A indústria automotiva argentina passará a contar, a partir de julho, com um importante incentivo para ampliar sua competitividade no exterior. O governo do presidente Javier Milei confirmou a suspensão temporária do imposto de 4,5% sobre a exportação de veículos, medida que permanecerá em vigor até junho de 2027 e atende a uma antiga reivindicação das montadoras representadas pela Associação de Fabricantes de Automóveis da Argentina (Adefa).
A iniciativa faz parte da estratégia do país para fortalecer a presença dos veículos produzidos localmente nos mercados internacionais, especialmente em um cenário marcado pelo avanço das fabricantes chinesas, que vêm ampliando sua participação com modelos mais acessíveis, tecnologias mais modernas e opções de propulsão eletrificada.
Montadoras argentinas ganham fôlego para ampliar exportações
Segundo o presidente da Adefa, Rodrigo Pérez Graziano, a eliminação do tributo oferece maior previsibilidade ao setor e cria condições mais favoráveis para o planejamento de investimentos, produção e expansão das vendas para outros países.
A expectativa é que a medida contribua para recuperar a competitividade da indústria automotiva argentina em um contexto global cada vez mais desafiador.
Especialistas destacam que poucos países ainda mantêm impostos sobre exportações de bens industriais. Para Vitor Pina, diretor da CLA Brasil e especialista em reforma tributária, a decisão não representa uma vantagem adicional para as montadoras, mas sim a remoção de uma desvantagem histórica enfrentada pelo setor.
Picapes estão no centro da estratégia argentina
A Argentina é considerada uma das principais produtoras de picapes da América do Sul e ocupa a quarta posição entre os maiores fabricantes mundiais de picapes leves, segundo dados da Adefa.
Entre os modelos produzidos no país e destinados ao mercado externo estão:
- Toyota Hilux e SW4;
- Ford Ranger;
- Volkswagen Amarok;
- Fiat Titano;
- Renault Niagara, cuja exportação para outros mercados latino-americanos está prevista para começar nos próximos meses.
Até recentemente, a Nissan também fabricava a Frontier em território argentino, antes da transferência da produção para o México.
Analistas apontam que a medida busca aumentar a competitividade desses modelos, especialmente no mercado brasileiro, que representa o principal destino das exportações automotivas argentinas.
Especialistas avaliam impacto limitado nos preços
Apesar do benefício tributário, especialistas acreditam que a redução dos preços dos veículos exportados para o Brasil deverá ser relativamente pequena.
Para Ricardo Balistiero, professor do Instituto Mauá de Tecnologia, o efeito da isenção pode resultar em uma diminuição próxima de 2% nos custos, percentual considerado insuficiente para alterar significativamente a competição com os veículos chineses, que vêm ganhando espaço no mercado brasileiro.
Além das picapes, modelos como Fiat Cronos, Peugeot 208 e Peugeot 2008 também são importados da Argentina pelo Brasil.
Segundo Balistiero, a medida está mais alinhada ao pacote de reformas econômicas promovido pelo governo de Javier Milei e ao fortalecimento da indústria local do que propriamente à geração de impactos relevantes na economia brasileira.
Setor pede novas reduções de impostos
A Adefa defende que a eliminação da tarifa de exportação seja apenas o primeiro passo de uma reforma tributária mais ampla.
A entidade argumenta que outros encargos, como impostos sobre a receita bruta e tributos municipais, continuam comprometendo a competitividade das montadoras. De acordo com a associação, esses custos adicionais podem representar até 10% do valor dos veículos exportados.
Durante a inauguração da nova fábrica da Mercedes-Benz em Zárate, em maio, integrantes do governo argentino reforçaram a necessidade de reduzir a carga tributária para aproximar o país das condições observadas em outros mercados produtores.
Exportações representam mais de 60% da produção argentina
A crescente dependência do mercado externo é um dos fatores que explicam a importância da medida para a indústria automotiva do país.
Nos quatro primeiros meses do ano, a Argentina produziu aproximadamente 129,8 mil veículos, volume inferior ao registrado no mesmo período de 2025. Desse total, cerca de 79,2 mil unidades foram destinadas à exportação, o equivalente a 61% da produção nacional.
O setor automotivo responde por 8,4% do Produto Interno Bruto (PIB) argentino e é uma das principais fontes de geração de divisas para o país. Anualmente, a indústria movimenta cerca de US$ 9 bilhões em exportações e representa quase metade das vendas externas argentinas de produtos industrializados.
Além disso, aproximadamente 70% das exportações automotivas do país têm como destino o Brasil, consolidando a importância da relação comercial entre os dois mercados.
Com a redução dos impostos sobre exportações, o governo argentino e as montadoras esperam ampliar a competitividade dos veículos produzidos no país e fortalecer a presença da indústria nacional em mercados regionais e internacionais em um cenário de crescente concorrência global.









