Agência Museu Goeldi – O Museu Paraense Emílio Goeldi tem a terceira maior coleção de mamíferos dentre os 141 acervos identificados na América do Sul. São 46.903 espécimes catalogadas de um total de 746.548 em todo o continente, ficando atrás apenas do Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com 89.726, e do Museu de História Natural da Universidade Nacional de San Marcos, no Peru, com 52.905.
A íntegra do estudo realizado por equipe internacional pode ser conferida no artigo “A comprehensive survey of mammal collections and genetic resources in South America: challenges and directions”, publicado pelo Biological Journal of the Linnean Society, em setembro de 2025, tendo como autor principal Marcelo Weksler (Museu Nacional/UFRJ). A equipe realizou a caracterização destes bancos biológicos tão essenciais em pesquisas básicas e pesquisas aplicadas e avaliou também os desafios e rumos destes recursos valiosos para diversas áreas do conhecimento.
O artigo aponta o Brasil com o maior número de espécimes catalogadas na América do Sul, com 334.950 exemplares. Em seguida, vêm Argentina (104.801), Peru (76.185) e Colômbia (75.484). E o Museu Goeldi ganha destaque em outras duas escalas: detém a segunda maior coleção do Brasil e a quarta da América Latina.
Bióloga, pesquisadora bolsista no Museu Goeldi por meio do programa Conhecimento Brasil, do Governo Federal, e coautora do artigo, Alexandra Bezerra ressalta que um dos motivos para a posição de destaque da instituição é sua antiguidade e esforços de coleta. O Museu Nacional, por exemplo, começou a alimentar sua coleção zoológica em 1842, seguido pelo Museu Goeldi, em 1866, quando foi fundado.
A preciosa coleção amazônica
O Museu Goeldi “começou a reunir, esporádica e principalmente, material do parque [Parque Zoobotânico, no bairro de São Brás, em Belém]: morria um animal, vinha para cá”, diz Alexandra, mencionando o espaço da coleção, no Campus de Pesquisa, que é também uma das bases físicas da instituição, na capital paraense, mas localizado no bairro da Terra Firme. Ela acrescenta: “Eu vi que tem muito material do século XX e da Taperinha”, fazenda localizada na cidade de Santarém, no Oeste do Pará, e região de ricas pesquisas de história natural realizadas por geólogos, zoólogos, botânicos e arqueólogos, sobretudo, nos séculos XIX e XX.
O material a que a bióloga se refere é constituído, em sua maioria, por mamíferos de médio porte, carnívoros e primatas. Os mamíferos de pequeno porte passaram a integrar a coleção um pouco depois. Geograficamente, Alexandra aponta que “a maior representatividade é a Amazônia Oriental e áreas de transição, porque tem material de Rondônia, Tocantins, Maranhão…”.
A pesquisadora complementa informações sistematizadas no artigo, destacando que as coletas, na Amazônia, não são homogêneas ao longo do tempo e se dão no transcurso de grandes rios. “Então tem muito ´buraco´ de amostragem – não só na Amazônia, mas, no Brasil todo”, argumenta. Ainda assim, uma virtude da coleção goeldiana é inegável: “É uma das maiores coleções com tipos, com cerca de 70 tipos”, reafirma Alexandra sobre os exemplares que são testemunhos de uma nova espécie, sendo um dos grandes trunfos de qualquer coleção.
Para se ter ideia, a coleção do Museu Goeldi reúne muitos espécimes antigos de espécies ameaçadas de extinção, como a onça-pintada (Panthera onca) e o peixe-boi (Trichechus inunguis).
Desafios em comum e peculiaridades
O artigo descreve quatro desafios mais pungentes entre as coleções estudadas na América do Sul, sendo elas a escassez de pessoal; a falta de infraestrutura mínima de manutenção a baixas temperaturas; a digitalização incompleta; e as questões garantidoras de sustentabilidade.
A coleção de mamíferos do Museu Goeldi, por exemplo, está sem curador desde 2025, com a aposentadoria de José de Sousa e Silva Jr., mas, por outro lado, “é a única coleção, dentre as maiores, que tem todos os dados digitalizados e, em sua maior parte, disponível no SiBBr”, compara Alexandra. O Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr) é uma plataforma nacional de dados e informações em biodiversidade, responsável pela organização, indexação, armazenamento e disponibilização de dados e informações sobre a biodiversidade e os ecossistemas brasileiros, fornecendo subsídios para a gestão governamental relacionada à conservação e ao uso sustentável.
A pesquisadora comenta ainda sobre o esforço curatorial para que o acervo de mamíferos da instituição se mantenha aberto à consulta de pesquisadores do Brasil e do exterior que estejam em dia com a coleção. Alexandra Bezerra ressalta, no entanto, que, diferente das coleções didáticas, a coleção científica é composta por elementos raros e delicados e, por isso, “têm de ser manipulados o mínimo possível e, quando manipulados, manipulados por quem sabe manipular e com objetivos claros”.
Educação que valoriza
Os autores do artigo enfatizam que “a iniciativa [da pesquisa] visa aumentar a conscientização sobre as coleções na América do Sul, planejar o crescimento estratégico e fortalecer a capacidade de pesquisa para abordar questões globais urgentes, como mudanças climáticas, transmissão de doenças zoonóticas e estratégias de conservação a longo prazo”.
Sensibilizar diferentes grupos sociais é uma tarefa crucial, defende Alexandra. “Por isso é importante o ´Museu de Portas Abertas´, porque você ensina o valor de se preservar e conhecer a biodiversidade, mostrar os exemplos, para que serve”, ilustra a pesquisadora, citando a iniciativa anual de educação do Museu Goeldi, que oferece ao público oportunidades de explorar espaços científicos de forma interativa, acessível e gratuita nas suas duas bases físicas da capital paraense – o Parque Zoobotânico e o Campus de Pesquisa.
Estimular os próprios especialistas de distintas áreas a preservar o espécime-testemunho é outro viés que merece atenção. Alexandra Bezerra faz referência às zoonoses: “o colega Marcelo Weksler faz parte de um grupo montado justamente para discutir a importância das coleções científicas, os espécimes-testemunho, em todos os estudos de patógenos [organismos capazes de provocar doenças] já realizados. No primeiro trabalho, eles viram que vários estudos de patógenos de origem zoonótica – ou seja, que ocorre entre os animais e podem se voltar para o homem – não preservam o ‘voucher’ [espécime-testemunho] do qual fora registrado o patógeno. Então a gente não sabe qual a espécie”.
Outra iniciativa recente do Museu Goeldi segue nesta direção, publicando uma série de cartilhas sobre esses bancos biológicos da instituição. O número sobre a coleção mastozoológica é assinada por Antônio Elielson Sousa da Rocha e Alexandra Bezerra, podendo ser acessada livremente.
Texto: Erika Morhy
Fonte: Museu Paraense Emílio Goeldi









