A criação do chamado “Conselho da Paz”, proposto por Donald Trump, surge como uma iniciativa que, à primeira vista, se apresenta sob o discurso da estabilidade e da reconstrução de Gaza, mas que, na prática, levanta sérias dúvidas sobre legitimidade, governança e impacto no sistema internacional. O formato do órgão, com presidência vitalícia, poder de veto concentrado em uma única figura e exigência de contribuição financeira bilionária para permanência, rompe frontalmente com os princípios clássicos do multilateralismo.
O desenho institucional do conselho se assemelha mais a um consórcio político-financeiro do que a um organismo internacional voltado à paz. A ausência de grandes potências tradicionais, a resistência explícita de países europeus e a preocupação manifesta com o enfraquecimento da ONU indicam que a proposta não nasce como complemento ao sistema internacional existente, mas como alternativa ideológica a ele. Trata-se, na essência, de uma tentativa de substituir regras coletivas por arranjos personalizados de poder.
A supervisão de um governo de transição em território palestino sem a participação clara de representantes palestinos aprofunda o ceticismo. Paz imposta sem protagonismo dos diretamente afetados tende a produzir instabilidade, não solução. Nesse contexto, o conselho corre o risco de ser percebido mais como instrumento de influência geopolítica dos Estados Unidos — e de Trump em particular — do que como um fórum genuíno de pacificação.
Para o Brasil, o convite representa uma encruzilhada diplomática. Aceitar pode significar incoerência com a defesa histórica do Estado palestino e com o fortalecimento da ONU. Recusar, por outro lado, pode gerar atritos com Washington em um momento sensível das relações comerciais e políticas. A decisão, portanto, extrapola Gaza: envolve o posicionamento do país diante de um mundo em disputa entre instituições multilaterais e iniciativas unilaterais travestidas de cooperação.
Em síntese, o Conselho da Paz não testa apenas a viabilidade de um novo arranjo para Gaza, mas também os limites entre diplomacia legítima e personalização extrema do poder internacional. O risco maior é que, sob o pretexto de eficiência, se consolide um modelo que fragiliza regras, ignora consensos e transforma a paz em ativo político negociável.









