A China vem ampliando, a partir de Xiamen, uma estrutura de cooperação voltada aos países do Sul Global por meio do Centro de Inovação da Parceria do BRICS para a Nova Revolução Industrial. A iniciativa busca aproximar governos, empresas e instituições em projetos relacionados à tecnologia, indústria, investimentos e formação profissional.
Criado após ser anunciado na 12ª Cúpula do BRICS, em 2020, o centro tem como base a cidade de Xiamen, na província de Fujian. Desde então, passou a atuar em frentes como coordenação de políticas públicas, desenvolvimento de projetos internacionais e capacitação de profissionais, com o objetivo de ampliar as oportunidades de cooperação entre economias emergentes.
Mais de 138 projetos de cooperação
Ao longo dos últimos anos, a estrutura promoveu dezenas de encontros internacionais e consolidou uma carteira crescente de projetos. Dados divulgados pelas autoridades de Fujian apontam para 138 iniciativas de cooperação assinadas, associadas a investimentos superiores a 62 bilhões de yuans.
A atuação também ganhou uma dimensão voltada diretamente à expansão empresarial. Em maio de 2026, começou a funcionar em caráter experimental o BRICS Industrial Cooperation and Go Global Comprehensive Service Hub, concebido como uma estrutura de atendimento integrado para facilitar investimentos internacionais.
O hub reúne 41 instituições especializadas e parques industriais estrangeiros e conta com a participação de organismos oficiais de promoção de investimentos de países como Brasil e África do Sul.
A estratégia inclui ações específicas para estimular empresas chinesas a buscar novos mercados. Em julho e agosto, foram realizadas atividades direcionadas à Nigéria e à Malásia, que reuniram mais de 300 empresas interessadas em oportunidades de internacionalização.
Até o fim de agosto, o centro contabilizava aproximadamente 300 delegações e mais de 3 mil visitantes. Entre eles estavam mais de 200 representantes estrangeiros provenientes de 29 países.
Projetos aproximam China, Brasil e África
Outra frente de atuação envolve a aproximação comercial entre empresas e mercados do BRICS. O Centro de Inovação tem promovido encontros empresariais em cidades como Xiamen, Moscou e Cairo, criando oportunidades para negociações e projetos conjuntos.
Entre os negócios associados a essas iniciativas está um acordo de aproximadamente US$ 500 milhões envolvendo minério de ferro e a empresa chinesa Xiamen C&D Inc., em uma operação relacionada ao Brasil.
A infraestrutura logística também faz parte dessa estratégia. Xiamen desenvolveu novas conexões comerciais com países do BRICS, incluindo rotas inteligentes para Durban e Cidade do Cabo, na África do Sul. Segundo os dados divulgados, essas soluções contribuíram para reduzir em 60% o tempo de eficiência relacionado ao desembaraço aduaneiro.
A ligação aérea com São Paulo também ganhou relevância, com mais de 700 voos e cerca de 47 milhões de encomendas transportadas. Paralelamente, foram adotadas medidas para aperfeiçoar os serviços de transporte ferroviário de cargas entre a China e a Europa.
Tecnologia chinesa avança na África
A cooperação tecnológica também aparece em projetos realizados em países africanos. Em abril de 2025, a marca Golden Dragon, de Xiamen, entregou 100 ônibus elétricos para Adis Abeba, capital da Etiópia.
A operação representou a primeira implantação em larga escala de veículos chineses de nova energia na África Oriental. Os veículos foram montados localmente a partir de kits desmontados, conhecidos como KD, e utilizaram baterias fornecidas pela CATL, além de sistemas de carregamento baseados em padrões chineses.
No setor de inteligência artificial, uma empresa de Xiamen também concluiu em agosto sua primeira implantação na Etiópia. A Unisound disponibilizou um grande modelo de linguagem para uma companhia local de comércio eletrônico por transmissões ao vivo.
A tecnologia permite o uso de ferramentas de IA para geração de textos, clonagem de voz e produção de conteúdo com dublagem em diferentes idiomas.
Outra iniciativa está prevista para entrar em operação ainda este mês. A base internacional do Xiamen AI Magic Token Go-Global Ecosystem Hub deverá funcionar como uma plataforma voltada à exportação de conteúdos produzidos com inteligência artificial, com soluções adaptadas aos mercados dos países do BRICS.
Capacitação profissional entra no centro da estratégia
A formação de mão de obra especializada é outra prioridade da iniciativa. O Centro de Inovação de Xiamen desenvolveu 720 cursos e concluiu mais de 90 projetos de capacitação, alcançando aproximadamente 2.600 profissionais de 140 países.
Os programas abrangem áreas relacionadas à manufatura inteligente, transformação digital e economia digital, entre outros segmentos associados à modernização industrial.
Um dos principais programas é a Bolsa de Excelência “Golden Egret”. Nas duas primeiras edições, realizadas em 2025 e 2026, a iniciativa recebeu 55 participantes de 28 países.
O grupo reúne representantes de governos, pesquisadores e executivos de empresas dos setores industrial e de telecomunicações, além de profissionais ligados à área diplomática.
A programação combina atividades acadêmicas sobre a experiência chinesa de desenvolvimento industrial com visitas a empresas de tecnologia, entre elas Alibaba, Huawei, Unitree Robotics e Golden Dragon.
Fujian estabelece meta de cooperação até 2030
A expansão dessas iniciativas também passou a integrar uma estratégia institucional mais ampla da província de Fujian.
Em abril de 2026, o governo provincial apresentou uma diretriz com medidas voltadas à coordenação de políticas, formação de talentos e desenvolvimento de projetos. A meta é estabelecer, até 2030, uma rede de cooperação direcionada aos países do Sul Global.
Nesse planejamento, o Centro de Inovação da Parceria do BRICS para a Nova Revolução Industrial deverá desempenhar papel central como plataforma de conexão entre empresas, governos e instituições.
A estratégia ocorre em um momento de ampliação da agenda econômica e tecnológica do BRICS. Na cúpula realizada em Nova Délhi em setembro de 2026, a China apresentou novas propostas para aprofundar a cooperação do bloco em áreas como inteligência artificial, comércio, cadeias produtivas e investimentos.
Com a China assumindo a presidência do BRICS em 2027, as estruturas desenvolvidas em Xiamen passam a integrar uma rede mais ampla de iniciativas destinadas a aproximar as economias emergentes e ampliar a cooperação entre países do Sul Global.









