Artigo – CONVERGÊNCIAS POLÍTICAS IRÃ-AMÉRICA LATINA – Por Leila Bijos

Memórias de congressos internacionais fazem parte de nossa trajetória acadêmica. Reporto-me à IV International Assembly of Farsi Language and Literature, e a Primeira Conferência Internacional sobre a América Latina: seu papel e importância numa futura ordem internacional, realizadas em Teerã, em 2003 e 2007. Em 2003, analisamos a língua, a literatura e as questões educacionais: Evolução tecnológica nos sistemas educacionais e culturais brasileiros, pesquisa publicada no Brasil[1].  Existia, na época, uma intensa interação entre a representação diplomática do Irã com os centros acadêmicos no Brasil, acordos internacionais e parcerias eram assinados, cursos de língua persa, iranologia oferecidos, além de seminários, conferências internacionais e bolsas de estudos para nossos discentes. Em 2007, a análise se deteve sobre a América Latina e uma nova ordem mundial que despontava no horizonte, com dois representantes da Universidade de Brasília e da Universidade Católica de Brasília. Proferi uma conferência sobre o Empoderamento da Mulher na Contemporaneidade, enfatizando a necessidade de dar voz às mulheres em todo o mundo.

Em 2003, surpreendi-me com uma comunidade acadêmica dinâmica, que cordialmente nos levou para visitar a Universidade de Teerã, a Open University of Teheran, o Museu de Arte Moderna de Teerã, interagindo com as famílias iranianas, em visitas, jantares e conversas amenas sobre seu cotidiano. Com o término das conferências, fomos brindados com o convite para conhecer a realidade de Khashan, na província de Ispaã, com mais de 250.000 habitantes, conhecida como a Cidade dos Marajás, emoldurada por fontes e jardins, palácios seculares de arquitetura surpreendente. Viajamos de ônibus pela rodovia Qom-Carmânia, que corre ao longo da borda do deserto central do Irã, e recebidos pelo prefeito da cidade, que nos relatou fatos históricos da região, em meio a uma paisagem verdejante de um oásis.

A etimologia do nome da cidade vem da palavra persa Kashi, que em português significa azulejos. Khashan remonta ao período elamita do Irã. Após 5.000 anos ainda é possível ver a zigurate de Tappeh Sialk nos subúrbios da cidade, e curiosamente ouvir os relatos dos habitantes que afirmam que os três Reis Magos que seguiram a estrela que os orientou a Belém para testemunhar o nascimento de Jesus, eram de Khashan. A Universidade de Khashan é verdadeiramente dinâmica, assim como a Universidade de Ciências Médicas.

Em seguida, partimos para Esfahan, num voo rápido e confortável de menos de quarenta minutos, pois dista 430 quilômetros de Teerã, bem no centro do país. Esfahan é a mais bela cidade do Irã, e foi a capital do país durante a maior parte da Dinastia Safávida (1501-1736), com a Praça Imã, ponto central da cidade, dotada de jardins, fontes, e onde se encontram os três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário, juntos com o poder religioso, ornamentada pela Mesquita Sheikh Lotfollah (1619) e o Palácio Real Ali Qapu (1597). Visitamos o Palácio dos Oito Paraísos (Hasht Behesht), o Boulevard Chaharbagh, e nos encantamos com os grandes bazares, e suas centenas de lojas, com artesanato típico em cobre, peças pintadas de azul, miniaturas e caixinhas de joias talhadas em osso de camelo, com encantadores motivos florais. Os tapetes de Esfahan são dos mais famosos da história persa, mas, é preciso estar ao lado de um iraniano para fecharmos uma compra, são belíssimos, tecidos a mão, e com preços que variam entre 10.000 a 15.000 mil dólares. A Praça Imã é a segunda mais larga do mundo, e só perde para Tiannanmen, a Praça da Paz Celestial em Pequim. São 160 metros de largura por 560 metros de comprimento repletos de flores, chafarizes, gramados, e arcadas persas sobre lojas em todo o seu redor. As crianças de primeiro grau saíam de suas salas de aula quando passávamos e todas correram para me abraçar. Fiquei muito emocionada por aquele carinho espontâneo e tirei várias fotos com elas.

A Mesquita Imã com seus domos, e seu rico interior, me deixou extasiada. Do outro lado da praça, fica o Palácio Ali Qapu (Grande Porta), os palácios Chehel Sotun (Quarenta Colunas), com suas altas e magníficas colunas de madeira, e Hasht Behesht (Oito Paraísos). As pinturas no interior dos palácios mostram a magnitude do Império Persa. Do lado de fora, o Boulevard Chaharbagh faz parte desta paisagem, com duas pistas separadas por um largo calçadão ricamente arborizado no meio, propiciando o descanso dos cidadãos, e convidando ao lazer, aos piqueniques familiares. As jovens iranianas são lindas, meigas e se mostram bem atualizadas, com seus jeans, camisetas e a burca por cima, mas maquiadas e com lenços bem coloridos.

No sul da cidade, estivemos nas pontes de pedra do século XVII, na Catedral de Vank, construída pelos armênios (1664), e de origem cristã, trazidos pelos xás persas, reassentados no bairro Jolfa, espécie de gueto cristão. As pontes Sio-se-pol, a mais longa, e a Ponte Khaju mostram a magnitude arquitetônica, com ambiente para acomodar os jovens, que querem conversar, comer um sanduíche, tomar um refrigerante. 

De Esfahan viajamos para Shiraz, a cidade dos poetas, e de lá para Persépolis. Mergulhamos na história da Pérsia, que desde os mais remotos tempos antes de Cristo (a.C.) foi o lar dos maiores impérios do mundo, incluindo o Império Aquemêda (de Ciro), o Império de Alexandre o Grande, e o Império da Era de Ouro Islâmica. Somente no início do século XX, o Irão se transformou numa monarquia, e foi assim até a Revolução Islâmica de 1979, que tornou o país numa república islâmica até os dias atuais.

Shiraz, na Província de Fars, era o principal centro comercial e cultural, rota das caravanas, localizada ao sul do “rio seco” (que é um rio sazonal), e atraiu artistas e pensadores que deram à cidade o rótulo de capital dos poetas e da literatura. Algumas atrações são imperdíveis, como o Jardim Botânico, com as mais belas e variadas rosas que já vi em toda a minha vida, além da mesquita Masjed-e Nasir-al-Molk, conhecida como mesquita rosa, com vitrais coloridos no teto, e a Vakil Mosque, repleta de lojas milenares, com suas lâmpadas mágicas e tapetes voadores. As tumbas de Hafez e Saadi são homenagens aos poetas em forma de belíssimos jardins, recheados de história.

A Mesquita Shah Chreagh é emoldurada por vitrais e luminárias que fazem um efeito incrível, deixando o visitante extasiado com um teto com um céu estrelado. Nos dirigimos a Arg-e Karim Khan, citadela que abrigava o castelo da capital do império no século XVIII. Narenjenstan e Ghavan são representantes do estilo de vida da classe alta de Shiraz do século XIX, com a casa da família Qavan, onde estão os Jardins de Eram, ou Naranjestan (também chamados de Qavam House), alamedas intermináveis com laranjeiras, fontes, tão lindos que fazem parte do patrimônio histórico e constam da lista da UNESCO.

Dezoito anos se passaram e me pergunto como se encontra a capital Teerã, Esfahan, Khashan, Shiraz, e a poesia de Hafez. A poesia ocupa um espaço sagrado na cultura iraniana. Longe de meramente apreciar a poesia como uma forma de arte, os iranianos – de todas as origens e classes socioeconômicas – vivem e respiram poesia. Um lixeiro mencionará Khayyám para falar sobre a transitoriedade da vida, assim como um motorista de táxi recitará o verso místico de Rumi e um político invocará o patriotismo de Ferdowsi. A obra de Hafez talvez seja tão amada quando controversa – um fato que pode explicar sua imensa popularidade ao longo dos séculos. Hafez, no Irã moderno, é inigualável, adorado como uma figura quase divina. Sua poesia é frequentemente cantada e ambientada na música clássica persa, e foi cantada por um professor de nosso grupo. Nosso mentor em 2003, foi o professor visitante Mansur Rastagar, do Departamento de Línguas Estrangeiras da Universidade de Brasília, célebre escritor, com menções internacionais e, que na ocasião, recebeu um prêmio literário, por mais de 30 livros publicados.

A aproximação do Irã com países da América Latina reveste-se de interesses de atualidade regional, alicerçados no intercâmbio acadêmico cultural, reflexões conjuntas em aspectos socioeconômicos, políticas públicas, cidadania, qualidade de vida e desenvolvimento sustentável no século XXI.


[1] BIJOS, Leila. Technological evolution in the Brazilian educational and cultural systems. João Pessoa: Revista de Antropologia e Sociologia, v. 5, n. 14, pp. 149- 161, julho de 2021, ISSN 2526-4702. ARTIGO https://grem-grei.org/numeros-completossocurbs/.

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Leila Bijos

Leila Bijos

Pós-Doutora em Sociologia e Criminologia pela Saint Mary’s University, Halifax, Nova Scotia, Canadá. Doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília (CEPPAC/UnB). Professora Visitante do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais (PPGCPRI), Universidade Federal da Paraíba (2020). Coordenadora de Pesquisa do Centro de Estudos Estratégicos (CEEEx), Núcleo de Estudos Prospectivos (NEP), Ministério do Exército (2019-2020). Aigner-Rollet-Guest Professor at Karl-Franzens University of Graz, Áustria Centro Europeu de Formação e Investigação dos Direitos Humanos e Democracia, Uni-Graz (2018/2019). Pesquisadora Visitante no International Multiculturalism Centre, Baku, Azerbaijão (2018). Professora do Mestrado Stricto Sensu em Direito da Universidade Católica de Brasília (2000-2017). Oficial de Programa do PNUD (1985-1999). Professora do Programa de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual Transferência de Tecnologia para a Inovação – PROFNIT, Universidade de Brasília (UnB), CDT, Brasília, DF desde 2016.