e um dos primeiros intelectuais africanos a coletar, transcrever e explicar os tesouros da literatura oral tradicional da África Ocidental. Com a independência do Mali, em 1960, integrou os quadros da UNESCO, primeiro como delegado de seu país, depois como membro do Conselho Executivo. Ganhou projeção internacional por sua luta em defesa da alfabetização em línguas africanas, da valorização das culturas do continente e, sobretudo, da preservação das tradições orais. Publicou estudos históricos, como L’Empire peul du Macina [O império fula de Macina] (1955), narrativas iniciáticas, como Koumen (1961), reflexões sobre a religião, como Vie et enseignement de Tierno Bokar, le sage de Bandiagara [Vida e ensinamentos de Tierno Bokar, o sábio de Bandiagara] (1980), contos, como Petit Bodiel et autres contes de la savane [Petit Bodiel e outros contos da savana] (1994), além do premiado romance L’étrange destin de Wangrin [O estranho destino de Wangrin] (1973), e de dois livros de memórias, dos quais o primeiro foi traduzido no Brasil sob o título Amkoullel o menino fula (2003). Hampâté Bâ faleceu na Costa do Marfim, deixando como legado uma obra fundamental para a memória cultural africana e para o reconhecimento da oralidade como patrimônio universal.

A Editora Hedra:

A Hedra é uma editora independente que cria circuitos entre clássicos que resistem ao tempo, pensamento libertário e narrativas de resistência.

A editora Hedra foi fundada em 1998 com o propósito de democratizar o acesso à produção cultural e intelectual, abrangendo tanto clássicos considerados universais quanto manifestações populares brasileiras e de culturas historicamente marginalizadas pelo circuito editorial eurocentrado.

Editora de permanências — qualidade do que resiste ao tempo e ao mundo — a Hedra produz livros multiplataforma, por meio de softwares livres, em tinta, pixels e ondas sonoras.

Os organizadores:
Escritório do Livro da Embaixada da França
Com o objetivo de promover a venda de direitos, a tradução e a distribuição de livros francófonos no Brasil, o Escritório do Livro mantém relações regulares com todos os atores da economia do livro os quais apoia através de diversos programas (Programas de Apoio à Publicação da Embaixada e do Institut Français, Prêmio de Tradução da Embaixada da França, etc.) e com quem organiza ações em parceria.
O Escritório do Livro também trabalha para promover e divulgar os autores francófonos no Brasil, facilitando a presença deles nos principais eventos literários do país.

Biblioteca Nacional
Com mais de 200 anos de história, a Biblioteca Nacional é a mais antiga instituição brasileira, anterior mesmo à constituição do Brasil como nação independente.
A Biblioteca Nacional (BN) tem a missão de coletar, registrar, salvaguardar e dar acesso à produção intelectual brasileira. A BN mantém parcerias e ações de cooperação com instituições diversas para troca de conhecimento, promoção de pesquisa e de boas práticas de organização, gestão, conservação, preservação e valorização do acervo, definindo projetos comuns que fortaleçam, nos âmbitos nacional e internacional, a missão e o papel da instituição.

A gravação da cerimônia está disponível no canal youtube da BiblioMaison (a biblioteca do Consulado da França no Rio de Janeiro):
Escritório do Livro & BiblioMaison – YouTube