Artigo – RÚSSIA: RACIONALIDADE ESTRATÉGICA – Por Leila Bijos

Leila Bijos

Sene Sonco[1]

A Rússia surgiu da herança e dos escombros da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), representante da ideologia socialista, e durante o século XX se tornou uma das maiores nações do mundo, orbitando em torno de 15 repúblicas. Em 1991, todas as repúblicas se tornaram independentes e a Federação da Rússia, após grave crise econômica, aceitou a mudança de uma economia centralizada e do estado unitário para uma economia de mercado e sociedade democrática de direito, aduzindo mostras de uma estabilidade há muito esperada para o país.

As primeiras ocorrências de mudanças estruturais ocorreram a partir de 1985, com alterações administrativas, políticas e significativa recuperação econômica, manifestadas no crescimento expressivo do PIB de 6% por ano em média. Do grudo dos países exportadores de petróleo e derivados a Rússia passou do 5º para o 2º lugar no mundo e, após 18 anos de negociações entrou para a OMC. O país negociou o pagamento de sua dívida externa em 10 anos, adiantou o pagamento de juros e uma parte de sua dívida externa para o FMI, enquanto seu sistema tributário se modernizava, colocando o país numa situação fortalecida no âmbito fiscal internacional, tendo como principais características a busca da melhoria da administração tributária e a implementação de um nível comedido de tributação. Crescimento baseado nos seus próprios recursos, acordos firmados com outros países e organismos internacionais, incremento do país como um dos Estados que mais cresceram economicamente no planeta. Atualmente, a Rússia busca alcançar um novo patamar que a coloque como potência mundial, em termos de potência militar e o maior país do mundo, em extensão territorial, com a agregação da Crimeia e Ucrânia.

Vladimir Putin exerceu a presidência entre 2000 e 2008, além de ter sido primeiro-ministro em 1999 e 2000, e a segunda entre 2008 e 2012. Putin governa a Rússia desde a renúncia de Boris Iéltsin, em 1999, e é um estrategista racional, que mantém uma forte centralização, obrigando as regiões a se vergarem ao poder federal superior. Na política externa, Putin ao assumir o posto de primeiro-ministro, alcançou alta popularidade, ganhou a confiança de Yeltsin, principalmente em razão de seu comando na sangrenta guerra com a Chechênia, província russa, localizada na região do Cáucaso, de 1994 a 1996. O conflito teve cinquenta mil mortos e um acordo de paz humilhante para Boris Yeltsin. Na prática, a Chechênia conquistara sua independência.

Um mês e meio depois de Putin tomar posse como primeiro-ministro, forças russas invadiram novamente a Chechênia, o que lhe rendeu apoio popular. Apesar de outros ataques a civis na Rússia, Putin se consolidou como um líder forte na área de segurança, sendo implacável com grupos armados, visando manter a integridade territorial da Rússia, colocando um governo de sua confiança na Chechênia, recuperando a honra nacional. Putin foi reeleito em 2004, com 80% de aprovação, e um quarto dos principais quadros do governo era ocupado por ex-integrantes do serviço secreto.

Como pontos positivos, Putin cortou impostos, aumentou salários nas áreas de Saúde e Educação; estendeu benefícios sociais; e reduziu consideravelmente a pobreza. Segundo o Banco Mundial, o produto interno bruto (PIB) da Rússia avançou 6,4%, em 1999, e 10%, em 2000, mantendo uma média de 6,6% por ano, entre 2001 e 2008. Em sua primeira década no cargo, Vladimir Putin manteve relações diplomáticas positivas com os líderes ocidentais, mas políticas intervencionistas do seu governo evidenciaram a grande ambiguidade nas relações com as democracias ocidentais, por exemplo: enquanto assinava um acordo com a Alemanha para a implementação do gasoduto Nord Stream 2, Putin retomava o controle estatal da gigante de petróleo Gazprom, empresa de energia fundada em 1989, proibia eleições diretas para governadores, sem qualquer protesto de seus parceiros comerciais na Europa. No fim do segundo mandato de Putin, o partido governista ganhou facilmente a eleição de 2008.

Em 2020, Putin deu mais um passo no ajuste das regras da democracia russa, com a reforma da constituição, aprovada por quase 80% da população, dando-lhe a chance de ser reeleito e ocupar o poder até 2036. O poder veio, obviamente, não só da aceitação popular, mas também de um arriscado e violento jogo militar, no tabuleiro das potências globais, para não se falar da repressão a opositores, muitas vezes, vistos como traidores. Putin confrontou empresários, enriquecidos com as privatizações estatais, promovidas por Boris Yeltsin e criticadas por seu grupo político, devido ao baixo preço das ações e venda delas. O empresário de Mídia Vladimir Gusinsky e o magnata Boris Berezovsky deixaram a Rússia em 2000, após processos e suposta intimidação do governo. O caso mais notório, porém, foi o de Mikhail Khodorkovski, o principal oligarca e um dos homens mais ricos do mundo, por ter discordado do projeto de Putin, financiando oposicionistas, tendo grande parte de seu poder econômico se evaporado rapidamente e sendo acusado de evasão fiscal e fraude. Em 2013, porém, Khodorkovski foi perdoado por Putin, indo para o exterior.

O que parece exaltar os ânimos dos líderes políticos do Ocidente são as questões de direitos humanos, as perseguições individuais, o temor dos movimentos russos no xadrez geopolítico, como em 2008, quando a breve guerra entre a Rússia e a Geórgia acendeu a luz amarela na comunidade internacional ocidental. Tal guerra começou quando as forças georgianas bombardearam a região separatista da Ossétia do Sul, para tentar retomar o controle da província rebelde. Em resposta, os russos, com os quais parte da população da província se identificava, repetiram o ataque e avançaram em território georgiano, até chegar à Capital Tbilisi.

No entanto, foi a movimentação russa em Donbass, no leste da Ucrânia, em 2014, que comprometeu as relações diplomáticas de Putin com as principais potências ocidentais, uma vez que se trata de uma região controlada por grupos separatistas e que foi considerada independente por Putin. A invasão e a anexação da Crimeia geraram sanções da União Europeia e dos Estados Unidos, o que levou a Rússia à suspensão da filiação ao G8. Outro momento crucial nas relações entre Putin e as potências ocidentais foi a guerra civil na Síria. O regime da família Assad era próximo à Rússia, desde a ex-União Soviética. Nesse cenário, a forte suspeita de uso de armas químicas, por Assad, contra os rebeldes e a população civil, levou os Estados Unidos a ameaçaram entrar na guerra contra o regime, faltando, porém, apoio de aliados europeus. A participação russa, especialmente com bombardeiros aéreos, se mostrou decisiva para garantir a Assad a retomada de regiões, das mãos de rebeldes e dos Estados Islâmicos. Assim, a Síria reforçou a oposição à influência ocidental no Oriente Médio, contra os Estados Unidos e os países Árabes Sunitas.

Recentemente, as potências ocidentais deram destaque a Putin, com as acusações de interferências no Plebiscito de saída do Reino Unido da União Europeia; e com um relatório da inteligência americana que acusava, sem provas contundentes, o líder russo de manipulação da eleição em favor de Donald Trump. Em 2020, Trump perdeu a reeleição e o eleito, Joe Biden, repetiu as acusações de tentativa de interferência nas eleições, ameaçando Putin, reacendendo, assim, temores de uma nova Guerra Fria e de um agravamento das tensões militares.

No plano econômico, em 2006 foi criado o grupo econômico formado pelas cinco maiores economias mundiais emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) – BRICS, que se tornou a premissa norteadora de uma nova realidade que estava surgindo e que viria a formular novas análises e fundamentos sobre o relacionamento das economias contemporâneas. Apesar do aumento expressivo nas suas relações comerciais os membros do BRICS ainda tem grandes desafios a superar para crescerem tanto em bloco como individualmente, tendo ainda que superar as diferenças econômicas e sociais, a dimensão territorial e os delicados relevos sociais.

O BRICS busca uma nova feição no cenário internacional, atualmente multipolar e onde desejam ser atores principais, superando as diferenças internas, favorecendo a cooperação nos ambientes em que cada um detém domínio de excelência, principalmente nos segmentos de superioridade e vantagem como por exemplo a autonomia tecnológica nos setores de vanguarda. Dentre os principais tópicos econômicos da Rússia tem-se a grande produção de combustíveis fósseis, a tecnologia de vanguarda na área nuclear e na aeronáutica militar.

Lamentavelmente, cenários prospectivos espelham uma guerra sangrenta, a truculência dos conflitos armados, artefatos e vetores aéreos, navais e terrestres (caças, fragatas, carros de combate), rádios definidos por Softwares e Rádios Cognitivos, virtualização nas redes, sistemas remotamente pilotados (principalmente aéreos e terrestres), emprego militar de mísseis, foguetes e ataques cibernéticos, resultando em mortes, destruição de famílias, milhões de deslocados e refugiados ucranianos.

A guerra Rússia vs. Ucrânia é um dos mais sombrios atentados aos direitos e liberdades democráticas desde o fim da Segunda Guerra Mundial.                  


[1] Sene Sonco, é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais (PPGCPRI), Universidade Federal da Paraíba, UFPB, e orientando da professora Leila Bijos.

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Leila Bijos

Leila Bijos

Pós-Doutora em Sociologia e Criminologia pela Saint Mary’s University, Halifax, Nova Scotia, Canadá. Doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília (CEPPAC/UnB). Professora Visitante do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais (PPGCPRI), Universidade Federal da Paraíba (2020). Coordenadora de Pesquisa do Centro de Estudos Estratégicos (CEEEx), Núcleo de Estudos Prospectivos (NEP), Ministério do Exército (2019-2020). Aigner-Rollet-Guest Professor at Karl-Franzens University of Graz, Áustria Centro Europeu de Formação e Investigação dos Direitos Humanos e Democracia, Uni-Graz (2018/2019). Pesquisadora Visitante no International Multiculturalism Centre, Baku, Azerbaijão (2018). Professora do Mestrado Stricto Sensu em Direito da Universidade Católica de Brasília (2000-2017). Oficial de Programa do PNUD (1985-1999). Professora do Programa de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual Transferência de Tecnologia para a Inovação – PROFNIT, Universidade de Brasília (UnB), CDT, Brasília, DF desde 2016.