Todos os anos, após o Festival da Primavera, Beijing se transforma no centro das atenções políticas do país. É quando ocorrem as chamadas “Duas Sessões”, o período em que se reúnem simultaneamente a Assembleia Popular Nacional (APN) e a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC).

Em 2026, os eventos ocorrem nos dias 4 e 5 de março, e são antecipados por dias intensos de debate sobre o futuro político e econômico do país.

O que é a Assembleia Popular Nacional

A Assembleia Popular Nacional é o mais alto órgão do poder de Estado na China. Com quase 3 mil deputados vindos de todas as províncias, regiões autônomas, municípios e do Exército de Libertação Popular. A APN tem a função de aprovar leis, o orçamento nacional, planos econômicos e nomeações de altos cargos do governo.

É durante a sessão anual que o primeiro-ministro apresenta o relatório de trabalho do governo, detalhando metas de crescimento, políticas industriais, investimentos em infraestrutura, prioridades tecnológicas e diretrizes sociais.

Foi nesse fórum, por exemplo, que a China consolidou metas como a erradicação da pobreza extrema, planos quinquenais de desenvolvimento e diretrizes para inovação tecnológica.

O papel consultivo da Conferência Política

Já a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês reúne representantes de partidos políticos não comunistas, empresários, acadêmicos, líderes religiosos, minorias étnicas e organizações sociais. Ela não legisla, mas tem papel consultivo estratégico.

Na prática, a CCPPC funciona como um canal institucionalizado de diálogo entre diferentes setores da sociedade e o Estado. Muitas propostas debatidas ali acabam influenciando políticas públicas posteriores.

Definição de metas econômicas

Um dos pontos mais aguardados das Duas Sessões é a meta oficial de crescimento do PIB. Esse número sinaliza para mercados globais, investidores e governos estrangeiros qual será o ritmo da economia chinesa

Além disso, são anunciadas metas para inflação, geração de empregos, política fiscal e investimentos em setores considerados estratégicos, como semicondutores, inteligência artificial, energia limpa e infraestrutura verde.

Em um contexto de tensões comerciais com os Estados Unidos e desaceleração global, essas decisões ganham ainda mais peso geopolítico.

O início de um novo ciclo quinquenal

Em 2026, as Duas Sessões ganham importância ainda maior por marcarem o início de um novo Plano Quinquenal. É nesse momento que as diretrizes estratégicas ganham detalhamento operacional, metas anuais concretas e definição de prioridades orçamentárias.

A Assembleia Popular Nacional transforma os objetivos gerais em instrumentos legais e financeiros, enquanto a Conferência Consultiva amplia o debate sobre como implementar metas de modernização industrial, segurança tecnológica, transição energética e fortalecimento do mercado interno.

No primeiro ano do ciclo quinquenal, as decisões tomadas funcionam como a base que orientará políticas públicas, investimentos estatais e planejamento regional até 2030.

Confira a cobertura especial das edições anteriores das Duas Sessões aqui na Revista Fórum.

Planejamento de longo prazo

A política chinesa se diferencia por sua ênfase em planejamento de médio e longo prazo. As decisões tomadas nas Duas Sessões geralmente estão conectadas aos Planos Quinquenais, que estabelecem objetivos estruturais para cinco anos.

Esse modelo permite coordenação entre governo central, províncias e empresas estatais, garantindo continuidade nas políticas públicas. Discursos, relatórios e votações oferecem pistas sobre prioridades do Partido Comunista da China e sobre ajustes estratégicos na governança.

Por que o mundo presta atenção

Sendo a segunda maior economia do planeta e principal parceiro comercial de dezenas de países, a China influencia cadeias produtivas globais, preços de commodities e fluxos financeiros internacionais.

O que é definido nas Duas Sessões impacta desde o mercado de petróleo até a indústria de tecnologia na Ásia, América Latina e Europa. Por isso, as Duas Sessões de 2026 serão cruciais para entender a economia e a política internacional ao longo dos próximos anos.