A indústria de defesa brasileira alcançou um novo marco nesta semana com o primeiro voo do Gripen E produzido no Brasil pela Embraer. A aeronave, identificada como FAB 4109, decolou do complexo industrial da empresa em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, dando início à fase de testes de aceitação antes de sua entrega à Força Aérea Brasileira (FAB).

O voo ocorreu em 6 de outubro, às 10h21, e foi conduzido pelo piloto-chefe de testes da Saab, Jakob Högberg. A missão teve como objetivo verificar o funcionamento dos principais sistemas do caça e avaliar suas características iniciais de voo.

Gripen fabricado no Brasil entra na fase final de testes

O primeiro voo representa uma etapa decisiva no processo de fabricação nacional do caça. A aeronave passou pela montagem final na unidade da Embraer em Gavião Peixoto e agora será submetida a uma campanha de ensaios de produção e aceitação.

Os dados obtidos durante os testes serão utilizados para verificar o desempenho do avião e preparar a aeronave para a certificação e posterior entrega à FAB.

Após a conclusão dessa etapa, o caça deverá seguir para a Base Aérea de Anápolis, em Goiás, onde será incorporado ao 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), unidade responsável pela operação dos Gripen E já recebidos pela Força Aérea.

Primeiro Gripen produzido fora da Suécia

O FAB 4109 tem uma importância especial para o programa porque é o primeiro Gripen produzido fora da Suécia a realizar um voo inaugural.

A unidade de Gavião Peixoto tornou-se a primeira linha de produção do Gripen instalada fora do território sueco. A estrutura passou a integrar a rede global de fabricação e fornecimento da Saab e representa o resultado de mais de uma década de cooperação entre a fabricante sueca, a Embraer e a Força Aérea Brasileira.

A participação brasileira vai muito além da montagem final. Engenheiros, técnicos e especialistas do país passaram a atuar em áreas como desenvolvimento, engenharia, fabricação, integração de sistemas e testes de voo.

Transferência de tecnologia fortalece indústria brasileira

O programa Gripen foi estruturado com uma ampla política de transferência de tecnologia, considerada um dos principais pilares do projeto brasileiro.

Ao longo dos anos, profissionais brasileiros trabalharam em conjunto com equipes da Saab em diferentes etapas do desenvolvimento e produção do caça.

O objetivo foi transformar o conhecimento adquirido durante a cooperação em capacidade industrial permanente no Brasil. O primeiro voo de um Gripen fabricado pela Embraer demonstra que essa estrutura já alcançou uma nova etapa de maturidade.

Para a indústria nacional, o resultado significa a capacidade de participar de um projeto de alta complexidade tecnológica, incluindo fabricação, integração e testes de uma aeronave supersônica de combate.

Programa brasileiro prevê 36 caças Gripen

O contrato firmado pelo governo brasileiro em 2014 prevê inicialmente 36 aeronaves Gripen, sendo 28 unidades Gripen E, de configuração monoposto, e oito Gripen F, de configuração biposto.

As primeiras entregas à FAB começaram em 2020. Segundo as informações divulgadas pelas fabricantes, dez aeronaves já foram entregues dentro do programa atual.

O FAB 4109 é o primeiro de 15 Gripen E que serão produzidos no Brasil dentro da configuração atualmente prevista para fabricação nacional.

A montagem final da aeronave foi concluída pela Embraer antes de sua apresentação oficial em março de 2026.

Gavião Peixoto pode produzir mais 20 Gripen

A estrutura construída no Brasil também poderá ganhar uma importância ainda maior nos próximos anos.

Em julho, Embraer e Saab assinaram um acordo preliminar que estabelece as bases para uma possível expansão da cooperação entre as duas empresas. A proposta contempla negociações para a produção de 20 Gripen adicionais em Gavião Peixoto, com possibilidade de expansão futura.

Caso novos contratos sejam efetivamente firmados, a unidade brasileira poderá produzir aeronaves destinadas tanto ao mercado nacional quanto a eventuais clientes internacionais.

A possibilidade representa uma mudança importante para a indústria brasileira, já que a fábrica poderá deixar de atender exclusivamente ao programa da FAB e passar a complementar a capacidade produtiva da Saab para o mercado internacional.

Brasil passa a integrar cadeia global do Gripen

A capacidade instalada em Gavião Peixoto coloca o Brasil em uma posição estratégica dentro do programa Gripen.

Além da linha de montagem, o país passou a concentrar competências relacionadas à engenharia, fabricação, integração e testes da aeronave. A estrutura brasileira, portanto, não representa apenas uma unidade destinada à produção de caças para a FAB, mas uma parte da cadeia global do programa.

A Saab mantém sua principal linha de montagem final em Linköping, na Suécia, enquanto Gavião Peixoto se tornou a segunda estrutura desse tipo e a única instalada fora do país europeu.

Novo capítulo para a indústria de defesa

O voo inaugural do FAB 4109 simboliza uma transformação na participação brasileira no programa Gripen.

O país passou de comprador de aeronaves de combate para participante direto de etapas complexas de fabricação e desenvolvimento. A evolução também cria uma base industrial que pode ser aproveitada em futuros projetos aeronáuticos e de defesa.

Com os próximos testes e a futura entrega do primeiro Gripen produzido pela Embraer, o programa entra em uma fase ainda mais importante para a consolidação da capacidade brasileira de fabricar e testar aeronaves de combate avançadas.