Brasil-China e o vínculo do agronegócio- por Pedro Luíz Rodrigues

A partir da segunda metade da década de 1970, os setores agrícola e alimentar da China e do Brasil passaram, concomitantemente, por transformações de grande magnitude. De países sujeitos a frequentes situações de desabastecimentos passamos, em pouco menos de meio século, a grandes produtores de alimentos. E a cooperação bilateral vai tornar ainda mais relevantes as possibilidades que  estão à nossa espera no cenário futuro global do agronegócio.

No Brasil, a revolução agrícola tem também um nome a ser homenageado: o do ex-ministro da Agricultura (1974-1979) Alysson Paolinelli. Foi um dos fundadores da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agrícola) – uma das melhores instituições pública do País – e promotor da revolução que transformou as áreas de Cerrado no celeiro do Brasil.

Na China, as grandes mudanças ocorreram sob Deng Xiao Ping (governou o país entre 1976 e 1997), responsável pela guinada que levou à abertura controlada da economia ao capital estrangeiro, privatizações e a criação de zonas econômicas especiais. Foi o período conhecido como “Salto Adiante”, e teve na reforma da agricultura um de seus principais pilares. O sucesso dessa etapa pode ser avaliado pelo aumento da renda per-capita chinesa, que entre 1976 e 2020 passou de 190 para 10.500 mil dólares.

Paolinelli é forte candidato ao Prêmio Nobel da Paz 2021. Se lhe for concedida a homenagem, será a primeira atribuída a alguém da área de alimentos desde 1950. Quando em janeiro passado sua candidatura foi anunciada, disse, com modéstia: “ Sei que será difícil, mas sinto-me muito honrado de defender a bandeira da segurança alimentar aliada à sustentabilidade”.

Na China, a reforma do setor agrícola foi o primeiro passo de um processo geral de reformas, cujos resultados extraordinários mudaram a face do próprio país, onde em 45 anos a população urbana passou de 20% para cerca de 65% do total e 770 milhões de pessoas foram retiradas da faixa de pobreza.  O resultado foi o aumento da demanda por alimentos de maior valor, com vegetais, frutas e produtos de origem animal.

Nesse mesmo período, o Brasil deixou de ser um país importador de alimentos para tornar-se um grande exportador. No limiar da nova era, a agricultura brasileira era ainda extremamente rudimentar:  era absoluta a prevalência do trabalho braçal (apenas 2% das propriedades dispunham de máquinas agrícolas), ausentes a gestão moderna e os insumos para assegurar o aumento da produção. Faltavam no campo tecnologia e informação. Ainda em 1970, a produtividade do setor pecuário brasileiro estava entre as mais baixas do mundo.CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Entre 1975 e 2020, a produção de grãos no Brasil cresceu sete vezes, saltando de 38 milhões de toneladas para 270 milhões, enquanto a área plantada apenas dobrou. Obteve-se no período notáveis ganhos de produtividade: 346% para o trigo, 270% para o milho, soja e feijão 100%. Na pecuária os avanços foram também notáveis, com o plantel bovino duplicando no período: hoje somos o segundo principal produtor e o primeiro exportador de carne bovina. Evolução igualmente significativa se observou na avicultura e na suinocultura.

O que fez mesmo a diferença para a obtenção desses resultados foram os investimentos em educação e pesquisa agrícola, a assertividade das políticas públicas e a competência dos agricultores. O caso da soja é exemplar. Surgiu no início da década de 1960, no sul do Brasil, e se achava própria para regiões frias. Levá-la para outras regiões foi um desafio, biológico e tecnológico, enfrentado vitoriosamente com o apoio da Embrapa, que consegui que os custos com fertilizantes nitrogenados fossem reduzido com uma nova tecnologia que fixou o nitrogênio do ar nas raízes das plantas por meio de bactérias.

Mas a expansão do consumo interno nos dois países, e o contínuo aumento da população mundial e da renda, em particular nos países em desenvolvimento, apontam para um forte crescimento da demanda nas décadas a seguir, colocando para os produtores brasileiros e chineses diante de grandes desafios nas áreas da produção, logística e comércio, num ambiente de sustentabilidade.

Comércio e investimentos tornaram China e Brasil parceiros estreitamente interligados no campo do agronegócio. A China é o principal mercado de produtos agrícolas brasileiros, absorvendo cerca de um terço dessas exportações.  Os produtos agroalimentares respondem por metade do total das exportações brasileiras para a China.

O Brasil é, hoje, o principal fornecedor de alimentos para a China (cerca de 20% das importações chinesas), e ocupa o primeiro lugar nas vendas de produtos como a soja, carne bovina, aves, algodão, açúcar e celulose.

A China tornou-se, também, um investidor muito importante no agronegócio brasileiro.

Os vínculos entre os dois países, nessas áreas, delineiam potencial promissor nas áreas do comércio, investimentos, infraestrutura, inovação e sustentabilidade. Essas possibilidades são importantes diante dos desafios da segurança alimentar em um mundo onde aumentam tensões geopolíticas, ligadas ou não à pandemia.

O tema será desdobrado em artigos subsequentes.

Pedro Luiz Rodrigues foi Secretário de Imprensa da Presidência da República e Secretário de Relações Internacionais do Distrito Federal.  É jornalista e embaixador, aposentado, da carreira diplomática.
Pedro Luiz Rodrigues, diplomata e jornalista. Como diplomata serviu em Bangladesh, Washington, Assunção, Buenos Aires e Tel-Aviv. Ministro-Conselheiro em Paris. Foi embaixador na Nigéria, Benim, Níger e Chade. Foi da editoria de economia do JB e Estado de SP (do qual foi diretor em Brasília). Foi subsecretário e Secretário de Imprensa da Presidência da República (períodos Tancredo Neves, Sarney e Collor de Melo), do Ministério da Fazenda (ministros Galvêas, Marcílio Marques Moreira e Pedro Malan). Chefe de Gabinete do Ministro da Justiça José Carlos Dias. Diretor de Relações Internacionais do Senado Federal. Diretor de Comunicação da FEBRABAN. Sócio da Flecha de Lima Relações institucionais.