Brasil e mundo árabe: mais próximos do que se pensa

Embaixador Qais Shqair, chefe da Missão Permanente da Liga dos Estados Árabes no Brasil

O mundo árabe está bem mais próximo do Brasil do que se imagina. A influência abrange o idioma e a gastronomia. Essa ligação já era observada mesmo durante o período da colonização portuguesa. No Rio de Janeiro, referências sobre o islã foram descobertas nesta época. Várias expedições ao Brasil também contaram com a presença de muçulmanos com grande experiência em navegação e em ciências marítimas.

Mais recentemente, a cultura árabe recebeu forte impacto dos fluxos migratórios percebidos antes mesmo de 1850. Na primeira metade do século XX, ao término da Primeira Guerra Mundial, o Brasil tornou-se destino de imigrantes da região onde hoje se encontram Palestina, Síria, Líbano e Jordânia. As famílias árabes se fizeram presentes em áreas importantes da sociedade, assim como na política, na educação universitária, nas artes, nas ciências e no comando de grandes empresas.

A maior nação da América Latina, com 210 milhões de habitantes, abriga 6% de árabes, ou 12 milhões de pessoas. Único país lusófono das Américas, o Brasil herdou centenas de palavras originárias do idioma árabe. “Fulano”, “almofada”, “açúcar”, “enxaqueca”, “azeite” e “arroz” são alguns exemplos.

No ano passado, a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira divulgou os resultados de uma pesquisa que reforçam a influência árabe no Brasil. Dos 11,6 milhões de árabes-brasileiros, 29% são de origem libanesa, 13% da Síria, 6% do Marrocos, 5% da Palestina e 5% do Egito. Em sua maioria, os árabes que migraram para o Brasil vieram com a justificativa de “buscar uma vida melhor”. No campo da educação, eles costumam apresentar alto nível de escolaridade. Por isso, realizam tarefas de destaque no direito, na medicina, na engenharia e a frente de empresas.

Sete em cada dez membros da comunidade árabe-brasileira se envolvem com a tradição árabe, o que torna perene a cultura desses povos, ainda que ela perca força com o passar das gerações.  A gastronomia árabe, neste âmbito, tem forte peso. Em nosso país, pratos famosos, como esfiha, tabule, quibe e grão de bico, entre outros, ganharam o paladar do brasileiro. Ser árabe ou descendente de árabe é motivo de orgulho.

Segundo a pesquisa da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, 94% dos integrantes da comunidade árabe-brasileira reconhecem suas origens árabes; destes,48% dizem ser árabes. Das cinco gerações árabe-brasileiras presentes no Brasil, somente a última mostra interesse reduzido em relação à identidade cultural ou ao sentimento de integração com a história e as tradições árabes.

A mesma sondagem aponta que a comunidade árabe costuma ter mais sucesso econômico e bem-estar do que a média nacional. Em média, 76% dos membros da comunidade disseram que ajudaram a moldar a economia brasileira, com a criação de postos de trabalho e de renda.  Por sua vez, a integração dos árabes e descendentes de árabes na sociedade brasileira é cada vez mais rápida, ainda que isso seja reflexo do impacto na identidade cultural e linguística: 56% deles falam apenas o português e 24% falam o árabe.

Para o embaixador Qais Shqair, chefe da Missão Permanente da Liga dos Estados Árabes no Brasil, a promoção do ensino da língua árabe e a valorização da cultura árabe são essenciais para a preservação da herança árabe no Brasil e para o fortalecimento dos elos entre os dois povos. O diplomata defende a aposta em projetos e em ações culturais por parte do setor privado como o meio mais fácil para fortalecer a difusão da cultura árabe.

Shqair explica que isso traz benefícios ao Brasil e às nações árabes, com o fortalecimento das relações diplomáticas; e à sociedade, que ganha um vasto e extraordinário universo cultural a ser desvendado. Nesse ponto, ele entende a parceria público-privada como fundamental. 

Jornalista por formação, Professora de Inglês (TEFL, Teaching English as a Foreigner Language). Estudou Media Studies na Goldsmiths University Of London e tem vasta experiência como Jornalista da área internacional, tradutora e professora de Inglês. Poliglota, já acompanhou a visita de vários presidentes estrangeiros ao Brasil. Morou e trabalhou 15 anos fora do país.