O avanço do fenômeno El Niño está aumentando a preocupação de países da América Latina com os impactos sobre a agricultura, o abastecimento de água, a geração de energia e a atividade econômica. Alterações nos regimes de chuva e nas temperaturas já afetam produtores rurais e podem ampliar as dificuldades nos próximos meses.
Nos arredores de Tecoluca, no centro de El Salvador, agricultores que perderam a primeira plantação estão tentando novamente. Aproveitando períodos de chuva, eles voltaram a semear na expectativa de conseguir uma segunda colheita, mas a irregularidade das precipitações mantém o resultado incerto.
A situação vivida pelos produtores salvadorenhos representa um problema mais amplo. Em diferentes partes da América Latina, mudanças no volume e na distribuição das chuvas podem comprometer safras, reduzir a disponibilidade de água e pressionar sistemas de geração de eletricidade.
Os efeitos também podem alcançar diretamente a economia. Uma produção agrícola menor pode reduzir a oferta de alimentos, aumentar preços e diminuir a renda de famílias que dependem da agricultura. Ao mesmo tempo, dificuldades na produção podem reduzir a contratação de trabalhadores e afetar as exportações.
Agricultura enfrenta pressão
O chamado Corredor Seco da América Central está entre as áreas mais vulneráveis. Milho e feijão são fundamentais para muitas famílias rurais, tanto para o consumo próprio quanto para a geração de renda.
Em El Salvador, temperaturas elevadas e falta de água prejudicaram plantações realizadas durante a primeira temporada de semeadura, geralmente entre abril e junho. Segundo o meteorologista Danilo Ramirez, alguns produtores estão aproveitando as chuvas ocasionais para iniciar um novo plantio, mas ainda não há segurança de que a quantidade de água será suficiente.
O país chegou a decretar alerta vermelho nacional devido à seca em agosto. Para agricultores que já acumulam prejuízos, uma nova quebra de safra pode representar uma dificuldade ainda maior para garantir alimentação e renda.
De acordo com Patricio González, professor de climatologia agrícola da Universidade de Talca, no Chile, os impactos podem se espalhar por toda a cadeia econômica. Uma colheita menor significa menos alimentos disponíveis e menos produtos para comercialização. A redução da oferta pode pressionar os preços e diminuir a necessidade de mão de obra nas propriedades rurais.
No Brasil, as condições também variam significativamente entre as regiões. A previsão para o período de setembro a novembro indica possibilidade de chuvas abaixo da média no Norte, Nordeste e em áreas das regiões Centro-Oeste e Sudeste. No Sul, algumas localidades podem registrar precipitações superiores ao padrão habitual.
Para o meteorologista agrícola Luiz Renato Lazinski, essa diferença entre as regiões aumenta a vulnerabilidade das principais culturas. Enquanto algumas áreas podem sofrer com estiagem, outras enfrentam o risco de excesso de chuva, cenário que pode afetar tanto o abastecimento doméstico quanto as exportações brasileiras de produtos agrícolas.
Água também preocupa setor elétrico
Os efeitos do El Niño não ficam restritos ao campo. A disponibilidade de água também é fundamental para a geração de eletricidade em países que dependem de usinas hidrelétricas.
Na Venezuela, cerca de 60% da geração elétrica é proveniente de hidrelétricas instaladas principalmente no sul do país. O ecólogo Francisco Herrera alerta que uma combinação de temperaturas elevadas e uma seca intensa pode aumentar a pressão sobre o sistema elétrico no início de 2027.
A eventual redução da geração hidrelétrica pode obrigar o país a recorrer com maior intensidade às usinas termelétricas. Embora essa alternativa possa ajudar a garantir o fornecimento de energia, ela também aumenta o consumo de combustíveis fósseis e, consequentemente, as emissões de gases de efeito estufa.
Impactos chegam ao comércio internacional
A escassez de água também pode interferir nas rotas utilizadas pelo comércio internacional. O Canal do Panamá é um dos exemplos mais importantes, já que sua operação depende diretamente da disponibilidade de água.
As condições de navegação melhoraram recentemente graças às chuvas e às medidas de economia de água, permitindo aumentar o número de embarcações autorizadas a atravessar o canal e elevar o limite de calado. Apesar disso, a região responsável pelo abastecimento hídrico da via continua enfrentando dificuldades.
Para os exportadores, os problemas podem surgir em diferentes etapas. Uma produção agrícola menor pode reduzir a quantidade disponível para embarque, enquanto eventuais restrições no transporte aumentam os custos e dificultam a chegada das mercadorias aos mercados consumidores.
Secas, enchentes e períodos prolongados de calor podem, portanto, gerar efeitos que ultrapassam o setor agrícola. Segundo González, os eventos climáticos extremos podem afetar emprego, renda, preços e toda a estrutura de abastecimento.
A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão das Nações Unidas, estima que um episódio extremo de El Niño poderia provocar perdas equivalentes a pelo menos 2% do Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina e do Caribe. O fenômeno também poderia levar aproximadamente 4,8 milhões de pessoas adicionais à situação de pobreza.
Países adotam medidas de prevenção
Diante dos riscos, governos da região procuram combinar ações emergenciais com medidas de preparação para os próximos meses.
No Peru, as autoridades decretaram em agosto estado de emergência por 60 dias em 607 distritos de 16 regiões devido ao risco de escassez de água. Entre as medidas adotadas estão a distribuição de ração e vacinas para o gado, a instalação de estruturas de abastecimento de água e a construção de reservatórios e pequenas barragens para apoiar produtores rurais.
Na Venezuela, o governo anunciou medidas de economia de eletricidade e determinou ações de contingência voltadas ao setor agrícola. A possibilidade de ampliar a geração termelétrica aparece como uma alternativa para compensar eventuais perdas na produção hidrelétrica.
No Brasil, órgãos federais trabalham no acompanhamento das condições climáticas e dos níveis dos recursos hídricos para auxiliar na preparação diante de possíveis eventos extremos. A população também é orientada a acompanhar os comunicados oficiais, identificar áreas de risco e conhecer os procedimentos e rotas de evacuação em situações de emergência.
Para Celeste Saulo, secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, as previsões climáticas sazonais oferecem uma oportunidade importante para que governos e comunidades antecipem medidas de proteção.
O uso adequado das informações meteorológicas e das ferramentas de monitoramento pode ajudar a reduzir os impactos sobre vidas, atividades econômicas e meios de subsistência antes que os eventos climáticos se transformem em crises de maior proporção.
A avaliação reforça que os efeitos do El Niño não precisam necessariamente resultar em desastres. A preparação antecipada e a utilização das informações disponíveis podem ser determinantes para reduzir os prejuízos provocados por condições climáticas adversas.









