Artigo – Quando jejuamos juntos – Por Qais Shqair

Artigo do Embaixador Qais Shqair, Chefe da Missão da Liga Árabe no Brasil

Como sempre acontece, cristãos do mundo todo jejuaram na Páscoa no último dia 4 de abril, no calendário gregoriano. Já na liturgia ortodoxa, a Páscoa teve lugar no segundo dia de maio. Foi a vontade de Deus que, neste ano, o jejum cristão coincidisse com o jejum de mais de um bilhão e meio de muçulmanos no mês sagrado do Ramadã, que começou no dia 13 de abril.

Esta feliz coincidência é uma oportunidade para refletirmos sobre nossas semelhanças, sem nos esquecermos de nossas diferenças. Todos nós, cristãos e muçulmanos, jejuamos em obediência a Deus. Mesmo que o jejum seja praticado de maneira diferente, o propósito é o mesmo: a adoração a um Deus único, o despojamento e o triunfo do homem sobre os instintos. Assim, o corpo transcende na obediência ao Criador, desenhando uma pintura humana em que seus sentimentos se elevam a espaços ilimitados abraçando o céu, em submissão Àquele que criou o firmamento e·a terra. E também em humildade, criando condições para que possamos compartilhar momentos de alegria e tristeza e assim nos aproximarmos uns dos outros, reforçando nossos valores únicos.

Não é apenas o jejum que une a humanidade e em particular os seguidores das três religiões monoteístas. Os Dez Mandamentos provavelmente resumem muitos de nossos valores humanos compartilhados: mandamentos como o de não matar, não mentir e não roubar precederam em milhares de anos a Declaração Universal dos Direitos Humanos, por exemplo.

Quanto às divergências, há ainda muita incompreensão sobre o que é ser diferente e isto alimenta justificativas para dissensões e conflitos. A vontade de Deus, contudo, enxerga nossas diferenças a partir de sua sabedoria suprema pela qual somos estimulados a nos conhecermos melhor e desafiados a aceitarmos nossas diferenças. Isto engrandece a alma e o refinamento do espírito, estimulando até mesmo vocações eminentemente humanas como as ciências e as artes.

Imagine se os seres humanos em nosso universo infinito, na terra, no céu e no mar, fossem todos iguais: uma única religião, uma mesma raça, uma única civilização e cultura, o mesmo idioma, o mesmo costumes e tradições. Imagine que nada distinguisse uma pessoa da outra: todos iguais, como edições de um mesmo livro, nenhuma saliência, nenhum detalhe diferente, um modelo único e um ritmo de vida uniforme. Seria isto aceitável? Imagine que ninguém indagasse ao outro sobre sua identidade ou sua cultura. Todos ouvindo a mesma música, sem criatividade, sem incentivo ao conhecimento. Imagine uma aceitação inquestionável da realidade, já que não haveria nada diferente para se conhecer, pois tudo já seria sabido, todos de comportamento, cores e tamanhos uniformes.

A aceitação de nossas diferenças, com certeza, requer a aceitação do outro tal como ele é: sua religião, sua raça, a cor de sua pele, sua cultura e todo o corolário que dela advém. Uma vez que aceitemos nossas diferenças não há como impor aos outros nossos valores, nossa religião, doutrina, cultura, costumes e tradições. Tudo isso é sagrado e inviolável. Esta é a grandeza da criação divina e esta é a meta que Deus espera que alcancemos.

Não viemos ao mundo apenas para comer e beber, ou para nos divertir e brincar. Há um objetivo mais elevado do que esse. Embora os prazeres da vida sejam um direito de cada um de nós, e eles são muitos e variados, nossa vinda à terra está associada à assunção de responsabilidades, ao crescimento espiritual, à adoração ao Criador e à contemplação e agradecimento pela grandeza que é Sua criação.

Em outras palavras, para que nossas diferenças não levem a conflitos temos de trilhar o caminho do conhecimento, seja ele o conhecimento espiritual ou científico. E o diálogo construtivo e propositivo é a ferramenta que devemos usar para alcançarmos o conhecimento. Por meio do conhecimento, preservamos o outro, em vez de eliminá-lo; convidamos ao diálogo, em vez de intimidá-lo; admiramos o camin􀀑o que optou por seguir, em vez de obrigá-lo a seguir um caminho que não é o seu; respeitamos sua lei, em vez de forçá-lo a seguir outra que não é a sua; oferecemos-lhe opções em vez de deixá-lo sem alternativas. É a partir deste ponto que o extremismo e o radicalismo religioso passam a ser rejeitados em todas as suas formas: são concepções que não têm lugar entre os que procuram a evolução da terra e que tencionam espalhar o amor, matéria prima que foi e continua sendo a religião dos profetas e mensageiros, e o propósito dos sábios ao longo dos tempos.

Dessa forma, jejuamos juntos para lembrar a sabedoria de Deus ao impor o jejum àqueles que acreditam Nele. Jejuamos para saber que somos portadores de uma única mensagem. Era e continua sendo a intenção de Nosso Senhor espalhar amor, bondade e paz na terra pelas nossas mãos. Jejuamos e vemos – infelizmente – que a vontade de Deus é distorcida por muitos daqueles que não carregam a mensagem, mas sim uma pedra na qual Caim matou Abel, uma espada, um rifle, e armas pesadas convencionais, e não convencionais, nuclear, química, e armas eletrônicas, e o que está por vir é pior e mais doloroso.

Apesar disso, jejuamos, e não fatigaremos em clamar por harmonia e paz até chegar o dia em que todos haveremos de perceber que não há razão para discordância e conflitos. Até percebermos que ação de almas perdidas e o sangue derramado por elas, tal como a absurda cena de um crime, tira de nós a característica de humanidade a que Deus nos honrou dentre todas outras criaturas.

Jejuamos juntos. Vamos nos abster não apenas de comida, mas de desentendimentos, contendas e brigas. Assim como nosso corpo clama por comida e bebida, nosso espírito clama para que controlemos nossos instintos. Nosso espírito clama por paz.A