O setor turístico de Cuba atravessa uma das fases mais delicadas de sua história recente. A combinação entre dificuldades econômicas, escassez de combustível, redução da oferta de voos e queda no número de visitantes estrangeiros levou o país a interromper as operações de quase 75% de seus hotéis. O cenário representa um duro golpe para uma atividade considerada estratégica para a economia cubana.
A dimensão do problema foi revelada pelo primeiro-ministro cubano, Manuel Marrero, que classificou a situação do turismo como próxima de uma paralisação. Segundo o governo, sete grandes redes internacionais, responsáveis por aproximadamente metade da capacidade hoteleira existente no país, já deixaram o mercado cubano.
A retração do setor ocorre em meio ao agravamento das dificuldades econômicas enfrentadas pela ilha. A escassez de combustível tem afetado diretamente o funcionamento da infraestrutura turística, além de comprometer transportes, operações aeroportuárias e outros serviços essenciais para receber visitantes.
Número de turistas despenca
A redução da atividade hoteleira acompanha uma queda expressiva na chegada de estrangeiros. Entre janeiro e abril de 2026, Cuba recebeu apenas 328.608 visitantes internacionais, número 56% inferior ao registrado no mesmo período do ano anterior.
A retração é particularmente preocupante porque o turismo representa uma importante fonte de receitas para o país. Com menos visitantes, hotéis, restaurantes, empresas de transporte, agências de viagens e trabalhadores que dependem diretamente do setor passam a enfrentar dificuldades ainda maiores.
A crise também ocorre depois de anos em que Cuba tentou recuperar o fluxo turístico perdido durante a pandemia. O setor, entretanto, não conseguiu retornar aos níveis observados antes da Covid-19 e passou a enfrentar novos obstáculos econômicos e geopolíticos.
Grandes redes internacionais deixam o mercado cubano
A saída das empresas estrangeiras tornou-se um dos principais símbolos da deterioração do ambiente turístico. A rede espanhola Meliá encerrou, em 24 de julho, todas as suas operações nos 34 hotéis que administrava em Cuba. A companhia citou dificuldades operacionais, jurídicas, econômicas e financeiras como fatores determinantes para a decisão.
A retirada da Meliá ocorreu depois de movimentos semelhantes envolvendo outras grandes redes espanholas, como Iberostar e Barceló. Com isso, a presença histórica das principais companhias espanholas no mercado hoteleiro cubano foi drasticamente reduzida.
A saída dessas empresas afeta não apenas a quantidade de hotéis em funcionamento, mas também a capacidade de Cuba de atrair investimentos, manter padrões internacionais de operação e comercializar seus destinos turísticos no exterior.
Combustível se transforma em um dos principais obstáculos
A falta de combustível está entre os fatores que mais pressionam a atividade turística. O problema interfere no transporte de turistas, na operação de veículos, no abastecimento de instalações e na própria logística necessária para manter hotéis e resorts funcionando.
A situação se agravou em 2026 em meio ao endurecimento das sanções dos Estados Unidos contra Cuba e à redução do fornecimento de petróleo para a ilha. Empresas do setor passaram a avaliar com maior cautela os riscos financeiros e operacionais de permanecer no mercado cubano.
Além dos hotéis, companhias aéreas também reduziram ou interromperam operações. A menor disponibilidade de voos dificulta ainda mais a recuperação do fluxo internacional e cria um ciclo negativo: menos conexões reduzem a quantidade de turistas, enquanto a queda na demanda torna a operação aérea menos atrativa.
Impacto ultrapassa o setor hoteleiro
A crise turística possui consequências que vão muito além dos estabelecimentos de hospedagem. Milhares de trabalhadores dependem direta ou indiretamente da movimentação provocada pelos visitantes estrangeiros.
Guias turísticos, motoristas, restaurantes, comerciantes, empresas de entretenimento, operadores de passeios e pequenos negócios também são afetados quando o número de turistas diminui.
Com hotéis fechados e menos voos internacionais, destinos tradicionalmente procurados, como Havana e as regiões de praia, enfrentam uma redução significativa na movimentação econômica.
O problema é especialmente sensível para Cuba porque o turismo funciona como uma das principais fontes de entrada de moeda estrangeira. A perda dessa receita aumenta a pressão sobre uma economia que já enfrenta escassez de produtos, dificuldades energéticas e forte deterioração das condições econômicas.
Futuro do turismo cubano permanece incerto
A recuperação do turismo dependerá de uma combinação de fatores, incluindo maior disponibilidade de combustível, retomada das conexões aéreas, estabilização das operações hoteleiras e melhoria das condições econômicas.
O governo cubano começou a adotar medidas mais amplas para tentar reanimar a economia e ampliar a participação privada em diferentes setores. Entre as mudanças discutidas recentemente estão iniciativas destinadas a facilitar operações privadas relacionadas ao turismo e atrair novos investimentos.
Apesar dessas medidas, o cenário permanece desafiador. A saída de grandes redes internacionais, a queda acentuada no número de visitantes e o fechamento de grande parte da infraestrutura hoteleira mostram a dimensão do problema.
Para Cuba, recuperar o turismo significa reconstruir uma das principais fontes de receitas da economia e, ao mesmo tempo, recuperar a confiança de companhias aéreas, investidores, redes hoteleiras e viajantes internacionais.









