A possibilidade de os BRICS — hoje ampliado para BRICS+ — criarem uma moeda comum para reduzir a dependência do dólar americano voltou ao centro do debate geoeconômico. A proposta, antes tratada como improvável por muitos economistas, ganhou tração diante da fragmentação do comércio internacional e do uso crescente de sanções financeiras como instrumento de política externa.
Obstáculos estruturais
Historicamente, moedas de reserva internacional exigem três pilares fundamentais:
Conta de capital amplamente conversível
Investidores precisam poder entrar e sair livremente do país emissor.
Mercado financeiro profundo e líquido
Títulos públicos amplamente negociados e considerados ativos seguros.
Autoridade monetária centralizada (em caso de moeda comum)
Algo semelhante ao modelo do Banco Central Europeu no caso do euro.
No caso dos BRICS+, esses requisitos enfrentam resistências políticas evidentes. Seria plausível que a Índia aceitasse abrir mão da autonomia de seu banco central em um arranjo que inclui sua rival estratégica, a China? Ou que Pequim liberalizasse plenamente sua conta de capital, abandonando os controles que historicamente limitaram a internacionalização do renminbi?
Esses entraves continuam relevantes.
O que mudou no cenário global?
Alguns fatores recentes reabriram o debate:
O presidente Xi Jinping tem defendido maior protagonismo internacional do renminbi.
Cresce a diversificação de acordos comerciais fora do eixo americano.
A participação dos Estados Unidos no PIB global gira em torno de 25%, o que significa que 75% da economia mundial pode buscar alternativas sistêmicas.
O colapso do sistema de Bretton Woods (1971–73) marcou o início da era de plena mobilidade de capitais — antes disso, moedas relevantes coexistiam com controles financeiros.
Além disso, o euro demonstrou que uma moeda pode funcionar bem como instrumento regional de liquidação comercial, mesmo sem substituir integralmente o dólar como principal reserva global.
Modelo alternativo: moeda de liquidação, não moeda única
A hipótese mais viável não seria uma moeda plena para circulação doméstica, mas um instrumento de compensação comercial intra-BRICS+, possivelmente:
Baseado em uma cesta ponderada de moedas nacionais;
Usado exclusivamente para liquidação de comércio bilateral e multilateral;
Operando via infraestrutura digital ou sistemas de compensação próprios.
Isso reduziria a necessidade de liberalização total das contas de capital e evitaria a criação imediata de um banco central supranacional.
Papel das moedas digitais
Outro elemento disruptivo é o avanço das stablecoins e sistemas de pagamentos digitais. Embora muitos argumentem que isso reforça o dólar, a mesma tecnologia pode permitir que os BRICS+ criem:
Plataformas de liquidação paralelas;
Sistemas de compensação fora do circuito financeiro dominado por Washington;
Moedas digitais de banco central interoperáveis.
Viabilidade: economia vs. política
Do ponto de vista técnico, o desafio é complexo, mas não impossível.
Do ponto de vista político, é muito mais delicado.
Para que uma moeda BRICS+ ganhe credibilidade, seriam necessários:
Coordenação macroeconômica consistente;
Compromissos fiscais previsíveis;
Mecanismos de resolução de crises;
Confiança mútua entre membros com interesses estratégicos divergentes.
Hoje, esse nível de integração parece distante.
Conclusão
Uma moeda comum plena dos BRICS+ ainda parece improvável no curto prazo. No entanto, um mecanismo de liquidação comercial alternativo ao dólar tornou-se uma possibilidade concreta dentro de um cenário de multipolaridade crescente.
A pergunta central não é mais se o dólar será substituído — isso é improvável no horizonte imediato —, mas se seu domínio absoluto pode ser gradualmente diluído.
E esse processo, ao que tudo indica, já começou.









