Entrevista com Rafael Gontijo, membro do comitê de seleção do German Chancellor Fellowship no Brasil

O advogado Rafael Gontijo é consultor da frente parlamentar BRICS do Congresso Nacional e membro do comitê de seleção do German Chancellor Fellowship no Brasil.

Ele concedeu entrevista à jornalista Fabiana Ceyhan, onde fala sobre seu trabalho e o funcionamento do programa alemão de bolsas de estudo German Chancellor Fellowship.

O que é o German Chancellor Fellowship?

Antes de tudo, gostaria de agradecer a você, Fabiana, pela gentileza de conceder o espaço do Brasília in foco, que é referência absoluta na cobertura jornalística de temas atinentes às relações internacionais, para que possamos divulgar o German Chancellor Fellowship. 

Trata-se de um programa do governo federal da Alemanha, promovido pela fundação Alexander von Humboldt, voltado atualmente para Brasil, China, Índia, África do Sul e Estados Unidos, que possibilita o desenvolvimento de relevantes projetos em território alemão, por líderes desses países. 

O programa é vinculado à figura do Chanceler Federal da Alemanha (cargo atualmente ocupado por Olaf Scholz), sendo que o Chanceler recebe os bolsistas uma vez por ano, em cerimônia realizada em Berlim. O programa foca bastante nas habilidades de liderança. Considero que isso seja um tremendo diferencial em relação a outros programas.

Como se dá o apoio financeiro aos fellows durante o período na Alemanha?

Existem três faixas de apoio financeiro mensal: 2,000 euros, 2,300 euros e 2,600 euros. O comitê de seleção é responsável por definir em qual faixa cada bolsista será enquadrado, considerando critérios como qualificação e potencial de liderança.

Quais são os requisitos do programa?

O candidato deve conseguir que uma instituição sediada na Alemanha, pública ou privada, atue como parceira do projeto que o candidato pretende desenvolver, o que chamamos de host institution (instituição anfitriã) e que consiga uma pessoa para ser a mentora do projeto. Além disso, o programa exige a apresentação de um projeto de pesquisa (relevância do tema, objetivos do projeto, metodologia e etc), duas cartas de recomendação, prova de fluência em inglês ou alemão, já que o projeto será desenvolvido em um desses idiomas. O candidato precisa possuir ao menos um diploma de graduação. Em relação a esse tópico, existe um requisito temporal: o candidato deve ter obtido o seu primeiro diploma a menos de 12 anos, sendo que a data de referência para a próxima turma é o dia 1 de outubro de 2024. É importante ressaltar que o programa contempla apenas pessoas que possuam ao menos uma das nacionalidades dos países mencionados.

As inscrições para 2023 já estão abertas?

Sim. O prazo para o envio das candidaturas tem início em março e se encerra no dia 15 de outubro de cada ano.

Quantos candidatos são escolhidos anualmente?

Cada um dos cinco países (Brasil, China, Índia, África do Sul e EUA) pode ter até dez candidatos selecionados, cinquenta ao todo. Na minha turma, entre os bolsistas brasileiros, aconteceu algo curioso: nove mulheres e eu fomos selecionados.

Qual é sua dica para os brasileiros interessados?

Eu acredito muito em planejamento, Fabiana. Então, se empenhem para cumprir todos os requisitos do programa com a máxima antecedência. Acredito que o maior desafio seja conseguir o apoio de uma instituição ao projeto. Reitero que a instituição necessita estar sediada na Alemanha.

Quais são os temas dos projetos que costumam ser selecionados?

Eu sempre recomendo que o projeto aborde questões contemporâneas relevantes. Projeto bom é aquele que pretende apresentar soluções que farão a diferença para as pessoas. A aplicabilidade do projeto é o que mais desperta meu interesse. Como o setor industrial de um país pode se tornar mais competitivo globalmente? Como conciliar sustentabilidade ambiental e crescimento econômico? Como tornar o sistema político mais transparente e confiável para a população? Como a tecnologia está impactando a dinâmica do mercado de trabalho? Quais são os melhores modelos de financiamento para as pequenas e médias empresas? Como promover um ecossistema propício à inovação nas empresas? São perguntas assim que eu gostaria que fossem endereçadas.

Como você, ex-bolsista, se tornou membro do comitê de seleção do German Chancellor Fellowship?

Isso é motivo de muito orgulho. Fui bolsista (2018/19) do programa. No fim do ano passado, a fundação Alexander von Humboldt, que abriga o German Chancellor Fellowship, me convidou para integrar o comitê que escolhe os candidatos brasileiros que se tornarão bolsistas. No comitê de seleção do Brasil, sou o mais jovem, o único ex-bolsista e o único a não possuir a nacionalidade alemã.

Quem foi o seu mentor e qual foi a instituição anfitriã do projeto que você desenvolveu na Alemanha?

O meu mentor foi o Prof. Dr. Werner Weidenfeld, prestigiado cientista político alemão, que idealizou o German Chancellor Fellowship, quando era conselheiro do Chanceler Helmut Kohl. Foi uma honra ter o criador do programa como meu mentor. O professor é o líder do Centro de Pesquisa de Política Aplicada, que foi a minha instituição anfitriã. O centro é vinculado à Universidade de Munique (Ludwig-Maximilians-Universität).

Qual dica específica você daria para quem deseja ter uma carreira exitosa?

Essa pergunta é bem interessante. Vou focar em algo que considero essencial. Desenvolvam a capacidade de diagnosticar problemas, mas não esqueçam que líderes de verdade são aqueles que elaboram e apresentam soluções.

Rafael Gontijo, em Salzburgo, representando o Brasil na reunião anual (2019) da Academia Europeia de Ciências e Artes. Prof. Dr. Werner Weidenfeld (à esquerda) e Prof. Dr. Felix Unger, então Presidente da instituição (à direita).
Rafael Gontijo sendo recebido pela então Chanceler da Alemanha, Angela Merkel, juntamente com os demais bolsistas da turma 2018/19 do German Chancellor Fellowship.
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Fabiana Ceyhan

Fabiana Ceyhan

Jornalista por formação, Professora de Inglês (TEFL, Teaching English as a Foreigner Language). Estudou Media Studies na Goldsmiths University Of London e tem vasta experiência como Jornalista da área internacional, tradutora e professora de Inglês. Poliglota, já acompanhou a visita de vários presidentes estrangeiros ao Brasil. Morou e trabalhou 15 anos fora do país.