Fabricante brasileira fortalece atuação na Europa, Ásia e Oriente Médio, amplia parcerias estratégicas e mantém o Brasil entre os poucos países capazes de desenvolver aeronaves de alta complexidade

A presença da Embraer no mercado internacional ajuda a contar uma parte menos conhecida da indústria brasileira. Criada em 1969, a fabricante conseguiu transformar conhecimento desenvolvido no país em aeronaves que hoje voam em diferentes partes do mundo, tanto na aviação comercial e executiva quanto no setor de defesa.

Mais de cinco décadas depois de sua criação, a companhia já entregou mais de 9 mil aeronaves. Seus aviões transportam mais de 150 milhões de passageiros por ano, e produtos da fabricante brasileira chegaram a mais de 100 países. A Embraer também mantém uma presença relevante no setor de defesa, com aeronaves utilizadas por dezenas de Forças Armadas.

Os números ajudam a dimensionar o espaço conquistado pela empresa, mas sua importância para o Brasil vai além da quantidade de aviões vendidos. A Embraer está no centro de uma cadeia que reúne engenharia, pesquisa, inovação, formação de profissionais altamente especializados e fornecedores de diferentes áreas.

É também uma indústria que exporta produtos de alto valor agregado. Em uma economia ainda fortemente associada no exterior à produção de commodities agrícolas e minerais, a presença de uma fabricante brasileira disputando contratos aeronáuticos internacionais mostra outra capacidade do país: desenvolver e exportar tecnologia de alta complexidade.

C-390 amplia presença brasileira no exterior

Um dos exemplos mais recentes dessa internacionalização é o C-390 Millennium, aeronave militar multimissão desenvolvida pela Embraer e inicialmente incorporada pela Força Aérea Brasileira.

Nos últimos anos, o avião passou a conquistar espaço fora do Brasil, principalmente na Europa.

Portugal tornou-se o primeiro operador internacional do C-390 e também o primeiro país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a colocar a aeronave em serviço. A Hungria também já opera o modelo.

A República Tcheca avançou mais recentemente nesse processo e recebeu seu primeiro C-390 em julho de 2026. Holanda e Áustria também estão entre os países europeus que adquiriram a aeronave.

A Suécia deu outro passo importante para a expansão do programa ao assinar, em 2025, contrato para a aquisição de quatro unidades.

Outros países europeus estão em diferentes etapas. A Lituânia selecionou o C-390 e iniciou o caminho para a aquisição de três aeronaves, enquanto a Eslováquia indicou o modelo brasileiro como a melhor opção para seu programa de transporte militar e iniciou procedimentos para uma possível compra.

O avanço na Europa tem peso estratégico. A região concentra algumas das maiores empresas aeroespaciais e de defesa do mundo e reúne países que tradicionalmente compram equipamentos militares de fabricantes europeus e norte-americanos.

A entrada de uma aeronave desenvolvida no Brasil nesse mercado aumenta a projeção internacional da Embraer e também da indústria brasileira de defesa.

Coreia do Sul abre espaço na Ásia

Na Ásia, a Coreia do Sul selecionou o C-390 em 2023, tornando-se o primeiro cliente asiático do programa.

A relação vai além da compra das aeronaves. Empresas sul-coreanas participam da cadeia de fornecimento do C-390, criando uma ligação industrial entre os dois países.

Para a Embraer, a entrada no mercado sul-coreano tem significado especial. A Coreia do Sul possui uma indústria tecnológica e de defesa altamente desenvolvida e investe de forma significativa na modernização de suas Forças Armadas.

Índia pode se tornar uma das principais parcerias

Outro movimento estratégico ocorre na Índia.

Embraer e Mahindra assinaram, em 2025, um acordo de cooperação para apresentar conjuntamente o C-390 ao programa de Aeronaves de Transporte Médio da Força Aérea Indiana.

A proposta envolve mais do que vender aviões. Caso o modelo seja escolhido pela Índia, o projeto prevê participação da indústria local e possibilidades de fabricação e montagem no país.

Em fevereiro de 2026, as duas empresas deram mais um passo ao anunciar planos para estabelecer na Índia capacidade de manutenção, reparo e revisão do C-390.

A Índia ainda não adquiriu a aeronave. Mas, se o negócio avançar, poderá se transformar em uma das mais importantes parcerias industriais internacionais do programa, aproximando Brasil e Índia também no setor aeronáutico e de defesa.

Emirados Árabes entram no programa

O Oriente Médio também passou a ocupar um espaço importante na estratégia internacional da Embraer.

Em maio de 2026, os Emirados Árabes Unidos assinaram contrato para dez aeronaves C-390 Millennium, com opção para outras dez. Foi a primeira seleção do modelo no Oriente Médio.

No mesmo período, a Embraer e a Generation 5 Holding, empresa dos Emirados ligada aos setores de defesa e tecnologia, anunciaram uma parceria estratégica relacionada ao programa C-390.

A entrada dos Emirados amplia a presença geográfica da aeronave e abre uma nova frente para a fabricante brasileira em uma região que está entre os mercados internacionais relevantes para investimentos em aviação e defesa.

Uma indústria estratégica para o Brasil

A trajetória internacional da Embraer não se resume ao C-390. A companhia atua na aviação comercial, executiva, defesa e segurança, além das áreas de serviços e suporte, mantendo operações e clientes em diferentes continentes.

Essa presença ajuda a explicar por que a empresa tem um significado que ultrapassa seus resultados comerciais.

A Embraer representa uma capacidade tecnológica construída ao longo de décadas no Brasil. Por trás de cada aeronave existem engenheiros, técnicos, centros de pesquisa, fornecedores e conhecimento acumulado em uma indústria na qual poucos países conseguiram alcançar projeção mundial.

Portugal, Hungria, República Tcheca, Holanda, Áustria, Suécia, Lituânia, Eslováquia, Coreia do Sul, Índia e Emirados Árabes aparecem hoje em diferentes etapas dessa expansão — alguns como operadores, outros como compradores e outros ainda como parceiros ou potenciais clientes.

Cada contrato tem sua importância comercial. Mas, para o Brasil, existe também um significado maior: quando uma aeronave desenvolvida no país passa a integrar uma companhia aérea ou uma força militar estrangeira, não é apenas um avião brasileiro que chega ao exterior. É tecnologia produzida no Brasil ocupando espaço em um dos setores mais sofisticados e competitivos da economia mundial.