Entrevista com a Italiana Chiara Alessi – Apoio Embaixada da Itália no Brasil – Por Fabiana Ceyhan

Chiara Alessi
Crítica, especialista em design Chiara Alessi, jornalista, ensaísta, professora do Politécnico de Milão, curadora da última edição do “Design Museum” da Trienal de Milão. “Embaixadora” oficial do design italiano no Brasil 2019, Chiara  participou  da turnê brasileira  com a conferência “Uma viagem pelo design italiano em dez histórias” na qual a especialista ilustrou o design italiano sob uma perspectiva interdisciplinar acompanhando o público em uma viagem através de dez histórias italianas de sucesso que tocam zonas fronteiriças entre design e outros campos do saber, como comunicação, inovação e tecnologia.

Como ela diz  “Eu nasci trinta e dois anos atrás no Lago Maggiore, que por uma boa parte está no Piemonte (região italiana a norte-este), embora poucas pessoas saibam disso. Desde então – com um longo intervalo me ocupado de outras coisas – estou lidando com design. Colaboro com as principais revistas italianas e editei várias publicações no campo do design contemporâneo, por isso tive a sorte de entrevistar alguns dos autores internacionais mais interessantes da minha geração. E o que mais se não for? Eles também são um dos poucos sobreviventes a acreditar no significado da palavra – crítica sobre design. Em janeiro de 2014, meu primeiro livro sobre o tema “After the Zero Years” foi publicado para o Laterza. O novo design italiano “.

Fabiana Ceyhan: Por favor conte pra gente o motivo da Itália ser tão famosa no mundo do design:

O design italiano pode ser entendido como uma narração que atravessa aventuras de sucesso e até de fracassos. O design italiano é um grande romance, repleto de personagens, lugares e atmosfera. É cultural, peculiar, uma criação que  passou por muitos períodos e se manteve firme, é como se tivéssemos uma identidade, temos inclusive empresas que poderiam produzir em outros países mas preferem manter suas fábricas na Itália. Fabricas familiares, mas que mantém a tradição cultural de criar, de valorizar o caráter da produção do design criativo. Uma vez  conversei com a empresa alemã  Vitra e perguntei o motivo de ainda produzirem na Itália, já que teria mesmo custo que produzir na alemanha, e ele me disse que é caro para produzir na Itália, mas a cultura particular de design  torna as pessoas capazes de distinguir pequenos detalhes e os italianos tem uma vasta experiência sobre design. Não é tudo sobre tecnologia. Os italianos são as únicas pessoas que podem dizer não quando todos podem dizer sim, e também podem dizer sim quando todos podem dizer não, então eles são pessoas confiáveis, disse o diretor da empresa.

Fabiana Ceyhan: Como é a criação na Itália hoje e quais são as diferenças que surgiram com a evolução da indústria?

Pensar em quantidade de produtos menores, com mais identidade, é mais sobre identidade do que sobre tendências , é uma forma única de combinar as coisas mais luxuosas com as mais simples e criar um ambiente agradável, Na itália é assim, uma mistura de  decoração e criatividade, a mentalidade italiana no passado era de ser útil para todos, de uma forma geral, hoje criam mais de uma forma sustentável, eu diria que para cada grupo específico.

Fabiana Ceyhan: Fale nos um pouco sobre a conexão do design do passado e do design do Futuro:

O design do passado ainda está vivo. Ainda bebemos dessas fontes, as reciclamos, as usamos como referências. Nosso presente tem dificuldades em criar uma imagem confiável e duradoura para entregar ao futuro. Buscamos experiências fortemente estetizantes, produtos capazes de proporcionar gratificação imediata, mas não conectamos eles com esse sentido durador do produto . Somos um novo tipo de sociedade, com uma quantidade absurda de informações e experiências sendo absorvidas. E, ainda assim, com nossas referências dos ícones do passado ainda vigentes.  As empresas geralmente tem mais de 300 modelos diferentes de produtos, mas são aqueles vinte mais conhecidos   que realmente  vendem mais .Nem todos os momentos são favoráveis ​​para o nascimento de ícones. Estamos tão  enraizados em nosso próprio tempo que somos incapazes de nos distanciar dele, incapazes de alcançar o desapego necessário para criar uma perspectiva a partir da qual se une presente, passado e futuro. E, em particular, na passagem de uma cultura de commodities para a digital, o design não conseguiu substituir os grandes ícones ligados aos tipos tradicionais de objetos .

 

Sobre o Brasil e Brasília:

Eu achei que no Brasil , os brasileiros tem um bom gosto em estética, e tem muita empatia, eu acho os brasileiros parecidos com os italianos neste aspecto, são pessoas calorosas . Uma empresa deve estar muito conectada com a sociedade e suas demandas, eu gosto do que o Adriano Olivetti fez, ele teve um excelente projeto com uma percepção cultural, de que a empresa tem que promover valores.Ele construiu  uma mini cidade, parecida com Brasília, é claro em uma versão muito menor, mas ali os funcionários da fábrica  poderiam viver de uma forma organizada e suprindo todas as necessidades deles.

Sobre o evento que aconteceu na Embaixada da Itália em Brasília:

Uma iniciativa do Ministério italiano das Relações Exteriores no âmbito da promoção da cultura italiana no mundo, o “Dia do Design” que lotou  a casa, evidencia o papel do design Made in Italy e sua função de “embaixador” da cultura material e imaterial da Itália. O evento foi  coordenado no Brasil pela Embaixada da Itália, e organizado pela rede diplomático-consular e pelos Institutos Italianos de Cultura.

Depois do sucesso das edições passadas, com o envolvimento de mais de 200 especialistas italianos de design – escolhidos entre designers, artistas, curadores, arquitetos, acadêmicos e jornalistas – com cerca de 300 iniciativas em mais de 200 cidades no mundo, a edição 2019 do “Dia do Design Italiano” será dedicada à temática do “Design e Cidade do Futuro”, com particular atenção à “cultura do projeto na Itália. A iniciativa  também foi uma ocasião para operadores do setor (designers, universidades, empreendedores) terem oportunidades de encontro com instituições italianas”.

“Design e indústria criativa constituem dois setores de ponta da economia e da cultura italiana; a eles é associada frequentemente a imagem da Itália no exterior – afirma o Embaixador da Itália no Brasil, Antonio Bernardini. “Temos a satisfação de poder realizar, em várias cidades brasileiras, esse evento que, com certeza, constituirá uma ocasião preciosa para reforçar o diálogo e estimular a troca de experiências entre especialistas do design de ambos os países”.

 

Jornalista por formação, Professora de Inglês (TEFL, Teaching English as a Foreigner Language). Estudou Media Studies na Goldsmiths University Of London e tem vasta experiência como Jornalista da área internacional, tradutora e professora de Inglês. Poliglota, já acompanhou a visita de vários presidentes estrangeiros ao Brasil. Morou e trabalhou 15 anos fora do país.