A expansão dos veículos autônomos começa a transformar o setor de transportes nos países do BRICS, que vêm adotando diferentes estratégias para incorporar inteligência artificial, conectividade e sistemas automatizados à mobilidade urbana e logística.

O movimento envolve investimentos em infraestrutura digital, desenvolvimento de tecnologias nacionais, criação de novas regras e realização de testes com veículos capazes de operar com diferentes níveis de autonomia.

A preparação ocorre em um momento em que a transformação digital deixa de estar restrita às telecomunicações e passa a ocupar espaço estratégico no transporte, na logística, na agricultura e nas cidades inteligentes.

China lidera avanço dos veículos autônomos

A China aparece entre os países mais avançados na adoção de sistemas de direção autônoma.

Grandes cidades chinesas já realizam testes e operações comerciais com robotáxis e outros veículos sem motorista, enquanto autoridades trabalham na criação de regras específicas para permitir a expansão desse tipo de transporte.

Em Dubai, por exemplo, veículos autônomos chineses já passaram da fase experimental para a operação comercial. O serviço começou funcionando em uma área de aproximadamente 25 quilômetros quadrados e existe previsão de ampliar a frota para centenas de veículos até o fim de 2026.

A experiência demonstra como tecnologias desenvolvidas na China começam a ser exportadas para outros mercados.

Infraestrutura digital é fundamental

O avanço do transporte autônomo depende de muito mais do que sensores instalados nos veículos.

Para que carros, ônibus, caminhões e outros equipamentos consigam circular sem intervenção humana, é necessário contar com redes de comunicação rápidas, sistemas de posicionamento, processamento de dados, inteligência artificial e infraestrutura urbana conectada.

Nesse contexto, a expansão do 5G ganha importância estratégica.

Nos países do BRICS+, as redes de quinta geração estão cada vez mais sendo utilizadas como infraestrutura para setores como indústria, logística e agricultura, além dos serviços tradicionais de telefonia.

A conectividade permite que veículos e sistemas urbanos troquem grandes quantidades de dados em tempo real.

Rússia aposta em tecnologias autônomas

A Rússia também vem desenvolvendo soluções próprias para o transporte automatizado.

O país já utiliza tecnologias autônomas em áreas como agricultura e trabalha com diferentes modalidades de transporte, incluindo trens, ônibus, caminhões, táxis e veículos de entrega.

Em fevereiro de 2026, o governo russo afirmou estar disposto a compartilhar experiências com o Brasil e defendeu a possibilidade de desenvolver projetos conjuntos relacionados ao transporte autônomo.

Moscou também demonstrou interesse em coordenar regras sobre tecnologias autônomas entre os países do BRICS, com o objetivo de aproximar os diferentes marcos regulatórios.

Brasil busca aplicar tecnologia ao transporte e à logística

No Brasil, a adoção do transporte autônomo está relacionada principalmente ao desenvolvimento de infraestrutura, logística e aplicações industriais.

O país possui um setor de transporte de grandes dimensões e uma forte dependência do modal rodoviário, o que cria oportunidades para a utilização de sistemas automatizados em áreas como transporte de cargas, agronegócio e operações logísticas.

O Plano Nacional de Logística 2050, apresentado recentemente pelo Ministério dos Transportes, estabelece prioridades para modernizar a infraestrutura brasileira, ampliar a integração entre diferentes modais e reduzir gargalos logísticos.

A evolução da conectividade pode ser uma das bases para incorporar futuramente sistemas autônomos a essa infraestrutura.

Índia desenvolve uma estratégia própria

A Índia também aparece entre os países que buscam desenvolver uma base tecnológica nacional para a transformação digital.

No campo das telecomunicações, o país aposta em uma arquitetura mais modular, baseada em padrões abertos e interoperabilidade.

Essa estratégia pode ter impacto sobre o futuro transporte autônomo, já que veículos inteligentes dependem de sistemas de comunicação capazes de funcionar com equipamentos e plataformas de diferentes fabricantes.

A busca por autonomia tecnológica também reduz a dependência de fornecedores estrangeiros.

África do Sul enfrenta desafios de infraestrutura

Na África do Sul, o desenvolvimento do transporte autônomo está ligado à expansão da infraestrutura digital.

O país procura consolidar uma posição de destaque como centro regional de telecomunicações no continente africano, embora ainda enfrente limitações relacionadas à infraestrutura de fibra óptica e à disponibilidade de profissionais especializados.

Esses fatores são relevantes porque a implantação de veículos autônomos exige uma infraestrutura de comunicação confiável e de baixa latência.

Sem conectividade adequada, a expansão de sistemas inteligentes de transporte pode ocorrer de maneira desigual.

5G pode acelerar a mobilidade inteligente

O desenvolvimento do transporte autônomo está diretamente associado à chamada Internet das Coisas (IoT).

Veículos inteligentes precisam coletar informações sobre trânsito, obstáculos, condições da via, localização e comportamento de outros veículos.

Esses dados podem ser processados dentro do próprio veículo ou enviados para sistemas de computação em nuvem e estruturas de edge computing, que permitem analisar informações mais próximas do local onde são produzidas.

A combinação entre 5G, inteligência artificial, sensores e processamento de dados cria a infraestrutura tecnológica necessária para uma nova geração de mobilidade.

Cidades inteligentes entram no radar

A implantação de veículos autônomos também está relacionada ao conceito de cidades inteligentes.

Nesse modelo, semáforos, vias, estacionamentos, veículos e sistemas de transporte público podem estar conectados.

A comunicação entre esses elementos permite otimizar rotas, reduzir congestionamentos e melhorar o gerenciamento do tráfego.

Em vez de funcionar como uma tecnologia isolada, o veículo autônomo passa a integrar uma rede maior de infraestrutura urbana.

Logística pode ser uma das primeiras áreas beneficiadas

Antes de uma adoção generalizada de veículos autônomos por passageiros, a tecnologia pode avançar mais rapidamente em ambientes controlados.

Portos, centros de distribuição, áreas industriais, minas, propriedades agrícolas e corredores logísticos oferecem condições mais previsíveis para a utilização de veículos automatizados.

O setor de logística é particularmente relevante porque a automação pode reduzir custos operacionais e aumentar a eficiência do transporte de mercadorias.

Nos países do BRICS, a digitalização da logística vem sendo tratada como uma área estratégica de cooperação.

Agricultura também pode utilizar veículos autônomos

O agronegócio é outro setor com potencial para receber tecnologias de mobilidade autônoma.

Tratores, máquinas agrícolas, veículos de transporte e equipamentos de monitoramento podem operar com diferentes graus de automação.

A utilização de redes 5G em áreas rurais pode ampliar essa capacidade ao permitir comunicação entre máquinas e sistemas de gestão.

No Brasil, essa aplicação possui especial relevância devido à dimensão territorial do setor agropecuário.

Regulamentação será um dos principais desafios

A expansão dos veículos autônomos depende também da criação de regras claras.

Governos precisam definir questões relacionadas à segurança, responsabilidade em acidentes, proteção de dados, certificação dos veículos e requisitos para testes e operação comercial.

A ausência de normas compatíveis entre diferentes países pode dificultar a expansão internacional das tecnologias.

Por isso, a discussão sobre harmonização regulatória ganha importância dentro do BRICS.

A Rússia, por exemplo, já defendeu a coordenação de legislações sobre sistemas autônomos entre os países do grupo.

Segurança é prioridade

Um dos principais argumentos a favor do transporte autônomo é a possibilidade de reduzir acidentes provocados por falhas humanas.

Entretanto, para que isso aconteça, os sistemas precisam ser submetidos a testes rigorosos em diferentes condições de tráfego e clima.

Falhas de software, problemas de sensores, ataques cibernéticos ou perda de conectividade podem criar novos tipos de risco.

Por isso, a transição para veículos sem motorista deverá ocorrer gradualmente, acompanhada de mecanismos de supervisão e padrões de segurança.

BRICS busca maior integração tecnológica

A discussão sobre transporte autônomo se encaixa em uma agenda mais ampla de transformação digital do BRICS.

Os países do grupo vêm discutindo a interoperabilidade de sistemas, a padronização tecnológica e a expansão da infraestrutura digital.

O objetivo não necessariamente é criar uma única plataforma tecnológica, mas permitir que diferentes sistemas nacionais possam se comunicar e operar de maneira compatível.

Essa abordagem pode facilitar a circulação de tecnologias e reduzir custos para empresas que desejem atuar em diferentes mercados.

O transporte do futuro será cada vez mais conectado

A evolução dos veículos autônomos mostra que o futuro da mobilidade não dependerá apenas da indústria automobilística.

Telecomunicações, inteligência artificial, computação em nuvem, sensores, sistemas de navegação e infraestrutura urbana estarão cada vez mais integrados.

Os países do BRICS possuem estratégias diferentes para enfrentar essa transformação, mas compartilham um objetivo semelhante: utilizar novas tecnologias para aumentar a eficiência dos transportes e fortalecer suas próprias capacidades tecnológicas.

A expansão do 5G, o desenvolvimento de sistemas nacionais e a criação de regras para veículos inteligentes deverão determinar a velocidade dessa transformação.

BRICS entra na corrida pela mobilidade autônoma

China, Rússia, Índia, Brasil e África do Sul avançam em ritmos diferentes na preparação para a nova geração do transporte.

Enquanto a China já possui operações comerciais de veículos autônomos em determinados mercados e a Rússia busca compartilhar sua experiência, Brasil, Índia e África do Sul concentram esforços na construção das condições tecnológicas e regulatórias necessárias para ampliar a automação.

O cenário indica que o transporte autônomo será uma das áreas mais importantes da transformação digital nos próximos anos, com impactos sobre mobilidade urbana, logística, agricultura e comércio internacional.

Para o BRICS, o desafio será transformar avanços individuais em uma agenda de cooperação capaz de ampliar a inovação sem abrir mão da autonomia tecnológica de cada país.