Jornalista relata experiência na fronteira entre Coreias – Por Elton Pacheco

Jornalista Elton Pacheco na fronteira

Um silêncio incômodo impera no ônibus, mas ouço no fundo a narração de um vídeo em coreano sobre a guerra que dividiu o país em dois. Aqueço minhas mãos congeladas pelo frio intenso, enquanto confiro as horas no celular: faltam apenas 10 minutos para o destino final.

São 7h50 da manhã de 16 de novembro de 2017. Eu e meu sobrinho estamos na estrada há quase uma hora, desde que partimos de Seul rumo à fronteira com a Coreia do Norte. Da janela, dá pra ver que o cenário já é bem diferente daquele que deixamos para trás, na imponente e movimentada capital sul-coreana.

Não há gente circulando, não se ouve tantos ruídos, salvo aqueles dos pássaros e do vento forte. Mais de cinco décadas de quase total isolamento da presença humana na região têm lá seus benefícios – não fosse, é claro, por este silêncio que pertuba. Dizem que a fauna e flora estão preservadíssimas aqui, feito inimaginável para o que a área outra representou nas mortes de uma guerra terrível. A verdade é que existe algo estranho ar, mesmo com as belíssimas montanhas e florestas que circundam o local.

Estou em Panmunjeom, a famosa região onde se encontra o Paralelo 38, a fronteira entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Conhecida como DMZ (sigla em inglês), a zona desmilitarizada se estende por toda a divisa e é resultado do armistício assinado após a guerra de 1950-53. Uma cerca elétrica com arame farpado por cima se espalha por 280 km de leste a oeste e me lembra dos muros e cercas que separam a humanidade.

Em outras palavras, este é o limite mais ao norte da Coreia do Sul, e é, também, o que melhor representa a separação de um mesmo povo em duas nações não apenas com sistemas econômicos e políticos diferentes, mas, agora, tanto tempo depois, com histórias bem distintas. Mais difícil ainda acreditar que pouco mais de 200 km rumo ao norte está Pyongyang, a capital norte-coreana que tanto desperta interesse e dúvidas a nós, ocidentais.

Olho ao redor e o que se vê é um pequeno vilarejo, com arames farpados e alto falantes por todos os lados. Pergunto à guia para que servem. – É para comunicação entre o governo e os moradores, em caso de alguma emergência, ela me explica. Moradores?, questiono eu. – Sim, moram aqui 60 famílias, pouco mais de 200 pessoas que recebem isenção de taxas do governo, alguns têm até muito dinheiro, revela.

– Essas pessoas, elas parecem não existir, acrescento.

Mais adiante, o ônibus estaciona em um espaço aberto, onde outros veículos de turismo, maiores, já estavam estacionados. Um símbolo enorme traz as iniciais DMZ, com um globo dividido ao meio.

Nesse estacionamento tem uma sala de cinema, onde é exibido um curto filme sobre a guerra. Do lado de fora, apenas mais silêncio e neve, que começa a cair devagarzinho do céu.

Este silêncio é só interrompido quando escuto ruídos de rádio do lado de lá. – O que é este som?, pergunto à guia. – É propaganda comunista. Está dizendo o quanto o regime de Kim Jong-un é bom para o povo. Toca a mesma mensagem 12 horas por dia para os moradores, ela explica. – Aí a gente toca Kpop para contrapor.

Todos riem.

Do outro lado da tal praça, o inimaginável. Abaixo da terra, a 435 metros de profundidade, está o que os coreanos chamam de túnel de infiltração, construído ao longo de 3 km pela Coreia do Norte para invadir o Sul. Dizem os coreanos do sul que, são fosse pela denúncia de um desertor norte-coreano, talvez os irmãos do norte tivessem tido sucesso.

E ali entrei. Há armários para você deixar seus pertences, principalmente celular. Não é permitido fotografar. Já na fila, você é obrigado a usar um capacete amarelo, daqueles usados em minas de exploração, e desce por longos minutos em fila indiana.

O espaço é extremamente apertado. Uma fila desce e a outra sobe. Pessoas mais altas têm dificuldades – o túnel foi criado para norte-coreanos, com estatura baixa, daí você pode imaginar o nível de dificuldade. Ao longo do percurso ouve-se xingamentos nos mais variados idiomas. É o sinal de que alguém bateu com a cabeça no teto.

Ao final da fila é possível ver o local onde começou a ser cavado, já em território norte-coreano, mas, claro, respeitando o limite de fronteira. É o mais próximo da Coreia do Norte que pude chegar. Acredita-se que existem 20 túneis construídos para invadir o sul. Até hoje, porém, o governo só localizou quatro. Este que visitei é o terceiro.

Dali, seguimos de ônibus para o que é chamado de Observatório de Dora, de frente para Kaesong, a cidade norte-coreana onde até 2013 funcionava um complexo industrial. Essa era a única zona de desenvolvimento existente entre os dois países no pós-guerra, mas que, por decisão do regime do norte, foi fechada.

Com um simples binóculos, pude ver Kaesong, a fantasma Kaesong de perto – e preciso dizer: foi uma das sensações mais estranhas que já tive na vida. A sensação de ‘tão perto, tão longe’ mais uma vez toma conta. E é impossível descrever… talvez o silêncio que menciono fosse ainda mais incômodo ali, não fossem as vozes de turistas que se aglomeram em binóculos para ver o que há do outro lado.

Pude ver gente trabalhando no campo e uma grande e imponente estátua de Kim Il Sung, o avó. Também se vê bandeiras espalhadas por toda parte. Há estradas abandonadas. Dizem que Kaesong se tornou uma cidade fantasma após o fechamento do complexo industrial. Perto dali, dias antes da minha visita, um soldado norte-coreano utilizou a estrada abandonada para desertar para o sul de carro. Foi baleado, mas sobreviveu.

O ponto final da viagem foi também marcado por sentimentos conflituosos. Visitei a Dorasan Station, uma estação de trem inaugurada pela Coreia do Sul em 2002 para marcar os esforços do governo em unificar os dois países. Apesar de bem cuidada, por ser nova, e imponente, Dorasan é também fantasma. O governo de Seul espera utilizar essa estação para ligar a capital à Pyongyang no futuro. Mas ela está lá, pronta, e também silenciosa. Não há barulhos de trem, nem motores, nem vida.

Um trem parado nos trilhos confere ainda um tom mais sombrio ao local, assim como um relógio que marca os dias de separação – até a minha visita eram 72 anos, 4 meses, 4 dias, 12 horas, 45 minutos e 54 segundos. Assim capitei em mente. É como se o tempo parasse. Esse monumento foi presente de um artista alemão, que também contou no relógio ao lado o tempo de separação da Alemanha: 41 anos, 4 meses e 11 dias. Esse sim, congelado.

Placas por todos os lados indicam a proximidade com a Coreia do Norte. E é possível obter um carimbo que indica que seu tíquete está válido para Pyongyang. Ali comprei um vinho produzido no norte, mas acho que nunca vou saber se foi realmente produzido do lado de lá da fronteira.

Do lado de fora da estação, porém, algo me chama de volta para o mundo real – ou para aquilo que nós acostumamos a chamar de real. Seul, o império capitalista da Ásia, logo ali, nos abre caminho. Ir embora foi como viver um pedaço de uma história não esquecida e que todos os dias dá sinais de que precisa ser urgentemente reescrita.

Até porque, a Guerra da Coreia, que matou milhões de pessoas, terminou em um armistício, como eu disse, e não em um tratado de paz. Por esta razão, os dois países ainda estão tecnicamente em guerra.

Uma guerra difícil de explicar com palavras, mas de consequências facilmente percebidas naquele local bucólico e sombrio, onde se ouve mais o barulho de pássaros do que se sente a presença de vida humana.

Elton Pacheco é jornalista, formado pela Universidade Católica de Brasília, e especialista em Comunicação Organizacional. Passou por agências, fundaçãoes, conselhos de classe e revistas corporativas, alem do Governo de Brasília e redações. Já contribuiu com os jornais Valor Ecônomico, Correio Braziliense, Jornal da Comunidade e Revista Prazeres da Mesa. Atualmente, estuda História e é assessor diplomático em organismo internacional. Twitter: @eltonpacheco