Uma canção comum para a humanidade: O Hino da Terra por Abhay K.( Poeta e Diplomata)

Uma canção comum para a humanidade: a busca por um Hino da Terra

Abhay K. Poeta e Diplomata que está em missão no Brasil pela embaixada da India, relata através deste artigo poético  os passos para a criação do Hino da Terra, que foi traduzido em mais de 30 línguas inclusive o português.

 

 

 

Noor, doze anos, nasceu em um campo de refugiados, de pais que foram removidos de seu país. Ela se sente triste por não ter um hino nacional para cantar como qualquer outra criança que canta seus respectivos hinos com grande fervor. O número exato de apátridas ao redor do mundo é desconhecido, no entanto a ACNUR estima que pelo menos 10 milhões de pessoas –  das quais um terço é composto por crianças, tem o planeta como sua única casa, e não são aptas a pertencer a nenhum país. Noor sonha com uma música comum para a humanidade um dia, um hino comum que possa ser cantado por todas crianças, não importa de onde venham ou onde estão.

Lorena tem oito anos, viveu em três continentes. Sua mãe é mexicana e seu pai alemão. Constantemente ela fica perplexa quando sua mãe canta um hino nacional e seu pai outro. Ela não se sente confortável ao cantar nenhum dos dois. Quando ela pergunta aos seus pais porquê eles três não podem cantar um mesmo hino pelo planeta, seus pais não tem uma resposta. Eles não conseguem explicar, por quê times de football, universidades e até escolas tem seus próprios hinos e a Terra não tem o seu?

Julia tem vinte e oito anos e passou maior parte de sua vida na Europa. Em um post recente no Facebook, ela escreveu: “A Terra é minha casa”. Curioso, perguntei por que ela havia escrito aquilo. Ela me disse: “A ideia de identidades nacionais parece um tanto antiquada na era da Internet e da conectividade global. A Terra é minha casa”. Um grande número de jovens que pertencem à geração da Internet se sentem como Julia e expressam seus sentimentos nas mídias sociais com expressões como essa. Gerações emergentes de cidadãos globais também se sentem desconfortáveis com a ideia de fronteiras nacionais. Eles estão buscando novas maneiras de pertencer a um orbe comum, articulando relações alternativas com o mundo, com novos símbolos, novas canções e novos idiomas.

Levando em consideração as aspirações e ideais de um grupo emergente de cidadãos globais, Shashi Tharoor disse: – “Uma consciência global certamente começou a emergir. Para explorar essa consciência nascente e dar-lhe forma e foco, precisamos estabelecer uma linguagem comum. e ícones comuns. Com o tempo, então, as gerações emergentes de cidadãos globais se uniriam em torno desses, na percepção de sua dívida e no pagamento de tributo ao planeta que nos sustenta a todos.”

O Dia da Terra é um grande passo nessa direção. É uma iniciativa única apoiada por mais de um bilhão de pessoas de 192 países; uma celebração da beleza e diversidade do nosso planeta, um chamado para preservá-lo. É uma iniciativa que encontra ressonância nos antigos textos filosóficos da Índia, Vedas e Upanishadas – “Vasudhaiva Kutumbakam”, que significa “o mundo inteiro é uma família”. Parafraseando Kailash Satyarthi, “Vedas – o primeiro livro do conhecimento universal e sabedoria diz ‘Bhumi Mata Putroaham’ – que significa ‘a Terra é minha mãe, eu sou seu filho.’ Esta é uma das essências da antiga filosofia indiana. Todo esforço para proteger e respeitar a mãe terra é um esforço para proteger a nós mesmos e às futuras gerações.”

Ainda assim, nosso planeta está sob forte pressão das mudanças climáticas provocadas pela humanidade; uma crise ambiental está nos encarando; a poluição do plástico está afetando nossas rotinas, achando caminho até nossa comida; nossos oceanos têm ilhas flutuantes formadas por trilhões de toneladas de plástico.

 

Para destacar essa preocupação, a Rede do Dia da Terra global comemorou o Dia da Terra em 2018 exortando as pessoas a reduzirem o consumo de plástico visando um mundo livre de plástico no longo prazo. A fim de proteger nossa saúde, devemos começar a pensar em nosso planeta em tudo que fazemos.

 

O Dia da Terra foi criado em 22 de abril de 1970, quase meio século atrás, nos Estados Unidos, e deu início ao movimento ambientalista ao redor do mundo. No Dia da Terra, todos os anos, no dia 22 de abril, as pessoas correm para pesquisar sobre o hino do Dia da Terra no Google. Esta busca é repetida no Dia Mundial do Meio Ambiente em 5 de junho todo os anos, no Dia de Equinócio da Terra, em 20 de março, no Dia Mundial das Florestas, em 21 de março, no Dia Mundial da Água, em 22 de março, entre outros dias.

 

Milhares de cidades participam da celebração da Hora do Planeta todos os anos, que começou em 2007 mas já se tornou o maior movimento popular ambientalista do mundo. Esses eventos são celebrados com entusiasmo pelo mundo por escolas, faculdades, ministérios, ONGs nacionais e internacionais e pela Organização das Nações Unidas. Mas não há ainda uma música comum para conectar todos esses eventos.

 

Estes são apenas alguns exemplos da necessidade crescente de um hino comum para a humanidade, para nosso planeta. Considerando o fato de que as Nações Unidas não tem um hino próprio, que nem todas as nações são membro e que existe um grande número de apátridas, seria de grande valia para a  Assembléia Geral das Nações Unidas a adoção de um hino comum para o nosso planeta que pertence a todos, incluindo cidadãos e apátridas. Vai trazer o sorriso para os rostos de Noor, Lorena e Julia e bilhões de pessoas que habitam o nosso planeta lado a lado de milhões de outras espécies. Sempre que o hino tocar, eles imaginarão nossa linda pérola azul voando pelo espaço e farão uma reverência silenciosa em prol dela, a fim de protegê-la e preservá-la.

 

Abhay K. é um premiado poeta. Ele escreveu o Hino da Terra em 2008. As visões são dele mesmo.

 

Jornalista por formação, Professora de Inglês (TEFL, Teaching English as a Foreigner Language). Estudou Media Studies na Goldsmiths University Of London e tem vasta experiência como Jornalista da área internacional, tradutora e professora de Inglês. Poliglota, já acompanhou a visita de vários presidentes estrangeiros ao Brasil. Morou e trabalhou 15 anos fora do país.