A Indonésia iniciou oficialmente a construção de seus primeiros submarinos Scorpène Evolved, em um movimento considerado estratégico para ampliar a capacidade industrial e tecnológica de sua indústria naval militar.

O marco ocorreu em 7 de agosto de 2026, no estaleiro estatal PT PAL Indonesia, em Surabaya, com o corte da primeira chapa de aço. A cerimônia marca a passagem do programa para a fase efetiva de construção das duas embarcações previstas no acordo firmado com o grupo francês Naval Group.

Mais do que incorporar novos submarinos à Marinha, Jacarta pretende utilizar o programa para desenvolver conhecimento e capacidade própria de construção, manutenção e integração de sistemas submarinos.

Dois submarinos serão produzidos em Surabaya

O contrato prevê a construção de duas unidades do Scorpène Evolved Full LiB, modelo equipado com um sistema de propulsão baseado em baterias de íons de lítio.

Diferentemente de uma aquisição convencional, os submarinos serão produzidos localmente pela PT PAL, com apoio técnico e transferência de tecnologia do Naval Group.

O acordo entre as empresas prevê a utilização da estrutura industrial já existente no estaleiro indonésio, permitindo que a construção seja gradualmente absorvida pela mão de obra local.

O contrato entrou oficialmente em vigor em julho de 2025, depois de a Indonésia selecionar o Naval Group e a PT PAL para executar o programa.

Baterias de íons de lítio são diferencial do projeto

Os submarinos escolhidos pela Indonésia pertencem à versão Scorpène Evolved Full LiB, desenvolvida com baterias de íons de lítio.

Essa configuração representa uma evolução em relação às versões convencionais do Scorpène e busca oferecer maior capacidade energética, eficiência e flexibilidade operacional.

O uso de baterias de íons de lítio também exige novas competências industriais, especialmente nas áreas de integração, segurança, gerenciamento de energia e manutenção.

A escolha coloca a Indonésia entre os países que estão investindo em tecnologias mais avançadas para submarinos convencionais.

Transferência de tecnologia é parte central do acordo

A construção local tem como um de seus principais objetivos desenvolver a capacidade da indústria indonésia.

O programa prevê treinamento de engenheiros e técnicos locais, além da presença de especialistas franceses durante diferentes etapas da produção.

Segundo informações divulgadas sobre o projeto, aproximadamente 400 engenheiros indonésios deverão ser treinados, enquanto especialistas franceses participarão diretamente da transferência de conhecimento relacionado à construção, integração, qualificação e sustentação das embarcações.

A iniciativa também deverá gerar milhares de empregos associados direta e indiretamente ao programa.

Indonésia busca reduzir dependência externa

O investimento em capacidade própria de construção naval militar faz parte de uma estratégia mais ampla da Indonésia para reduzir sua dependência de fornecedores estrangeiros.

A produção local permite que o país desenvolva competências que permanecem na indústria mesmo depois da conclusão do programa.

Esse conhecimento pode ser aplicado posteriormente em projetos de modernização, manutenção, construção de novas embarcações e desenvolvimento de sistemas navais.

Para Jacarta, portanto, o valor estratégico do programa vai além das duas unidades contratadas.

Experiência brasileira serve como referência

A estratégia indonésia possui semelhanças importantes com o caminho seguido pelo Brasil no desenvolvimento de sua capacidade de construção de submarinos.

Por meio do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), o Brasil construiu quatro submarinos convencionais da classe Scorpène com transferência de tecnologia francesa.

As embarcações foram produzidas no complexo naval de Itaguaí, no Rio de Janeiro, pela Itaguaí Construções Navais, com participação do Naval Group.

O primeiro submarino brasileiro do programa, o Riachuelo, foi incorporado em 2022, seguido pelo Humaitá, em 2024. Os demais submarinos convencionais também avançaram dentro do programa, enquanto o Brasil desenvolve paralelamente o submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto.

A experiência brasileira demonstra como a transferência de tecnologia pode ser utilizada para criar uma base industrial nacional especializada em construção e manutenção de submarinos.

Indonésia entra em grupo de países que fabricam Scorpène

A produção local do Scorpène não é uma experiência inédita. A Índia também construiu submarinos baseados no projeto francês em seu próprio território.

O programa indiano envolveu a fabricação de seis unidades da classe Kalvari no estaleiro Mazagon Dock Shipbuilders, com transferência de tecnologia do Naval Group.

Com o início da produção em Surabaya, a Indonésia passa a integrar esse grupo de países que utilizam o projeto francês como base para desenvolver sua própria capacidade industrial submarina.

Entregas estão previstas para a próxima década

O cronograma divulgado para o programa prevê que as primeiras unidades sejam entregues na próxima década.

Informações recentes apontam para entregas previstas para 2032 e 2033, embora o cronograma possa sofrer ajustes conforme o avanço da construção, integração dos sistemas e realização dos testes de mar.

Antes da incorporação à Marinha da Indonésia, os submarinos terão de passar por uma extensa campanha de testes para verificar seus sistemas de propulsão, navegação, sensores, combate e segurança.

Programa fortalece a posição da PT PAL

Para a PT PAL, o projeto representa uma oportunidade de elevar sua capacidade tecnológica e industrial.

O estaleiro estatal já possui experiência na construção de diferentes tipos de embarcações e anteriormente participou da fabricação local de submarinos da classe Nagapasa.

Em 2019, a empresa lançou o Alugoro, terceiro submarino dessa classe e primeiro submarino construído na Indonésia. O projeto anterior havia sido desenvolvido com transferência tecnológica sul-coreana.

A construção dos Scorpène representa, portanto, uma nova etapa na evolução da indústria submarina indonésia.

França amplia parceria estratégica com Jacarta

Para a França, o programa reforça sua presença no Indo-Pacífico e aprofunda a cooperação de defesa com a Indonésia.

O Naval Group passa a atuar não apenas como fornecedor de plataformas, mas também como parceiro no desenvolvimento da capacidade industrial local.

Esse modelo permite à França ampliar sua influência tecnológica e industrial enquanto a Indonésia aumenta sua autonomia na área de defesa.

Submarinos ampliam capacidade marítima da Indonésia

A Indonésia possui uma posição geográfica estratégica no Indo-Pacífico, formada por milhares de ilhas e localizada entre importantes rotas marítimas internacionais.

Nesse contexto, a capacidade submarina possui relevância para vigilância, proteção das águas territoriais, dissuasão e defesa das linhas marítimas de comunicação.

A incorporação futura dos Scorpène Evolved deverá complementar a frota existente e ampliar a capacidade operacional da Marinha indonésia.

Novo capítulo para a indústria de defesa

O início do corte de aço representa, portanto, mais do que o começo da construção de dois submarinos.

O programa cria uma oportunidade para a Indonésia consolidar conhecimentos em engenharia naval, integração de sistemas, gerenciamento de baterias avançadas e construção de plataformas submarinas.

Se os objetivos de transferência tecnológica forem plenamente alcançados, Jacarta poderá concluir o programa com uma indústria naval mais capacitada e preparada para participar de projetos militares de maior complexidade.

A construção dos Scorpène Evolved em Surabaya marca, assim, uma nova fase da estratégia indonésia de fortalecimento da autonomia tecnológica e de transformação da indústria nacional de defesa.