Coluna-Homem-por Raul de Taunay

HOMEM

 

Sou uma célula nervosa

Um glóbulo em sangramento;

Por fora, carne garbosa,

Por dentro, luz e tormento.

 

Em verdade, sou a verdade,

O anjo enviado em piedade;

De mentira, sou a mentira

Pregada na alma sentida

 

Bebo da vida e não adoeço,

Morro de amor e não enlouqueço,

Compositor, qual ode no vento,

Sou cruz e louvor, em movimento.

 

Não passo de uma doença

Que afeta a saúde do mundo;

Não sou de pedir licença

Ao deitar o sêmen fecundo.

 

No fundo, sou efervescência,

No palco do absurdo, a potência;

De infinita inconsequência,

Sou um enigma em essência.