Os Estados Unidos estão em tratativas com o Brasil para firmar um acordo voltado às cadeias de suprimento de minerais críticos, segundo informou o encarregado de negócios norte-americano, Gabriel Escobar, nesta quarta-feira (18).

De acordo com Escobar, já houve conversas iniciais entre os dois países, mas as negociações ainda estão em estágio preliminar. A declaração foi feita após a assinatura de um acordo paralelo com o estado de Goiás, durante evento realizado antes do Fórum Brasil–Estados Unidos sobre Minerais Críticos, em São Paulo.

O fórum, promovido pela Amcham Brasil com apoio da embaixada norte-americana, teve como objetivo aproximar investidores dos EUA de empresas brasileiras interessadas na exploração e produção de minerais estratégicos. Entre os participantes estavam companhias como Citi e Anglo American.

Disputa global por minerais estratégicos

Os Estados Unidos têm intensificado esforços para garantir acesso a minerais críticos, especialmente terras raras, hoje amplamente dominadas pela China. Nesse contexto, o Brasil é visto como um parceiro estratégico, com potencial para receber bilhões de dólares em investimentos no setor.

Instituições como a Corporação Financeira dos EUA para o Desenvolvimento Internacional e o Export-Import Bank of the United States já destinaram cerca de US$ 600 milhões a projetos relacionados no país, segundo representantes da embaixada.

Tensões diplomáticas impactam negociações

Apesar do avanço das tratativas, o ambiente diplomático entre Luiz Inácio Lula da Silva e o governo norte-americano tem enfrentado atritos recentes. Representantes brasileiros não participaram do fórum em São Paulo, oficialmente por conflito de agenda, mas o contexto inclui um episódio sensível envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na semana anterior, um representante dos EUA solicitou visita a Bolsonaro, o que foi interpretado pelo governo brasileiro como interferência em assuntos internos. A entrada do enviado foi barrada sob alegação de informações inconsistentes sobre o objetivo da visita.

Além disso, fontes indicam que um memorando de entendimento enviado inicialmente pelos EUA apresentou falhas formais, incluindo erro na identificação do país destinatário, o que gerou desconforto em Brasília antes de ser corrigido.

Acordo com Goiás e reação do governo federal

A assinatura de um acordo direto entre os Estados Unidos e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também provocou reação negativa dentro do governo federal. A iniciativa foi vista por interlocutores como uma tentativa de contornar Brasília nas negociações estratégicas.

O acordo prevê cooperação em áreas como mapeamento de recursos minerais, conexão com tecnologia norte-americana e aprimoramento regulatório. Goiás se destaca por possuir reservas relevantes de lítio e nióbio, além de abrigar a Serra Verde, única produtora comercial de terras raras no país.

O projeto também inclui o desenvolvimento de uma cadeia produtiva completa, abrangendo desde a separação de minerais até a fabricação de produtos de alto valor agregado, como ligas metálicas e ímãs permanentes.

Estratégia brasileira e cenário global

O avanço no processamento interno desses minerais é considerado prioridade pelo governo Lula, que busca agregar valor à produção nacional e reduzir a dependência externa.

Autoridades norte-americanas identificaram mais de 50 projetos de mineração no Brasil com potencial para integrar cadeias globais mais diversificadas, reduzindo a concentração atualmente liderada pela China.

As negociações continuam em andamento e fazem parte de uma agenda mais ampla que pode incluir uma futura visita oficial de Lula a Washington — ainda sem nova data definida, após adiamento em meio às tensões geopolíticas envolvendo o Oriente Médio.

O desfecho dessas tratativas será decisivo não apenas para as relações bilaterais, mas também para o posicionamento do Brasil na nova geopolítica dos recursos estratégicos.