No início da entrevista, a pergunta tradicional é sobre os resultados do ano passado. Compreendo que houve muitos acontecimentos. Mas, na sua opinião, qual foi o principal resultado de 2025?
– De fato, houve muitos eventos marcantes e o ano passou muito rápido, por isso é difícil responder à sua pergunta de imediato.
Por exemplo, nossa economia cresceu mais de 6%, o PIB ultrapassou a marca de US$ 300 bilhões e, em termos per capita, ultrapassou US$ 15 mil. Esses são indicadores recordes não só para o nosso país, mas para toda a região. Há motivos para satisfação, mas eu sempre exorto todos os funcionários públicos a não se acomodarem, a não descansarem sobre os louros. Como diz a sabedoria oriental: “Mesmo na situação mais favorável, há perigo”. É preciso trabalhar arduamente, seguir em frente, ainda mais porque há muitas questões pendentes.
Trata-se, acima de tudo, do alto nível de inflação, que “corrói” todos os esforços direcionados ao aumento do bem-estar dos cidadãos do nosso país. Este ano, o governo e os akimas têm muito o que fazer em termos de fortalecimento da estrutura socioeconômica do Estado.
No entanto, o principal resultado do ano foi a irreversibilidade das reformas. O Cazaquistão deu um grande passo à frente no caminho da modernização, tornando-se um Estado mais civilizado. A sociedade consolidou a compreensão da importância excepcional das transformações em grande escala para o bem-estar das gerações futuras.
Sob a pressão da estratégia do “bom senso” do presidente Trump, a globalização está ficando em segundo plano. No Cazaquistão, também estamos construindo uma sociedade baseada na justiça, na legalidade, na ordem e no trabalho árduo, o que é extremamente importante para o futuro do nosso país. No ano que se inicia, esse trabalho continuará com força redobrada, com foco em resultados de longo prazo.
-No ano passado, desenvolveram-se intensos debates em torno do novo Código Tributário. Os cazaques tinham muitas dúvidas e preocupações a esse respeito. Existe um equilíbrio ideal que, por um lado, permita realizar as reformas econômicas necessárias e, por outro, não piore a situação dos cidadãos?
– O tema da reforma tributária é, sem dúvida, actual, e as discussões sobre essa questão são plenamente justificáveis, mas não a ponto de semear pânico entre a população. Reformas desse tipo estão sendo realizadas em muitos países. Por exemplo, na Rússia, o IVA foi recentemente elevado para 22%.
A nossa reforma não é uma simples “campanha fiscal”, mas uma redefinição do sistema tributário. Seu principal objetivo é garantir um crescimento econômico sustentável. Ao Governo foi incumbida a tarefa de preparar um Código Tributário transparente e compreensível. Como o gabinete lidou com essa missão, veremos já neste ano.
A elevação do IVA, inclusive para 20%, foi proposta pelo Governo anterior, que reconheceu a extrema necessidade dessa decisão diante dos erros cometidos na política fiscal. Durante as discussões, o atual Governo também propôs elevar o IVA para 20%, mas eu determinei que reduzisse o patamar em quatro pontos percentuais.
O novo Código Tributário visa deslocar o foco do controle para a parceria, em que todos os participantes do processo — Estado, empresas e cidadãos — cumprem de boa-fé suas obrigações. Em um sistema complementar como esse, os impostos deixam de ser percebidos como um fardo. Trata-se, em essência, de um contrato social moderno: paga-se impostos e recebem-se serviços, infraestrutura, segurança e oportunidades. Mais do que isso, é um instrumento de redistribuição justa da carga, capaz de apoiar os mais vulneráveis e fortalecer aqueles que estão no “centro” da economia.
A eficácia da política fiscal no mundo inteiro é determinada tanto pela qualidade da administração quanto pelo nível de educação tributária e de consciência cívica da sociedade. É assim que se forma a cultura do pagamento de impostos: de obrigação, ela se transforma em uma forma moderna de patriotismo. Isso, por sua vez, é um caminho direto para a rejeição da corrupção. Os contribuintes honestos se incomodam muito quando seu dinheiro vai parar nos bolsos de fraudadores.
– As reformas econômicas exercem pressão sobre preços e tarifas, o que preocupa os cidadãos. O senhor encarregou o Governo de apresentar um plano de medidas concretas para resolver esse problema. Isso não afetará a qualidade e o ritmo das reformas, nem anulará os resultados esperados pelas pessoas que aguardam a melhoria do seu bem-estar?
– A experiência mundial mostra que as reformas frequentemente enfrentam incompreensão e rejeição por parte da sociedade. Por isso, o papel do líder que assume toda a responsabilidade é difícil de superestimar. Como chefe de Estado, assumo essa responsabilidade e estou disposto a fazê-lo também no futuro. As pessoas que trabalham comigo sabem bem disso. Ao mesmo tempo, compreendo que se trata de um caminho árduo, repleto de obstáculos. A história costuma ser mais benevolente com conquistadores e populistas do que com reformadores. Mas o Cazaquistão não tem outro caminho: precisamos realizar reformas para não ficarmos parados, mas avançarmos.
Por métodos administrativos, para evitar prejuízos aos cidadãos, o crescimento das tarifas foi temporariamente suspenso durante o período de inverno. Ao mesmo tempo, foi atribuída ao Governo a tarefa de utilizar racionalmente os recursos orçamentários. Não se pode inundar a economia com dinheiro, provocando inflação. É necessária uma disciplina orçamentária rigorosa. Os recursos financeiros devem ser direcionados apenas a projetos de que o Estado realmente necessita. Em novembro do ano passado, o Governo, o Banco Nacional e a Agência de Regulação e Desenvolvimento do Mercado Financeiro adotaram um programa trienal voltado à redução da inflação, o que melhorará o bem-estar dos cidadãos.
Especialistas internacionais consideram corretamente que o Cazaquistão caiu na “armadilha da renda média”. Serei absolutamente franco: isso não é uma abstração dos manuais de economia, mas uma realidade com a qual muitos compatriotas se deparam diariamente. Há rendas, por vezes consideráveis, mas elas se dissipam na inflação e nas obrigações – hipoteca, educação dos filhos, apoio aos pais. Qualquer imprevisto, seja uma doença ou a perda do emprego, pode abalar a estabilidade da vida.
Em determinado momento, tomei a decisão de permitir que os cidadãos utilizassem suas economias previdenciárias para a compra de imóveis, o pagamento da educação dos filhos e tratamentos de saúde. Muitos o fizeram e expressaram gratidão por essa decisão, mas, como sempre, surgiram fraudadores que, sob o pretexto de serviços odontológicos, desviaram mais de 200 bilhões de tenge do fundo previdenciário. As forças de segurança estão lidando com eles. Foi necessário encerrar esse tipo de atendimento médico, mas outras artimanhas passaram a ser usadas, chegando até ao pagamento de cirurgias plásticas.
O setor empresarial cria empregos e paga impostos honestamente, porém os créditos caros e a limitação de capital de giro não permitem que as empresas se expandam, acessem novos mercados ou implementem tecnologias modernas.
A estrutura da nossa economia está mudando, mas, a meu ver, em um ritmo lento. Como resultado, o país, segundo avaliações de instituições financeiras internacionais e agências de rating, é próspero, até rico – o que corresponde à realidade, porém, no interior da economia, persistem desproporções que precisam ser corrigidas com urgência, “endireitadas”. Vemos essa situação e não pretendemos escondê-la. Muitos países enfrentam problemas semelhantes. Certamente superaremos essa “doença do crescimento”. Existe um plano de ação.









