No fim do primeiro dia da Pré-COP em Brasília, um toró desabou sobre a cidade. No centro de convenções onde o evento foi realizado, pessoas que estavam nas salas saíram para saudar a chuva, que encerrava um dos meses mais secos do ano na capital federal.

A reunião de dois dias convocada pela presidência brasileira da COP30 foi um pouco como essa tempestade: o tom cordial dos representantes dos 67 países presentes, vários deles ministros e vice-ministros, trouxe um pouco de alívio, num mundo fraturado por guerras e divisões geopolíticas. Ao mesmo tempo, um outro tipo de nuvem, formada pelas divergências entre as nações sobre as ações necessárias para conter o colapso climático, não se desfez em fios de água, e continua ameaçando o sucesso da Conferência de Belém.

As reuniões da Pré-COP foram, em sua maioria, fechadas à imprensa. Houve encontros só entre os negociadores sobre temas que já estão na agenda de negociação da COP30, herdada de COPs anteriores. E plenárias sobre questões mais amplas, que permanecem fora da agenda, duas delas sobre como implementar dois artigos fundamentais do Balanço Global, o documento aprovado na COP28 que enumera os passos necessários para o cumprimento do Acordo de Paris: esses artigos tratam do fim do desmatamento e da transição energética, com ênfase na “transição para longe” dos combustíveis fósseis.

Observadores da sociedade civil e diplomatas que assistiram a esses encontros ou participaram deles relataram que os discursos enfatizaram a necessidade de preservar e fortalecer o multilateralismo – que é a capacidade de os países agirem juntos, vista com descrença cada vez maior pelos povos do planeta. Ana Toni, a diretora-executiva da COP30, lembrou que, a 27 dias da COP, “só um país saiu do Acordo de Paris” – quer dizer, nenhum outro seguiu o que Donald Trump fez no início deste ano.

O próprio André Corrêa do Lago, presidente da conferência, reconheceu que, se isso for alguma coisa, está longe de ser suficiente: “Com relação à reafirmação do multilateralismo, realmente há esse perigo de as pessoas interpretarem que é apenas retórica”, disse. “Temos que fortalecer os argumentos para assegurar que isso seja convincente.”

Uma cena que marcou os bastidores da conferência mostra as dificuldades de transformar as promessas de boa vontade em acordos concretos. Na plenária sobre a transição energética, depois que a ministra Marina Silva e outros participantes enfatizaram a importância de o mundo apressar a eliminação do petróleo, do gás e do carvão, o representante da Arábia Saudita, Abdelrahman M. Al-Gwaiz, assessor-chefe de Meio Ambiente e Sustentabilidade do reino, protestou. Disse que o Balanço Global não trata só desse assunto, e que não haveria por que insistir em abordá-lo com tanto destaque. Na COP29, no Azerbaijão, os sauditas e outros grandes produtores de petróleo tiveram sucesso em impedir que a “transição para longe dos fósseis” figurasse em qualquer documento aprovado.

Os relatos feitos na plenária de encerramento mostraram que o financiamento continua sendo um empecilho para a conclusão de dois textos da negociação: adaptação à mudança do clima e transição justa. Insatisfeitos com o acordo sobre financiamento aprovado na COP29, os países com menos recursos monetários continuam pedindo a garantia de mais dinheiro para proteger sua população de um planeta mais quente e para fazer isso reduzindo a desigualdade e a pobreza. A União Europeia, antes um doador de peso, não quer saber de pôr mais verbas na mesa.

Ainda não há, também, uma solução para tratar dos temas que não estão na agenda de negociação – entre eles, a questão dos combustíveis fósseis e a da baixa ambição das metas de redução da emissão de gases de efeito estufa que os países estão anunciando neste ano. São assuntos que poderiam ser tratados numa declaração da cúpula dos presidentes e primeiros-ministros, que acontecerá dias antes da COP, ou como uma “decisão de capa” da conferência, proposta pela presidência brasileira. Consultas feitas na Pré-COP sobre a possibilidade de uma decisão de capa encontraram a rejeição da maioria dos governos presentes em Brasília.

As tratativas continuam nesta semana, em dois dias de consultas fechadas, convocadas pela presidência da COP30. Nesta quarta, 15, será discutido como abordar questões que ainda não têm lugar na agenda oficial. Na quinta, os temas que já fazem parte dela, mas ainda precisam avançar. “Falta muita coisa”, disse Corrêa do Lago. “Mas as discussões refletem um espírito de cooperação”, matizou.

Fonte: sumauma