Diplomatas brasileiras defendem paridade de gênero e mais diversidade no Itamaraty

Entrevista com Irene Vida Gala, presidente da AMDB

Uma das principais vozes na luta por mais espaço para mulheres no Ministério das Relações Exteriores, a embaixadora Irene Vida Gala está à frente da Associação das Mulheres Diplomatas Brasileiras (AMDB).

Com uma trajetória de quase quatro décadas no MRE, Gala é ministra de primeira classe, o mais alto que um diplomata pode alcançar na carreira. Atualmente ela é subchefe do escritório de representação do Itamaraty em São Paulo. Já passou pelas missões diplomáticas do Brasil em Portugal, Itália, Estados Unidos, Zâmbia, Guiné-Bissau, Angola e África do Sul. Foi embaixadora do Brasil em Gana entre 2011 e 2017.

Criada em janeiro de 2023, a Associação surgiu no contexto de uma década do movimento de mulheres diplomatas brasileiras. O grupo faz parte de um fenômeno internacional de organizações de mulheres na diplomacia. Desde o seu surgimento, a AMDB apresenta publicamente demandas para o fim da desigualdade de gênero da carreira diplomática no Brasil. Ao mesmo tempo, defende a diversidade no Itamaraty e frequentemente se posiciona quando novos embaixadores são indicados.

A presidente da AMDB reconhece que houve alguns avanços no governo Lula, mas acredita que as mudanças necessárias ainda levarão tempo e muitas precisam estar em forma de lei. Nessa entrevista, analisou a temática de gênero nas relações internacionais, falou sobre a atuação da AMDB e explicou outras bandeiras da Associação que preside, como uma maior diversidade racial nos quadros do MRE.

Embaixadora Irene, como surgiu a AMDB e como ela vem se desenvolvendo ao longo dos anos? Embora a Associação seja recente, sua luta é antiga na promoção da igualdade no Ministério das Relações Exteriores.

A associação foi criada em janeiro de 2023. Ela é fruto de uma história que começa dez anos atrás, com um grupo de mulheres diplomatas brasileiras que se organizavam em uma plataforma, favorecida pelos contatos via internet. Era um mecanismo bastante fluido de diálogo e foi eficaz para começar a produzir, entre as diplomatas, uma consciência de que tínhamos uma agenda comum. No início deste ano, com a vitória do presidente Lula, houve a decisão, dentro do grupo, de criar a associação das mulheres. Nosso grupo reunia um terço das mulheres diplomatas. Após a criação oficial da Associação, ela cresceu bastante e hoje já reunimos mais de dois terços das mulheres diplomatas na ativa.

A AMDB se formaliza, portanto, quando o movimento da consciência já está bastante maduro no seio das diplomatas brasileiras. A gente tinha o entendimento que podíamos nos organizar como sociedade civil, formando uma associação, com CNPJ, com propósitos declarados e estatutos.

O principal objetivo da ADMB é a criação de um Itamaraty mais igualitário e representativo. Diante disso, quais medidas concretas a Associação propões para incentivar a participação e a progressão de mulheres na carreira diplomática?

De fato, nossa proposta é criar um Itamaraty mais igualitário e, sobretudo, mais inclusivo. Porém, trata-se de uma meta de médio para longo prazo. É bastante difícil imaginar que possamos, no espaço de um ou dois anos, criar essa instituição que a gente espera.

A AMDB já vem trabalhando, contudo, para tornar o MRE um espaço mais igualitário. Nosso objetivo número um é criar a paridade de gênero no Itamaraty. Estamos fazendo isso, em primeiro lugar, buscando criar um espaço de diálogo com as chefias do Ministério.

O segundo objetivo é criar uma consciência entre os próprios diplomatas. Somos uma minoria, apenas 23% de mulheres na carreira diplomática do MRE. Precisamos criar essa consciência no conjunto dos diplomatas, incluindo os outros 77% de homens, de que deve haver um espaço ampliado para a mulher dentro do Itamaraty.

Depois, precisamos criar essa consciência na sociedade como um todo, nas autoridades, porque a nossa pauta tem um impacto grande. O Itamaraty é um órgão importante, que serve de referência dentro da administração pública. Por isso, o trabalho de conscientização e de informação ou, como a gente diz, de letramento, é bastante importante.

De uma forma muito objetiva temos adotado uma ‘política de fases’. Estamos atuando desde que a AMDB surgiu, há cerca de nove meses. Trabalhamos muito diretamente para conseguir ampliar a presença de mulheres nas promoções que ocorreram nesse período, no sistema que temos de pré-promoção, chamado quadro de acesso.

Também temos feito uma campanha ampla para incluir mais mulheres nas chefias de postos diplomáticos. Então, fazemos esse diálogo internamente com a instituição e, externamente, fornecemos informações sobre a existência, sobre a situação de mulheres dentro do Itamaraty. Afinal, sabemos que o Itamaraty não é uma instituição associada com a imagem de mulheres. Logo, temos que trabalhar muito nisso. Acredito que temos feito um trabalho bastante positivo este ano e conseguimos grande repercussão sobre a nossa existência e a pauta da AMDB.

A AMDB enfatiza a importância do conceito da interseccionalidade, que reconhece que as mulheres não formam um grupo homogêneo. Nessa ótica, quais são os desafios enfrentados pelas mulheres diplomatas em suas carreiras, especialmente as que pertencem a grupos minoritários, e quais estratégias a AMDB está adotando para superá-los?

A interseccionalidade é, para nós, a própria essência da nossa existência. Somos diversas, como mulheres que estão na carreira diplomática. Somos diversas, seja do ponto de vista de procedência geográfica, seja do meio econômico de onde cada uma vem. Também existe a questão de raça. Temos mulheres negras no Itamaraty e, dentro da nossa associação, há um grupo de mulheres negras que lança seu próprio olhar sobre todas as nossas pautas a partir da questão racial. Para nós, da AMDB, a interseccionalidade é o apelo para a inclusão, por exemplo, de indígenas. Nós ainda não temos nenhum indígena, seja homem ou mulher no Itamaraty.

A nossa interseccionalidade também acaba produzindo um impacto na divulgação da carreira diplomática em todo Brasil. No concurso deste ano para ingresso na carreira diplomática, o Instituto Rio Branco tomou uma iniciativa muito valiosa de fazer uma propaganda intensa em todas as regiões e estados do Brasil. Destaco, por exemplo, na Região Norte, pois temos poucos diplomatas vindos de lá. Esse trabalho do Instituto é fruto de uma demanda nossa, de uma sugestão que a direção do Rio Branco acolheu com grande empenho e realizou com maestria.

Várias colegas nossas, associadas da AMDB, têm também apoiado a Mentoria Mônica de Menezes, que é voltada para candidatos negros, sejam homens ou mulheres. Embora sejamos um grupo de mulheres, entendemos que a diversidade incluirá também homens indígenas e negros.

É importante entender que a perspectiva das mulheres é de inclusão daqueles que, até hoje, não estão presentes na história da diplomacia. Nós, como mulheres, somos maioria nesse grupo de excluídos dentro do Itamaraty, que totalizam menos de um quarto do corpo de funcionários de carreira. No entanto, não temos a visibilidade que merecemos e queremos ocupar esses espaços. Por isso, nossa Associação está disposta a capitanear esse esforço, juntamente com outras associações que vão se formando, como a associação de pessoas com deficiência, o grupo LGBTQIA+ e o grupo Diplomacia e Negritude. Queremos sempre fazer um trabalho inclusivo, pois a proposta das mulheres não é apenas a representatividade feminina mas, sobretudo, a inclusão e o enriquecimento do Itamaraty por intermédio da diversidade.

Que dados ou estatísticas ilustram a disparidade de gênero e racial no Itamaraty, destacando as áreas em que ainda há desafios a serem superados?

Os desafios enfrentados pelas mulheres diplomatas são de acesso a posições destacadas, acesso a chefias e acesso ao processo decisório. Historicamente, as mulheres sempre ficaram afastadas desses processos.
É bastante nítido o desafio de alcançar representatividade no processo decisório dentro do Itamaraty, na agenda de política externa. Isso é um problema para todas as mulheres. As mulheres negras, em número bastante menor, também vivem a mesma condição. Elas decidiram se autoidentificar para permitir que a instituição faça uma política afirmativa com relação a negros. A AMDB apoia isso fortemente.

Outros desafios são os afetos à própria dupla jornada de trabalho. Por exemplo, o horário de trabalho do Itamaraty não é nada razoável para uma mãe de família ou para aquelas que tem de fazer a gestão da casa. No Itamaraty se trabalha das nove até uma da tarde e das três às sete. Duas horas de almoço para quê? As mulheres querem mudar isso. Depois das sete horas, às vezes você vai despachar até após as oito.

Um fato que estamos observando e precisamos estudar como reagir é a possibilidade de trabalho híbrido ou de redução da jornada de trabalho. São as mulheres que estão pedindo com mais frequência a redução da jornada de trabalho, que é pouco favorável ao trabalho das mulheres. Se a mulher acaba tendo de abrir mão de algum cargo de chefia porque precisa cuidar da família e se acaba sendo penalizada por isso, esse é um tema pelo qual precisamos lutar – as condições de trabalho.

Outro exemplo que acho relevante é o dos currículos e a maternidade. O tempo da maternidade não consta, como se por seis meses a mulher tivesse simplesmente parado de trabalhar, tivesse deixado de cumprir um processo necessário de participação no trabalho. Há o entendimento de que a mulher deixou de participar, no caso do Itamaraty, no esforço de trabalho coletivo. Mas as mulheres precisam ser mães. Então, é preciso haver a compreensão de que a maternidade não pode determinar nenhum tipo de punição ou constrangimento à carreira das mulheres. Esse é ainda um grande obstáculo, e precisamos fazer entender que a maternidade não pode ser penalizada. Isso é muito importante para nós.

Esperamos poder superar esses e outros desafios, buscando minimizar os problemas mediante negociação com as chefias do Itamaraty. Ao mesmo tempo, defendemos a redução dos constrangimentos para as mulheres ascenderem profissionalmente. As questões afetas à ascensão funcional, ao teto de vidro (que impede essa ascensão) e própria maternidade não são exclusivas das mulheres diplomatas, mas de todas as mulheres que estão no Executivo. Por isso, a AMDB também busca construir redes com outras associações de mulheres, de modo que façamos uma luta coletiva por melhores condições e, então, tentar colocar isso na lei. Nós precisamos criar condições que favoreçam o trabalho da mulher dentro do Executivo Federal.

Sobre esse esforço coletivo, eu quero citar, por exemplo, a organização de um Seminário que vai ocorrer nos dias 13 e 14 de novembro, na ENAP, que será o primeiro encontro de mulheres em carreiras de estado e assemelhadas, carreiras da alta burocracia. A ideia é trazer as mulheres nessas carreiras para conversarem sobre seus desafios comuns e sobre como podemos atuar conjuntamente em benefício de todas. Queremos buscar melhores condições para as mulheres poderem participar da gestão do estado brasileiro.

Com relação a dados, as mulheres são 23,5% do quadro diplomático. Na última prova de acesso ao Instituto Rio Branco, em 2022, pela primeira vez tivemos 41% de mulheres ingressando na carreira. É uma mudança significativa, mas, ainda que nos próximos anos tenhamos sempre 40%, será preciso muito tempo para chegarmos à paridade. Por essa razão, entendemos que é preciso haver algum tipo de esforço para atrair mais mulheres e que elas possam construir essa diversidade dentro do Itamaraty, não apenas por força do vestibular, feito em regime de meritocracia.
Por exemplo, a AMDB propôs que na prova de acesso ao Itamaraty haja paridade na entrada, com 50% de vagas para mulheres e 50% de vagas para homens. Além disso, hoje já existem cotas para entrada de negros. É bastante interessante observar que no ano passado a cota de negros foi preenchida majoritariamente por mulheres.

Não sabemos exatamente qual a percentagem de negros no Itamaraty, pois este ano pela primeira vez o governo federal fez um censo em que as pessoas se autodeclaravam, e esses números ainda não foram divulgados. Existe no Itamaraty um grupo informal que se chama Diplomacia e Negritude. Eles entendem que há cerca de 5% de negros no Itamaraty.

Ainda entre os desafios, queria ainda explicar que, ao falarmos em acesso ao poder e às chefias, estamos tratando de romper o que são os vícios de um ciclo que chamamos de “homossociabilidade”. Na prática, isso significa que um chefe homem constrói um grupo de assessores homens, seus amigos e aqueles com quem compartilha seus momentos no bar, no futebol, por exemplo. São círculos de amizade, de construção de confiança, reunindo um mesmo gênero. Também as mulheres têm seus grupos, mas elas não chegam ao poder para levar as outras mulheres de seus círculos de confiança. Então, precisamos quebrar as relações de homossociabilidade atuais que fazem com que apenas os homens ocupem esses espaços de decisão e que levem mais homens consigo. No caso das mulheres, nunca estivemos em posições de destaque para poder trazer outras mulheres conosco. Quando demandamos a presença de mulheres nas chefias é também porque entendemos que essas mulheres irão trazer mais mulheres junto com elas e isso irá permitir ampliar a presença feminina nos graus superiores da carreira e nessas instâncias decisórias.

Durante uma audiência pública, perante a Comissão de Relações Exteriores do Senado, o chanceler Mauro Vieira reiterou seu “compromisso com a promoção da diversidade” no Itamaraty. Como a AMDB avalia a resposta que o Ministério das Relações Exteriores vem dando às suas propostas e esforços para promover a igualdade e a diversidade na diplomacia brasileira?

A resposta do ministro Mauro Vieira na Comissão e suas falas destacando que pela primeira vez temos uma mulher na Secretaria-Geral das Relações Exteriores são absolutamente orientadas para um diagnóstico muito melhor do que é a real condição da mulher e das desigualdades dentro do Itamaraty.

Ou seja, reconhecemos que, no diagnóstico da condição das mulheres diplomatas, houve uma evolução absolutamente notória. Em governos anteriores, nenhum ministro assumiu que havia uma desigualdade de gênero. Então essa é uma postura nova. O compromisso de fazer melhoras também é novo dessa administração.

Porém, o que vemos na vida real é que a instituição tem muita dificuldade em colocar em prática o que prega. De maneira objetiva, a instituição está se defendendo quando usa o argumento que essas são desigualdades da sociedade brasileira, como o ministro mencionou na Comissão de Relações Exteriores.

É muito mais fácil e bastante conservador responder enfatizando que existem desigualdades na sociedade brasileira e, portanto, é difícil o Itamaraty produzir resultados melhores. Não é isso que a gente quer ouvir. Queremos ouvir que, a despeito de haver uma sociedade brasileira que historicamente produz desigualdade, este governo e as pessoas que fazem parte dele agem para alterar essa lógica histórica. Enfim, o ministro tem uma fala institucional, tem uma melhora do diagnóstico sensível, e ele assume um compromisso. Mas do ponto de vista de realizações, estão absolutamente deixando a desejar.

Em sua opinião, qual a importância da representatividade de gênero e raça no campo diplomático, tanto em nível nacional quanto internacional?

Essa é uma pergunta que me parece central. A política externa e as relações internacionais são concebidas e construídas a partir de uma perspectiva de homens que historicamente participaram dessa estruturação da política internacional.

Se pensarmos na história mais recente, desde a criação dos Estados nacionais como são entendidos hoje, a história das relações internacionais é 100% construída a partir de uma perspectiva de homens que olham um problema e tentam apresentar uma solução.

Veja bem, quando pedimos, no caso específico das mulheres, por diversidade, o que desejamos propor é que esse mesmo problema, que são as condições de relacionamento entre estados, possa ser interpretado pelo olhar feminino e que as soluções apresentadas levem em conta os valores que as mulheres acreditam.

As mulheres são 50% do mundo. Participam do sistema internacional, vivenciam os efeitos dessa lógica da construção do sistema internacional, mas não participam de quase nada da elaboração desse sistema e de como são definidas as normas para decidir os rumos do mundo. O que a gente quer, basicamente, é incluir a nossa perspectiva para apresentar soluções de problemas.

Pensando ainda nessa linha da diferença das soluções apresentadas por mulheres e homens, no caso da iniciativa privada, há muitos estudos que mostram como empresas mais diversas têm resultados financeiros melhores. Quando falo em diversas, entenda-se que são aquelas com mais mulheres na chefia, mais negros, mais LGBTs. Essas empresas produzem melhores resultados na qualidade da inter-relação, da relação humana dentro da empresa, além de vantagens financeiras.

No plano da gestão pública, vemos vários programas de assistência social em que a mulher tem um papel importante. Por exemplo, no caso do Bolsa Família, quem recebe os benefícios são as mulheres, porque elas têm um outro tipo de compromisso com a gestão daqueles recursos. Vamos pensar, aplicando em termos genéricos a analogia do Bolsa Família, como um homem aplica esses recursos e como uma mulher aplica. Fazendo uma projeção, podemos pensar que a corrida armamentista é muito mais um esforço de atores masculinos do que um esforço de mulheres. Eu vejo muito mais facilidade para que as mulheres encontrem a lógica em oferecer recursos do sistema internacional para promover soluções que não sejam belicosas e armamentistas.

Há uma história interessante sobre a ativista liberiana Leymah Gbowee, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2003. A Libéria, localizado na região ocidental da África, foi um dos países que entrou num processo de guerra civil no final do século XX. As mulheres não participavam do processo de negociação da paz. A ONU estava envolvida no processo e as mulheres queriam participar daquele processo de pacificação nacional, mas não tinham assento à mesa. Então, mesmo sem poder sentar oficialmente para negociar, Gbowee capitaneou esforços de mulheres e conduziu algumas iniciativas. Um dos processos foi uma ‘greve de sexo’. Ela conseguiu reunir quase a totalidade das mulheres liberianas em torno de uma greve sexual. Elas diziam: “enquanto não houver paz nesse país, não vamos manter relações sexuais com os nossos parceiros, pois são os homens que estão participando da guerra”. Outra iniciativa dela foi levar todas as mulheres que conseguiu reunir para as portas do palácio onde estava sendo negociada a paz e fazer um exercício que chamamos de sitting. As mulheres ficaram sentadas nas portas do local e não deixavam nada nem ninguém entrar nem sair. Elas diziam: “ou vocês encontram um caminho para negociar a paz ou vão morrer de fome de sede aí dentro, sem poder sair”.

Esses dois esforços ajudaram-na a conquistar um Prêmio Nobel da Paz. Cito esses exemplos para dizer que um problema pode ser olhado e avaliado por uma perspectiva masculina, por uma perspectiva feminina, por uma perspectiva negra, por uma perspectiva de uma pessoa idosa. As soluções encontradas serão distintas. Então, queremos contribuir com soluções para um mundo que está cheio de injustiças. As mulheres querem entrar nesses processos e participar da construção de um mundo melhor, com regras que entendemos ser mais eficazes.

Tive uma experiência bem marcante no início da minha carreira, quando era segunda secretária em Angola, durante a guerra vivida no país. Foi em Angola onde comecei a ter essa percepção da importância da discussão das questões de gênero na agenda internacional. Ouvia daquelas mulheres, que também não participavam do processo de paz, o seguinte: “a mulher não manda o seu filho ou o seu marido para a guerra”.

Além de propor medidas formais, quais outras estratégias a AMDB está adotando para conscientizar a sociedade civil e a opinião pública sobre a necessidade de promoção da igualdade de gênero e diversidade racial no Itamaraty?

Sobre a nossa estratégia de ação, além do diálogo formal, estamos investindo muito em letramento, em informação, em publicidade, em divulgação da presença das mulheres. Para nós isso é importante, em primeiro lugar, para atrair mais mulheres para a carreira. Nós entendemos que o fato de ter havido 41% de mulheres aprovadas no exame de acesso à carreira diplomática em 2022 já foi resultado dessa nossa política de tentar mostrar que o Itamaraty tem “cara de mulher”. Mulheres podem ser diplomatas e já são. Nós precisamos ter mais mulheres na carreira diplomática.

Então, a nossa primeira ação é acolher, trazer mais mulheres, fazer com que jovens estudantes de áreas afins vejam que há mulheres no Itamaraty e que também desejem ser diplomata. Esse é o efeito número um da nossa política de divulgação. Em segundo lugar, estamos investindo muito também nesse diálogo para que as pessoas possam entender que não se trata de apenas ter mulher porque somos a metade da população. É ter mulher porque a diversidade nos oferece novas soluções para velhos problemas. É uma alternativa, uma chance de buscar novas condições de gestão dos temas da política externa.

Para fazer esse trabalho, vou citar duas iniciativas que estamos muito felizes por ter patrocinando. Como Associação das Mulheres Diplomatas Brasileiras, conseguimos apoios financeiros para financiar um observatório de política externa feminista que nós chamamos, na verdade, de Observatório de Política Externa Inclusiva. Nesse observatório temos atualmente três pesquisadoras trabalhando para discutir com a sociedade civil, com mulheres de outros países e com as próprias diplomatas brasileiras o que seria uma política externa com esse viés feminista. Para nós é bastante importante refletir sobre o tema, já que o governo brasileiro ainda não se dedica a refletir sobre quais seriam os contornos de uma política externa inclusiva, que esteja enriquecida por essa diversidade.

Um outro projeto para o qual nós também conseguimos recursos para divulgação é o nosso podcast Mulheres no Mapa. Esse podcast é uma iniciativa única, pois ainda não existe nada igual no Brasil. São professoras, acadêmicas, estudiosas da área de relações internacionais e política externa, além de diplomatas, que entrevistam outras estudiosas, acadêmicas e diplomatas, falando sobre política externa e relações internacionais. Então, são as mulheres que estão organizando, pensando no sistema internacional, tomando decisões no sistema internacional, e também refletindo sobre ele. Realmente, para nós é muito importante essa visibilidade da mulher no Itamaraty.

Como a AMDB vê o papel de outros Ministérios e do Governo Federal na promoção de seus objetivos? De que forma eles podem colaborar com a Associação de maneira mais eficaz?

Sobre o governo federal, vou singularizar a Presidência da República. Nós temos absoluta confiança no presidente Lula. Em suas falas, sempre que pode, como no recente discurso que fez na ONU, ele enfatiza o compromisso dele com a promoção das mulheres, com a construção de uma sociedade mais inclusiva e mais igualitária.

Sabemos que contamos com a primeira-dama Janja. É muito bom para nós a atenção que ela dá para o tema. Ficamos felizes de saber que o presidente pode, ao longo dos seus anos de mandato, dar andamento a essa proposta. Passamos quatro anos com o ex-presidente Bolsonaro, que foi um período de trevas para nossa pauta. Foi bastante ruim tanto a posição política internacional do Brasil nas questões relativas a gênero, direitos humanos, quanto internamente para a nossa ação como diplomatas. Foram quatro anos que perdemos a capacidade de dialogar internamente com as chefias do Itamaraty sobre as condições de gênero. Então, nós pomos muita fé neste momento, muita confiança de que o governo Lula poderá nos levar bastante para a frente.

Quanto ao Ministério da Gestão e Inovação, temos uma grande aliada na ministra Esther Dweck. Ela tem um inequívoco compromisso com propostas de maior representatividade feminina. Também dos negros, em paridade com o Ministério da Igualdade Racial. O Ministério das Mulheres está acima de todas nós. A ministra Aparecida Gonçalves vai nos mostrar os caminhos, mas nós podemos ajudar o trabalho dela.

No caso da Associação das Mulheres Diplomatas Brasileiras, nós fomos a primeira associação de mulheres de carreira da alta burocracia no Brasil. Portanto, inauguramos esse nível de associativismo feminino. Isso nos faz pensar que temos uma contribuição a dar.

A AMDB trabalha com outros coletivos de mulheres que estão em outras associações de carreiras de Estado. Esse trabalho de construção de rede é absolutamente essencial. Temos de caminhar todas juntas, pois é muito difícil. Nossa pauta é bastante comum e, portanto, o melhor é juntar esforços.

Do mesmo modo, como a sociedade civil pode apoiar essas iniciativas?

Da sociedade civil nós esperamos empatia. Esperamos que reconheçam a legitimidade da nossa causa. Mas quando falamos de sociedade civil, estamos falando de 50% de mulheres. Há muitos movimentos de mulheres no setor empresarial, na academia, no Judiciário, no Legislativo, mulheres na ciência. É muito bom ver esse movimento e, portanto, da sociedade civil, esperamos a adesão à nossa causa, das mulheres diplomatas.

E temos visto que, independente de onde venham, do setor público ou privado, quando nós, mulheres, nos juntamos, temos uma conversa comum. A gente sabe aquilo que estamos todas procurando. É impressionante. É muito impactante observar que temos uma agenda comum extensa. É difícil começarmos uma conversa entre mulheres e olharmos para as diferenças. Nossa pauta comum nos une de uma maneira imediata. Portanto, queremos, nós diplomatas, ir nos somando à sociedade civil para engrossar esse movimento de mulheres por um Brasil mais inclusivo.

Qual sua avaliação sobre o anúncio do Brasil, durante a 78ª Assembleia Geral das Nações Unidas, de que adotaria voluntariamente um 18º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável, focado na igualdade racial? De que modo a adoção desse ODS poderá contribuir efetivamente para que a AMDB cumpra seu principal objetivo, que é a criação de um Itamaraty mais igualitário e com a “cara” do Brasil.

Ao lançar esse 18º ODS, o presidente Lula mostra mais uma vez a sua característica de uma liderança visionária. Quando ele, no início do seu governo, em 2003, lançou a Agenda da Fome, inovou o sistema internacional.

Quando o presidente chega à ONU em 2023 e diz que haveria um 18º ODS, que é a busca da igualdade racial, o compromisso com a igualdade racial no Brasil, ele está definitivamente exercendo sua capacidade criativa de desafiar o sistema internacional com novos temas.

É importante mencionar que o Brasil é um país de maioria da população negra, considerando pretos e pardos, e o 2º maior país de população negra no mundo depois da Nigéria. Por isso, o Brasil precisa ter um compromisso com este tema. Então o presidente Lula deve ser reconhecido não só pela sua disposição sempre de lançar novos temas necessários no sistema internacional, mas ele assume a responsabilidade que o Brasil tem, no sistema internacional, com esse tema. Isso requer coragem.

Claro, isso serve principalmente para dentro do Brasil, por nos fazer reconhecer esse desafio nacional. Pessoalmente, acho que a desigualdade é o maior desafio que o Brasil tem, e ela está pautada por critérios raciais. A desigualdade tem um veio estruturante, que são as diferenças raciais, responsáveis pela construção dessa desigualdade historicamente. Por isso, ouvi com grande satisfação Lula mencionar o 18º ODS. Acredito que foi um anúncio surpresa em seu discurso. Ele foi muito feliz e espero que a diplomacia brasileira possa continuar perseguindo esses desafios no sistema internacional. São desafios inovadores, mas também são a própria cara do compromisso do Brasil com a sua gente e com seu povo.

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Fabiana Ceyhan

Fabiana Ceyhan

Jornalista por formação, Professora de Inglês (TEFL, Teaching English as a Foreigner Language). Estudou Media Studies na Goldsmiths University Of London e tem vasta experiência como Jornalista da área internacional, tradutora e professora de Inglês. Poliglota, já acompanhou a visita de vários presidentes estrangeiros ao Brasil. Morou e trabalhou 15 anos fora do país.