Depois de anos marcados por sucessivos recordes, o turismo em Portugal começa a apresentar sinais de desaceleração. O número de visitantes perdeu ritmo e o comportamento dos viajantes também mudou, com relatos de menor movimento em alguns destinos e maior cautela nos gastos.
O cenário representa uma mudança importante para um setor que vinha crescendo rapidamente. Em 2024, Portugal recebeu cerca de 2,5 milhões de turistas a mais do que no ano anterior, uma expansão de 9,3%. Em 2025, o país chegou a aproximadamente 29,9 milhões de turistas não residentes, crescimento de 3,3% em relação a 2024.
A desaceleração, entretanto, não significa uma retração generalizada. Os dados mais recentes mostram que o turismo português continua crescendo, embora em ritmo mais moderado e com mudanças na composição dos mercados emissores e nos hábitos de consumo.
Número de visitantes cresce mais lentamente
Os dados oficiais apontam para uma nova etapa do turismo português.
Entre janeiro e junho de 2026, Portugal recebeu aproximadamente 15,1 milhões de visitantes, responsáveis por cerca de 37 milhões de pernoites. Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos permaneceram entre os principais mercados de origem.
Em junho, os estabelecimentos de hospedagem registraram 3,1 milhões de hóspedes, crescimento de 1% na comparação anual. O número de pernoites chegou a 8,1 milhões, alta de 0,7%.
Os resultados mostram uma expansão bastante inferior à registrada durante o período de forte recuperação e crescimento do turismo português.
Porto sente mudança no movimento
A percepção de empresários do setor também aponta para uma transformação no comportamento dos turistas.
Em cidades muito procuradas, como Porto, comerciantes e profissionais de hotelaria relatam uma redução das grandes multidões observadas nos últimos anos.
A mudança, porém, não necessariamente significa queda brusca na ocupação. O setor hoteleiro continua registrando demanda relevante, mas o fluxo de pessoas pelas áreas turísticas e o consumo em restaurantes parecem menos intensos.
Esse contraste ajuda a explicar o atual momento: Portugal continua atraindo milhões de visitantes, mas o crescimento acelerado do passado perdeu força.
Turistas estão gastando menos
Outro aspecto importante é o comportamento dos gastos.
Apesar da desaceleração no volume de visitantes, as receitas do turismo continuam apresentando crescimento.
No primeiro semestre de 2026, os turistas gastaram aproximadamente € 12,87 bilhões em Portugal, alta de 4,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Em junho, as receitas chegaram a cerca de € 2,54 bilhões, acima dos € 2,47 bilhões registrados no mesmo mês de 2025.
Isso indica que a desaceleração do número de turistas não está necessariamente acompanhada por uma queda proporcional na contribuição econômica do setor.
Portugal entra em um novo ciclo turístico
Os dados mais recentes sugerem que o país está deixando para trás uma fase de expansão excepcional.
Depois de anos em que o principal objetivo era absorver uma demanda cada vez maior, o desafio agora passa a ser manter o crescimento de maneira mais equilibrada.
O turismo português começa a apresentar uma combinação de crescimento moderado, diversificação dos mercados emissores e redução da sazonalidade.
Para o setor, essa mudança pode representar uma oportunidade de priorizar turistas que permanecem mais tempo no país e apresentam maior capacidade de consumo.
Mercados internacionais apresentam comportamentos diferentes
Nem todos os países emissores estão apresentando a mesma evolução.
Em junho de 2026, os mercados que mais cresceram em número de pernoites incluíram Suécia, Polônia e Dinamarca. A região Norte, a Grande Lisboa e o Alentejo também registraram crescimento relevante no indicador.
Essa diversificação reduz a dependência de determinados mercados tradicionais e pode ajudar Portugal a manter o fluxo turístico mesmo quando alguns países apresentam menor demanda.
Brasil ganha destaque entre os mercados emissores
O mercado brasileiro também aparece entre os destaques recentes.
Em junho, as receitas associadas aos turistas brasileiros em Portugal cresceram 16,9% na comparação anual, uma das maiores altas registradas entre os mercados analisados.
O resultado reforça a importância do Brasil para o turismo português e evidencia o potencial de manutenção dos vínculos entre os dois mercados.
Além da proximidade cultural e linguística, Portugal continua sendo um dos principais destinos europeus procurados por brasileiros.
Lisboa continua sendo um dos principais polos
A Grande Lisboa permanece entre as regiões que apresentam crescimento.
Em junho, as pernoites na região aumentaram 2,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. O Norte registrou alta ainda maior, de 4,8%, enquanto o Alentejo cresceu 2,1%.
Os números indicam que o turismo começa a apresentar uma distribuição territorial um pouco mais equilibrada, diminuindo a concentração exclusiva nos destinos tradicionalmente mais procurados.
Crescimento mais moderado não significa crise
Apesar dos sinais de desaceleração, os dados não indicam uma crise no turismo português.
Pelo contrário: as receitas continuam aumentando e o número absoluto de visitantes permanece elevado.
A diferença está principalmente no ritmo.
Portugal passou de uma fase de crescimento excepcional para um período em que ganhar novos turistas se torna mais difícil, especialmente depois de alcançar níveis muito elevados de procura.
Esse fenômeno é natural em destinos que já atingiram grande visibilidade internacional.
Turismo continua essencial para a economia
A importância econômica do setor permanece elevada.
Em 2025, as receitas turísticas de Portugal chegaram a aproximadamente € 29,13 bilhões, enquanto o saldo da balança de viagens e turismo alcançou € 22 bilhões, segundo dados do Banco de Portugal.
Isso mostra que, mesmo com uma eventual estabilização do número de visitantes, o turismo continua sendo uma das principais atividades responsáveis pela entrada de recursos estrangeiros no país.
A prioridade passa, portanto, de simplesmente aumentar o número de turistas para elevar o valor gerado por cada visitante.
Custo de vida e preços influenciam o comportamento
A mudança no comportamento dos turistas também ocorre em um contexto de aumento dos custos relacionados a viagens.
Hospedagem, alimentação, transporte e serviços turísticos ficaram mais caros em diversos destinos europeus.
Portugal, que durante anos se destacou como uma alternativa relativamente acessível em relação a outros países da Europa Ocidental, enfrenta agora uma concorrência maior e consumidores mais atentos aos preços.
Isso pode explicar parte da percepção de que turistas estão reduzindo gastos durante suas viagens.
Setor busca maior equilíbrio
A nova realidade também pode incentivar empresas portuguesas a buscar um modelo turístico menos dependente dos meses de alta temporada.
A diversificação regional e a atração de diferentes nacionalidades podem ajudar a distribuir melhor a demanda ao longo do ano.
Ao mesmo tempo, experiências culturais, turismo de natureza, gastronomia, eventos e viagens de negócios podem contribuir para aumentar a permanência média e o gasto dos visitantes.
Portugal enfrenta o desafio de preservar sua atratividade
O país também precisa lidar com os efeitos provocados pelo enorme crescimento turístico dos últimos anos.
Grandes fluxos de visitantes pressionam infraestrutura, transporte, imóveis e serviços públicos, especialmente em destinos como Lisboa e Porto.
Uma desaceleração moderada pode, nesse sentido, contribuir para reduzir parte da pressão sobre esses locais e permitir que o setor avance em direção a um modelo mais sustentável.
Uma nova fase para o turismo português
Portugal não deixou de ser um dos principais destinos turísticos da Europa. O que mudou foi o ritmo de expansão.
Depois de uma sequência de anos excepcionais, o país entra em uma fase na qual qualidade, diversificação e geração de receita podem se tornar mais importantes do que simplesmente estabelecer novos recordes de visitantes.
Os números do primeiro semestre de 2026 mostram exatamente essa transição: crescimento modesto no número de hóspedes e pernoites, mas aumento das receitas.
A tendência indica que o turismo português poderá continuar contribuindo fortemente para a economia, mesmo em um cenário de menor crescimento no fluxo de turistas









