CRIMES OF PASSION: WOMEN WHO KILL THEIR DAUGHTERS-IN-LAW
Leila Bijos
A violência intrafamiliar espelha a ausência de aceitação de novos membros, como noras no contexto familiar de sociedades tradicionais. O contexto brasileiro mostra que a chegada de um novo membro familiar é recebida com desconfiança. A família de meu marido era composta de treze irmãos, que estavam sob o comando do patriarca. A decisão de visitar a família não foi fácil, mas aceitei o desafio. Fui recebida com muita cordialidade, e imaginei que as informações a meu respeito já tinham sido repassadas para meu futuro sogro. Ele já sabia que eu era uma jovem culta e, foi buscar um livro de literatura francesa em sua biblioteca para partilharmos o conteúdo.
As narrativas evidenciavam o rigor patriarcal, em contraposição à doçura de minha futura sogra. O casarão antigo era dividido em lar e empreendimento, com um anexo que era a panificadora de meu sogro, que começava a funcionar às 5 horas da manhã. Na verdade, meu sogro se levantava às 03:00 da manhã para preparar a massa do pão. Voltava para cama para cochilar um pouco mais, até abrir oficialmente o estabelecimento ao público, ao som do Hino Nacional brasileiro.
A cozinha era ampla com uma mesa para 25 pessoas, bancos de madeira, fogão de lenha fumegante com 6 a 8 bules de café, borralho onde os gatos dormiam, e um quintal de 40.000 metros quadrados repleto de fruteiras, chiqueiro, um quartinho para as ferramentas, e a colmeia das abelhas, que voavam alvoraçadas em busca de flores nas redondezas.
Os clientes chegavam cedo para comprar o pão e biscoitos de sal de amoníaco, além de litros de mel. O balcão de madeira na padaria era rústico e a gaveta permanecia sempre aberta para receber os pagamentos e trabalhar com o troco. Em frente à padaria ficava o alojamento dos padeiros.
Minha sogra gerenciava as duas auxiliares na cozinha, além do jardineiro que cuidava do quintal. Diariamente, 25 pessoas faziam as refeições na casa, e a rotina de picar, preparar legumes e verduras começava muito cedo. Some-se a isso, a lavagem, e o passar das roupas com ferro de brasa.
Os dormitórios eram separados para os homens, e no outro extremo, as oito camas das filhas. A rotina deveria ser obedecida, tomar café e ir para a escola. Num momento de desaviso, uma das filhas permaneceu deitada, e o pai colocou fogo no cortinado, deixando a garota muito assustada.
Minha sogra era linda, com uma pele branca aveludada, e só saía acompanhada das filhas.
Conheci minhas futuras cunhadas no Ginásio Estadual, e a mais velha e eu escolhíamos na biblioteca, os livros que iríamos ler. Descobri mais tarde, que ela estava bordando o enxoval para seu próximo casamento. O que eu não sabia era que o jovem era desquitado, ainda não havia divórcio no Brasil, e quando ela solicitou a autorização paterna, recebeu um taxativo “não” do pai.
Desesperada, ela foi ao armazém, comprou uma lata de soda cáustica e tomou o conteúdo, que lhe queimou a garganta. Foi hospitalizada, mas não se recuperou, passando meses em sofrimento, até sua morte. O homem que ela amava sofreu um colapso cardíaco e morreu em seguida.
Violências intrafamiliares são uma rotina em nosso país.
Agrego a este contexto, a violência sofrida por uma recém-casada, no seio de uma família soberba no interior de Minas Gerais. A linda jovem Lucy, no Triângulo Mineiro, se enamorou do filho único de uma família tradicional. A esposa enamorada demonstrava abertamente seu carinho e atenção pelo esposo, e não escondia seus beijos e abraços da sogra, o que resultou numa intolerável rejeição familiar.
Pouco tempo se passou até que Lucy começasse a se sentir mal, com vômitos e náuseas, que resultaram em sua morte. O fato abalou a pequena cidade, e toda a população desejava participar do sepultamento, mas denúncias de envenenamento foram feitas à polícia, pela família da jovem, que exigiu o exame da causa-mortis.
A vizinhança se mobilizou, e minha mãe se apressou em participar do evento, mas o cemitério estava com os portões fechados para o exame da perícia. Inconformada, conseguiu subir no muro do cemitério para acompanhar a abertura do caixão. Apesar de terem passado mais de vinte dias, a vítima tinha o esmalte vermelho das unhas em perfeito estado.
A sogra, dissimulava sua alegria com um choro falso. O marido inconsolável chorava copiosamente. Todos se perguntavam: – Quem matou Lucy?
Senti a mesma dúvida de todos os vizinhos, até que o crime foi esclarecido e a sogra foi presa.
A violência intrafamiliar corrói a paz e a harmonia dos entes queridos. É preciso que haja uma articulação entre Estado e sociedade na luta contra o crime e a violência de gênero. Os índices oficiais mostram um aumento nos crimes contra a mulher, os espancamentos, os estupros e crimes conjugais.
O conjunto de ações governamentais e não-governamentais não são capazes de debelar os altos índices de delitos, mesmo com a Lei Maria da Penha, e os códigos internacionais.
Crimes que ocorrem no interior do domicílio, são presenciados pelos filhos pequenos, incapazes de proteger a mãe.
A violência doméstica, conduz as mulheres a reagirem, são crimes passionais cometidos por mulheres. As sentenças que dão inteligibilidade aos crimes de parricídio em que as filhas são autoras, ou crimes contra os companheiros, estão associados aos argumentos que vitimam a mulher por meio da “loucura” ou violência intrafamiliar.
O Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, estabelecendo um recorde histórico pelo quarto ano consecutivo, conforme dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A violência letal no Brasil mostra que 90,4% dos homens assassinados foram mortos por outros homens, enquanto 97% das mulheres assassinadas foram mortas por homens. Enquanto tentam distorcer a realidade, os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a violência letal no Brasil é majoritariamente praticada por homens, tanto contra homens quanto contra mulheres.
Nesses casos, o sistema jurídico não aceita a transformação feminina, e as contraposições que se sobrepõem às representações de gênero baseadas no princípio da passividade feminina e da dominação masculina. O enfrentamento do crime e da violência tem um amplo poder de convocatória que nos permite analisar essa relação e o potencial de articulação da sociedade. Percebe-se uma desarmonia na estrutura da sociedade, traduzida pela negação de direitos básicos das mulheres, ausência explícita de boas práticas de políticas públicas e sociais. A configuração atual da criminalidade explicita a fraqueza da existência humana, a ausência da intervenção concernente à população feminina reclusa, e a necessidade de aprimoramento das políticas nacionais.
Palavras-Chave: Estado e sociedade. Políticas públicas e sociais. Violência e ccriminalidade. Parricídio. Violência intrafamilial. População reclusa.
ABSTRACT
The articulation between State and society in the fight against crime and violence shows a set of governmental and non-governmental actions to tackle the high crime rates, especially with regard to the passionate crimes committed by women. The sentences that give intelligibility to crimes of parricide in which daughters are perpetrated, or crimes against partners, are associated with the arguments that victimize women through “madness” or intrafamily violence. The Brazilian context shows that, even confessing to the crime, the logic of the fulfillment of gender roles and the narratives show the violence between parents and daughters, or wife and husband, do not favor women. In these cases, the legal system does not accept female transformation, and the oppositions that overlap with gender representations based on the principle of female passivity and male domination. The confrontation of crime and violence has a wide power of conviction that allows us to analyze this relationship and the potential for articulation of society. A disharmony in the structure of society is perceived, translated by the denial of basic rights of women, an explicit absence of good practices of public and social policies. The current configuration of criminality explains the weakness of human existence, the absence of intervention concerning the prison population, and the need to improve national policies.









