Responsável por projetos universitários e esportivos no país africano, arquiteto brasileiro participou da modernização da Argélia após a independência e estabeleceu uma ligação histórica entre as duas nações.

Pouco conhecida por muitos brasileiros, a presença de Oscar Niemeyer na Argélia representa um capítulo importante de sua trajetória internacional. O arquiteto, responsável por alguns dos edifícios mais conhecidos de Brasília, também deixou sua marca no país africano, onde projetou universidades, instalações esportivas e outras construções que expressam sua concepção de arquitetura moderna.

A ligação começou em 1968, seis anos após a independência argelina. Na época, o presidente Houari Boumediene convidou Niemeyer, que vivia exilado em Paris durante a ditadura militar brasileira, para participar de um amplo projeto de modernização do país.

A Argélia buscava construir uma nova identidade nacional, investindo em educação, infraestrutura e espaços públicos. Foi nesse contexto que o arquiteto brasileiro desenvolveu algumas de suas propostas mais ousadas fora do Brasil.

Entre as principais realizações está a Universidade Mentouri, em Constantine, projetada no início da década de 1970. O conjunto universitário apresenta grandes estruturas de concreto, espaços abertos e soluções arquitetônicas que refletem a liberdade criativa de Niemeyer.

Na capital, Argel, o brasileiro também foi responsável pelo projeto da Universidade de Ciência e Tecnologia Houari Boumediene, uma das principais instituições de ensino superior do país. A construção, associada à expansão do sistema universitário argelino, tornou-se uma referência da arquitetura moderna na região.

Outro projeto importante foi a Escola Politécnica de Arquitetura e Urbanismo de Argel, concebida como parte dos investimentos na formação de profissionais que contribuiriam para o desenvolvimento urbano do país.

No setor esportivo, Niemeyer deixou sua assinatura na sala Omnisport La Coupole, em Argel, inaugurada na década de 1970. Sua cobertura em forma de cúpula tornou o edifício um dos exemplos mais conhecidos da presença do arquiteto brasileiro na Argélia.

Uma mesquita sobre o mar

Entre os projetos mais surpreendentes de Niemeyer para a Argélia estava uma mesquita concebida para ser construída sobre o mar. A proposta, que não chegou a ser executada, traduzia a intenção do arquiteto de explorar novas possibilidades estruturais e criar uma construção de forte impacto visual.

Ao apresentar a ideia ao presidente Houari Boumediene, Niemeyer relatou ter ouvido dele a seguinte observação: “É uma mesquita revolucionária”.

O arquiteto respondeu: “A revolução não deve parar”.

O diálogo, registrado em relatos sobre sua passagem pelo país, revela a sintonia entre a liberdade criativa do brasileiro e o momento de transformação vivido pela Argélia.

A morte de Boumediene, em dezembro de 1978, interrompeu o avanço do projeto.

Arquitetura e independência

A atuação de Niemeyer na Argélia ocorreu em um período de profundas mudanças políticas e sociais. Após uma guerra de independência contra a colonização francesa, travada entre 1954 e 1962, o país iniciou um processo de reorganização de suas instituições.

As universidades e instalações públicas projetadas pelo brasileiro faziam parte desse esforço de desenvolvimento nacional.

Mais do que edifícios, suas obras representavam a intenção de construir uma Argélia moderna, com investimentos na educação, na formação profissional e na infraestrutura pública.

A experiência argelina também demonstra a dimensão internacional da carreira de Niemeyer. Embora seu nome esteja diretamente associado a Brasília, o arquiteto desenvolveu projetos em diferentes países, levando sua linguagem arquitetônica para além das fronteiras brasileiras.

Na Argélia, suas construções permanecem como testemunhos de um período em que arquitetura, desenvolvimento e independência nacional estavam profundamente ligados.

Décadas depois, o legado de Oscar Niemeyer no país africano continua sendo uma expressão concreta da presença cultural brasileira no exterior e um capítulo singular das relações históricas entre Brasil e Argélia.