Brasil e Estados Unidos retomam nesta segunda-feira (31) as negociações sobre as tarifas aplicadas pelo governo norte-americano a produtos brasileiros. O encontro marca a reabertura formal do diálogo entre os dois países depois de semanas de tensão comercial.
A reunião será realizada por videoconferência e contará com a participação do ministro brasileiro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e do representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer.
A retomada das conversas foi acertada depois de uma ligação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, realizada em 21 de agosto. Na ocasião, os dois governos concordaram em reabrir um canal direto de negociação comercial.
Brasil quer reduzir impacto das tarifas
O governo brasileiro pretende utilizar a nova rodada de negociações para tentar ampliar o número de produtos que ficam fora das sobretaxas norte-americanas.
Atualmente, parte das mercadorias brasileiras está sujeita a uma tarifa adicional de 25%, enquanto outra sobretaxa de 12,5% foi estabelecida em uma medida relacionada às alegações norte-americanas sobre trabalho forçado.
Quando as duas medidas incidem simultaneamente sobre determinados produtos, a carga adicional chega a 37,5%.
O governo brasileiro considera a ampliação das exceções uma das alternativas mais concretas para diminuir os efeitos econômicos do tarifaço.
Tarifas foram impostas por motivos diferentes
A sobretaxa de 25% foi criada após uma investigação específica dos Estados Unidos sobre práticas comerciais brasileiras.
Washington apresentou uma série de justificativas para a medida, envolvendo temas como desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e outras questões relacionadas ao comércio bilateral.
A segunda tarifa, de 12,5%, está associada a uma investigação mais ampla sobre mecanismos de combate ao trabalho forçado nas cadeias internacionais de produção.
O governo brasileiro contesta as justificativas e considera que as medidas adotadas pelos Estados Unidos são inadequadas.
Até 37,5% pode incidir sobre determinados produtos
As duas sobretaxas podem ser acumuladas quando um mesmo produto está enquadrado nas duas medidas.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, 16,5% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, considerando os dados de 2024, estão sujeitas simultaneamente às duas tarifas.
Esse grupo representa cerca de US$ 6,6 bilhões em exportações e pode sofrer uma sobretaxa combinada de 37,5%.
Outros produtos estão sujeitos somente à tarifa de 25% ou apenas à sobretaxa de 12,5%.
Mais da metade das exportações não sofre essas sobretaxas
Apesar do impacto do tarifaço, as medidas não atingem todas as exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano.
O levantamento do MDIC indica que aproximadamente 52,7% das exportações brasileiras para os Estados Unidos não estão sujeitas às sobretaxas adicionais das duas medidas.
Entre os produtos que permanecem fora dessas tarifas estão, por exemplo, café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, vários produtos químicos e grande parte das exportações de celulose.
Essa diferença será importante nas negociações, já que o Brasil busca ampliar justamente a quantidade de produtos protegidos das novas tarifas.
Comércio entre Brasil e EUA perdeu força
O conflito tarifário acontece em um momento de desaceleração do comércio bilateral.
As exportações brasileiras para os Estados Unidos alcançaram US$ 40,4 bilhões em 2024, mas recuaram para US$ 37,7 bilhões em 2025.
No primeiro semestre de 2026, os embarques brasileiros ao mercado norte-americano somaram US$ 17,4 bilhões, uma queda de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras também diminuiu, passando de 12,1% para 9,4% na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026.
Lula defendeu retomada do diálogo
A reabertura das negociações ocorreu após a conversa telefônica entre Lula e Trump.
Durante o telefonema, o presidente brasileiro afirmou que as justificativas utilizadas pelos Estados Unidos para impor as novas tarifas eram infundadas.
Lula também argumentou que as medidas prejudicam os dois países e defendeu a negociação como o melhor caminho para preservar a relação comercial.
Trump concordou com a necessidade de manter os vínculos econômicos entre Brasil e Estados Unidos e indicou que as equipes dos dois governos deveriam voltar a trabalhar conjuntamente.
Brasil também recorreu à OMC
Paralelamente às negociações bilaterais, o Brasil acionou o sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Brasília argumenta que as tarifas norte-americanas são incompatíveis com as regras comerciais internacionais.
Os Estados Unidos aceitaram participar das consultas solicitadas pelo governo brasileiro no âmbito da organização.
A iniciativa permite que o Brasil mantenha uma frente diplomática e jurídica enquanto tenta encontrar uma solução diretamente com Washington.
Governo brasileiro mantém estratégia de reciprocidade
Enquanto negocia com os Estados Unidos, o Brasil também adotou mecanismos próprios para responder às barreiras comerciais.
O governo acionou a Lei de Reciprocidade Econômica, que permite estabelecer medidas de resposta caso produtos e empresas brasileiras sejam prejudicados por restrições consideradas injustificadas.
A estratégia brasileira, porém, combina a preparação de possíveis medidas de retaliação com a tentativa de solucionar o conflito por meio do diálogo.
Negociação pode definir próximos passos
A reunião desta segunda-feira não significa que um acordo será alcançado imediatamente.
O principal objetivo inicial é restabelecer o canal técnico entre os dois governos e identificar quais pontos podem ser negociados.
Para o Brasil, uma das prioridades é ampliar as exceções às tarifas e proteger setores mais expostos ao mercado norte-americano.
Para os Estados Unidos, a expectativa é que Brasília apresente respostas às questões utilizadas por Washington para justificar parte das medidas.
Tarifaço coloca relação comercial em novo momento
A retomada das negociações representa uma mudança importante depois de semanas de escalada nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
O diálogo aberto por Lula e Trump cria uma oportunidade para reduzir as tensões, mas ainda existem diferenças significativas entre as posições dos dois governos.
Enquanto o Brasil afirma que as justificativas para as tarifas são infundadas e defende a redução das sobretaxas, Washington mantém as medidas em vigor.
O resultado das próximas rodadas de negociação poderá determinar se os dois países conseguem construir uma solução diplomática ou se a disputa comercial continuará afetando parte relevante das exportações brasileiras.









