A China pretende concluir até o fim de 2028 um novo mapa geológico de Marte, projeto que busca ampliar o conhecimento sobre a evolução do planeta e reconstruir sua história relacionada à presença de água. A iniciativa também prevê a criação de uma proposta chinesa para organizar as diferentes eras da evolução geológica marciana.
O projeto foi apresentado por Hou Zengqian, acadêmico da Academia Chinesa de Ciências e cientista-chefe da missão Tianwen-3, durante um simpósio realizado no Instituto de Geologia da Academia Chinesa de Ciências Geológicas.
As informações obtidas pela missão Tianwen-1 terão papel central no trabalho. Lançada pela China em 2020, a missão colocou o país entre as poucas nações que conseguiram operar uma sonda na superfície de Marte. O rover Zhurong pousou no planeta em 2021 e realizou estudos sobre o solo e a estrutura geológica da região.
Os dados coletados pelo veículo contribuíram para novas interpretações sobre o passado marciano. Entre as evidências analisadas pelos cientistas estão indícios de que um grande oceano teria existido em Marte há aproximadamente 3,5 bilhões de anos. Também foram identificados sinais compatíveis com episódios de inundação ocorridos muito mais recentemente, há cerca de 1,6 bilhão de anos.
Essas informações serão incorporadas ao novo levantamento geológico e poderão ajudar os pesquisadores a compreender melhor as mudanças pelas quais passaram o clima e a superfície do planeta ao longo de bilhões de anos.
Nova proposta para a escala de tempo de Marte
Além de representar as características geológicas do planeta, o projeto pretende propor um sistema chinês para organizar a história geológica marciana.
Atualmente, a evolução de Marte costuma ser dividida em três grandes períodos: Noachiano, Hesperiano e Amazônico. Essa classificação é baseada principalmente na quantidade de crateras observadas na superfície e não em uma escala absoluta de tempo.
A proposta chinesa pretende aperfeiçoar essa forma de classificação e, segundo Hou Zengqian, buscar reconhecimento internacional para o novo sistema.
Para isso, os pesquisadores combinarão informações provenientes de diferentes missões espaciais. Embora os dados da Tianwen-1 sejam a principal fonte, o projeto também deverá utilizar informações obtidas por sondas de outros países, incluindo missões dos Estados Unidos e da Agência Espacial Europeia.
A integração permitirá reunir diferentes tipos de observações sobre Marte. Imagens da superfície e de sua órbita serão combinadas com informações espectrais, dados de radar e medições dos campos gravitacional e magnético do planeta.
O objetivo é construir uma base de dados global capaz de relacionar diferentes características físicas e geológicas de Marte. Com isso, os pesquisadores poderão analisar desde estruturas localizadas até grandes unidades tectônicas que abrangem extensas áreas do planeta.
Inteligência artificial será utilizada no mapeamento
A inteligência artificial terá participação importante na interpretação do enorme volume de informações reunidas pelo projeto.
Os pesquisadores pretendem incorporar o conhecimento acumulado por geólogos a modelos de inteligência artificial por meio de sistemas baseados em regras. A estratégia busca manter os resultados interpretáveis, permitindo que os especialistas compreendam os critérios utilizados pelos modelos.
Também serão empregadas técnicas de atenção em múltiplas escalas. A abordagem permitirá que a análise avance gradualmente, começando pela identificação de características minerais em áreas específicas e chegando à classificação de grandes unidades geológicas e tectônicas.
A combinação entre inteligência artificial, dados de diferentes missões e conhecimento especializado deverá permitir a construção de um modelo mais detalhado da evolução da superfície marciana.
Produtos previstos para 2028
O projeto prevê a produção de um mapa geológico global de Marte em escala de 1:5 milhões. Também está previsto um mapa mais detalhado, em escala de 1:50 mil, da região onde o rover Zhurong realizou seu pouso.
Além dos mapas, os pesquisadores pretendem elaborar uma série de atlas temáticos dedicados a diferentes aspectos da geologia marciana.
Outro resultado esperado é o desenvolvimento do que os responsáveis pelo projeto classificam como o primeiro mapa geológico inteligente de Marte. A tecnologia desenvolvida poderá posteriormente ser adaptada para estudos de outros corpos celestes, incluindo a Lua, Vênus e asteroides.
O trabalho também representa uma extensão da experiência chinesa em cartografia geológica. Segundo Yang Zhiming, diretor do instituto responsável pelo projeto, a instituição atua há cerca de sete décadas na elaboração de mapas geológicos, inicialmente voltados para áreas regionais e nacionais e, posteriormente, para outros corpos do Sistema Solar.
A experiência acumulada nessa área passou a contribuir para o programa espacial chinês, fornecendo informações que ajudam os pesquisadores a definir quais regiões devem ser exploradas, quais objetivos científicos devem ser priorizados e quais perguntas precisam ser respondidas.
Com a conclusão prevista para 2028, o novo mapa deverá reunir décadas de avanços na cartografia geológica com dados de missões espaciais e ferramentas de inteligência artificial, oferecendo uma visão mais detalhada da formação e transformação de Marte ao longo de sua história.









