O BRICS Pay, plataforma de pagamentos internacionais desenvolvida pelos países que integram o BRICS, começa a se consolidar como uma das principais iniciativas voltadas à ampliação do uso de moedas locais no comércio global. Inspirado em modelos de pagamentos instantâneos, como o Pix brasileiro, o sistema pretende reduzir custos operacionais e diminuir a dependência do dólar nas transações entre os membros do bloco.

Ainda em fase de desenvolvimento, o projeto deverá ser um dos temas centrais da 18ª Cúpula do BRICS, marcada para setembro, em Nova Délhi, na Índia, que ocupa a presidência rotativa do grupo em 2026.

BRICS Pay pretende facilitar transações em moedas nacionais

A proposta do BRICS Pay é criar uma infraestrutura capaz de permitir transferências internacionais instantâneas diretamente entre as moedas dos países participantes, reduzindo a necessidade de conversão para o dólar e diminuindo a dependência de sistemas tradicionais, como a rede SWIFT, atualmente dominante nas operações financeiras globais.

Segundo especialistas, a iniciativa faz parte de um movimento mais amplo de fortalecimento das moedas locais e de busca por alternativas que tornem as transações internacionais mais rápidas e menos custosas.

Para o doutor em economia política internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Matheus Cecílio, o impacto inicial do sistema deverá ser mais prático do que geopolítico.

Na avaliação do pesquisador, o objetivo imediato não é substituir a moeda americana, mas aumentar a eficiência das operações comerciais entre os países do bloco, reduzindo custos cambiais e facilitando pagamentos para empresas e consumidores.

Projeto pode ampliar participação no comércio internacional

Estimativas mencionadas durante o podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, indicam que, caso seja implementado de forma ampla, o BRICS Pay poderá responder por algo entre 15% e 20% do comércio internacional até 2030.

Atualmente, os países que compõem o BRICS representam cerca de 40% da economia mundial, o que reforça o potencial da iniciativa para ampliar a integração financeira entre as nações integrantes.

Apesar disso, especialistas destacam que uma transformação mais profunda no sistema monetário internacional exigiria mudanças estruturais mais complexas, incluindo a existência de uma moeda com força e liquidez comparáveis às do dólar.

Diversidade entre os países é um dos principais desafios

Para o professor Luiz Antonio Joia, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ebape), a heterogeneidade entre os países do BRICS representa um dos maiores obstáculos para a consolidação da plataforma.

Diferenças regulatórias, tecnológicas, econômicas e políticas tornam a integração mais complexa e exigem um elevado grau de coordenação entre bancos centrais e instituições financeiras dos diversos países.

Enquanto o Pix opera dentro de uma única jurisdição e sob regras estabelecidas pelo Banco Central do Brasil, o BRICS Pay terá de integrar sistemas financeiros distintos, moedas diferentes e estruturas regulatórias variadas.

Diferenças tecnológicas também dificultam integração

Outro desafio apontado pelos analistas é o nível desigual de digitalização entre os integrantes do bloco.

Países como a China já possuem sistemas financeiros altamente digitalizados, enquanto outras economias do BRICS ainda enfrentam processos de adaptação ao uso de meios eletrônicos de pagamento.

Esse cenário aumenta a complexidade da criação de uma plataforma comum e levanta discussões sobre qual modelo monetário deverá ser adotado para viabilizar as operações entre os membros.

Sistema deverá conviver com o SWIFT no curto prazo

Os especialistas avaliam que, pelo menos nos próximos anos, o BRICS Pay deverá funcionar como uma alternativa complementar aos sistemas já existentes, sem substituir imediatamente a rede SWIFT.

A expectativa é que a plataforma seja especialmente útil para pequenas e médias empresas que mantêm relações comerciais dentro do bloco, oferecendo maior agilidade e menores custos nas operações realizadas em moedas locais.

Expansão do BRICS aumenta peso do projeto

O debate sobre o BRICS Pay ocorre em um momento de expansão do grupo, que inicialmente era formado por Brasil, Rússia, Índia e China, e posteriormente incorporou a África do Sul e novos países nos últimos anos.

Essa ampliação elevou a influência econômica e política do bloco no cenário internacional, mas também tornou mais desafiadora a coordenação entre os integrantes.

Especialistas destacam que a consolidação do BRICS Pay dependerá não apenas da viabilidade tecnológica, mas também da capacidade dos países membros de construir uma estrutura financeira estável, interoperável e capaz de atender aos diferentes interesses econômicos e regulatórios existentes dentro do grupo.

Caso avance, a iniciativa poderá representar um importante passo na diversificação dos meios de pagamento internacionais e no fortalecimento das relações comerciais entre as economias emergentes.