A França inicia a construção do maior porta-aviões nuclear da Europa: o PA-NG, equipado com dois reatores K22 e catapultas eletromagnéticas, promete revolucionar o poder naval europeu até 2038
O futuro porta-aviões de propulsão nuclear francês, conhecido como PA-NG (Porte-Avions Nouvelle Génération), começou oficialmente a sair do papel. No dia 25 de setembro de 2025, o Grupo Naval, no estaleiro de Cherburgo, iniciou a soldagem da primeira chapa de aço destinada aos compartimentos de confinamento nuclear da embarcação, um marco simbólico que dá início à construção do maior navio de guerra já projetado na Europa.
A operação foi supervisionada pela Direção Geral de Armamento (DGA), órgão do Ministério das Forças Armadas da França, com a TechnicAtome e a Comissão de Energia Atômica (CEA) responsáveis pelos sistemas nucleares. Trata-se do primeiro passo visível de um projeto que promete redefinir os limites tecnológicos da marinha francesa, consolidando a liderança do país no campo da propulsão nuclear naval.
O PA-NG será equipado com dois reatores nucleares do tipo K22, cada um com potência térmica aproximada de 225 megawatts, projetados para sustentar catapultas eletromagnéticas e longas operações embarcadas. O cronograma prevê que a construção ganhe ritmo entre o final de 2025 e o início de 2026, com entrada em serviço estimada para 2038.
Reator K22: a nova geração da propulsão nuclear francesa
O reator K22 é uma evolução direta do modelo K15, utilizado atualmente no porta-aviões Charles de Gaulle e nos submarinos nucleares franceses. Desenvolvido pela TechnicAtome sob supervisão da CEA, o sistema utiliza água leve como refrigerante e moderador e adota um novo gerador de vapor em placas, mais compacto e eficiente.
Cada unidade K22 gera cerca de 225 MW de potência térmica — o que representa 50% mais energia que o K15. Essa reserva de potência permitirá que o PA-NG opere catapultas eletromagnéticas (EMALS)semelhantes às dos porta-aviões da classe Gerald R. Ford, dos Estados Unidos.
Outro avanço crucial é a capacidade de variação rápida de potência, fundamental para acompanhar o ritmo das operações aéreas. O sistema foi projetado para manter velocidades sustentadas de 27 nós e pode operar por até dez anos sem reabastecimento nuclear. O conjunto é abrigado dentro de uma estrutura metálica blindada, reforçada contra impactos e ameaças externas, aumentando a segurança da tripulação e da planta nuclear.
A Framatome, em Le Creusot, e a unidade do Naval Group em Nantes-Indret são as responsáveis pela fabricação dos principais componentes, que serão validados no reator de testes localizado em Cadarache.
Estrutura e dimensões dos compartimentos nucleares
Cada compartimento metálico de confinamento destinado aos reatores K22 mede cerca de 14 metros de altura, 13 metros de diâmetro e pesa aproximadamente 1.300 toneladas. São estruturas imensas — entre as maiores já produzidas para sistemas navais franceses.
Ao contrário dos submarinos, cujos cascos de pressão abrigam os reatores de forma integrada, o PA-NG exige compartimentos independentes, que serão posteriormente inseridos no casco principal em uma sequência de montagem semelhante à adotada no Charles de Gaulle.
Essa etapa inicial é considerada crítica para o cronograma do programa, já que define o ritmo do restante da construção, especialmente o encaixe da seção nuclear e o fechamento do casco. As tarefas de caldeiraria e soldagem dessa fase são extremamente complexas e concentram o trabalho de dezenas de equipes especializadas.
Um investimento bilionário e um ecossistema industrial gigantesco
O pontapé da fabricação ocorre após um contrato de 600 milhões de euros, assinado em 26 de abril de 2024, destinado à aquisição de componentes de longa duração da propulsão nuclear — incluindo as salas de caldeiras, os recintos de confinamento e o circuito secundário, responsável por converter o vapor gerado em energia elétrica.
A Framatome ficou encarregada de forjar os componentes principais ao longo de cinco anos, enviando-os posteriormente para as plantas do Naval Group em Nantes-Indrete Cherburgo, onde serão montados e integrados. Esse processo ocorre em paralelo ao desenvolvimento de engenharia iniciado em 2018, seguido pelo projeto preliminar em 2021 e o projeto detalhado em 2023 — tudo planejado para minimizar riscos antes da montagem definitiva do navio.
O cronograma industrial prevê que a seção nuclear seja montada em Saint-Nazaire, com componentes vindos de Nantes-Indret e Cherburgo. Em seguida, o restante do casco será construído em torno dessa estrutura. A previsão é que o lançamento ao mar (batimento do casco) e o equipamento interno ocorram até 2035, antes do traslado para Toulon, onde o navio será finalizado.
Testes, cronograma e metas operacionais
Antes da ativação nuclear, estão previstos testes preliminares com geradores a diesel temporários, capazes de alimentar os motores e os sistemas elétricos, permitindo que o navio realize navegações de prova rumo ao Mediterrâneo.
As provas de propulsão nuclear ocorrerão já em mar aberto, no Mediterrâneo, entre 2036 e 2037. Caso os resultados sejam satisfatórios, o PA-NG será oficialmente incorporado à frota francesa em 2038, substituindo o Charles de Gaulle, que estará próximo de completar quatro décadas de serviço.
Os estudos de engenharia apontam que o PA-NG terá deslocamento de cerca de 78.000 toneladas, comprimento total de 310 metros e largura máxima da cobertura de voo de 85 metros. Essas dimensões o colocam entre os maiores porta-aviões do mundo.
O navio contará com catapultas eletromagnéticas EMALS e sistemas de recuperação AAG (Advanced Arresting Gear), alinhando-se ao padrão tecnológico dos porta-aviões americanos da classe Ford, e deixando para trás o modelo de “rampa de decolagem” usado em embarcações britânicas da classe Queen Elizabeth.
A disposição da ilha de comando será deslocada para a popa, com dois elevadores dianteiros destinados ao transporte de aeronaves. Está prevista ainda uma terceira catapulta frontal, garantindo maior capacidade de lançamento simultâneo e redundância em caso de falhas.
O convés ampliado e o hangar interno permitirão a operação combinada de aeronaves tripuladas e não tripuladas, além de missões de ataque, defesa e policiamento aéreo em paralelo.
Armamentos e sistemas embarcados
O PA-NG abrigará aeronaves Rafale Mdurante a fase de transição, o avião de alerta antecipado E-2D Hawkeye, além de futuros caças de sexta geração e drones embarcados. O navio será equipado com radar de varredura eletrônica Sea Fire, mísseis antiaéreos Aster de lançamento vertical e sistemas de artilharia automatizada de curto alcance para defesa de ponto.
Esses recursos proporcionarão maior taxa de saídas de aeronaves e maior flexibilidade operacional em ambientes de alta ameaça — requisitos considerados essenciais para as operações navais de longo alcance da França.
Mesmo com o aumento do tamanho e da complexidade, a tripulação permanente será mantida em torno de 1.100 pessoas, podendo chegar a 2.000 com o embarque do grupo aéreo e especialistas de manutenção.
O projeto mobiliza algumas das maiores empresas da indústria de defesa francesa, incluindo o Naval Group, os Chantiers de l’Atlantique, a TechnicAtomee a joint venture MO Porte-Avions. Ao todo, mais de 200 especialidades industriais estão envolvidas, desde metalurgia até instrumentação nuclear.
O programa também envolve fornecedores estratégicos de materiais e forjas pesadas, como Framatome, Aubert et Duval e Industeel, que trabalham em estreita colaboração com os engenheiros navais franceses.
Segundo a Marinha da França, o PA-NG não apenas substituirá o Charles de Gaulle, mas renovará todo o know-how nacional em propulsão nuclear naval, mantendo o país na vanguarda da tecnologia de defesa europeia.
Um salto tecnológico e simbólico para a Europa
A França reafirma com este projeto sua posição de única potência europeia com capacidade de operar um porta-aviões de propulsão nuclear. O PA-NG será o primeiro navio do continente projetado desde o início para catapultas eletromagnéticas, drones embarcados e aviões de combate de nova geração, simbolizando uma virada de página na aviação naval europeia.
Ao optar por essa combinação — propulsão nuclear, catapultas EMALS e sistemas de recuperação AAG —, a França garante autonomia operacional total, alta velocidade, projeção global de poder e compatibilidade com as aeronaves de seus aliados da OTAN.
Com previsão de estreia no fim da década de 2030, o PA-NG deverá consolidar a França como líder tecnológica e marítima da Europa, reforçando a doutrina de porta-aviões de alta mar e assegurando o papel de Toulon como principal base estratégica do Mediterrâneo.









