Artigo – Afeganistão, a história que se repete – Por Pedro Luiz Rodrigues

Se os diplomatas conhecedores do terreno tivessem prevalecido sobre os militares, os Estados Unidos e seus aliados não teriam cometido o duplo desatino de invadir o Iraque (2003) e o Afeganistão (2001).  Se assim tivesse sido, não teriam sido convidados a se retirar de Bagdá, nem estariam agora sendo escorraçados de Cabul – juntamente com seus aliados – pelos mesmos inimigos que tentaram eliminar.

A organização e a rapidez do talibã nas últimas semanas demostram o quão ineficiente foi o exercício militar ocidental no Afeganistão nas duas décadas de ocupação. Desfecho similar, ainda que mais honroso, já haviam sofrido os britânicos nas mãos dos afegãos no século 19 e início do século passado.  Nos anos 1980, os invasores soviéticos russos já haviam também sido postos para correr.

As cenas de caos explícito no aeroporto que nos chegam pela TV, mostrando-nos milhares em debandada,   deixam claro que qualquer semelhança com a humilhação sofrida pelos EUA em Saigon, em 1975, pelas mãos de adversário que igualmente subestimaram, não terá sido mera coincidência.

O New York Times, em editorial, considerou o desfecho do episódio afegão – com altíssimo custo em vidas e recursos – uma tragédia para os Estados Unidos, em particular por demonstrar que os EUA não são a ‘nação indispensável’ que imaginam ser, com mandato de intervir em qualquer parte do mundo para defender direitos civis, empoderamento das mulheres e tolerância religiosa.

Essas intervenções, feitas sob pretextos muito ralos (no caso do Iraque, pretextos falsos), além de não lograrem os objetivos propostos, só fizeram aumentar a instabilidade política numa região já conturbada e a desmoralizar os interventores.

No caso do Iraque, vozes sensatas no Departamento de Estado levantaram-se de início para observar que se a situação já era ruim com Sadam Houssein, poderia ficar pior sem ele, como aliás aconteceu.  Lançando mão de alegações falsas (a posse de a armas de destruição em massa por Sadam) para justificar a invasão da Mesopotâmia, o ex-presidente George W. Bush como que incorporou o espírito do Papa Urbano II, ao convocar a Primeira Cruzada contra os muçulmanos no século XI.  Foi a vitória dos belicistas que cercavam o presidente (o vice-presidente Dick Cheney, o secretário de defesa Rumsfeld e o general-secretário de Estado), que simplesmente suprimiram as vozes opositoras, internas e externas.

Para a Cruzada contra o Iraque, em 2003, Bush conseguiu o apoio de países como o Reino Unido, a Dinamarca, a Austrália e a Polônia. No curso da ocupação do país, se juntariam a Itália, a Coréia do Sul, a Dinamarca, Portugal, a Geórgia, a Ucrânia, os Países Baixos e a Espanha. O saldo dessa aventura desnecessária foi de 51 mil mortos, a maior parte dos quais, claro, iraquianos.

Sadam foi preso, destituído e executado em 30 de dezembro de 2006. Mas era ele, da seita minoritária ba’athista, que conseguia manter o país mais ou menos organizado. Sem ele, logo instalou-se a guerra civil entre chiitas e sunitas e  teve início uma prolongada insurgência contra as forças de ocupação. Instalado o caos, abriu-se espaço para o mal mais grave: a instalação, na região, do Estado Islâmico (originalmente designado Estado Islâmico do Iraque e do Levante), uma organização jihadista (isto é, praticante da ‘guerra religiosa’), de orientação salafita (sunita ortodoxa e wahabita).

Dois anos antes, em 2001, sob o pretexto de que os talibãs davam abrigo a  Osama bin Laden (o autor do atentado às torres gêmeas de Nova York, em setembro de 2001, e que acabaria sendo morto por um comando de ‘mariners’ no Paquistão, dez anos depois), George W. Bush formou uma primeira Cruzada contra o Afeganistão, de início com a presença como aliados da Inglaterra, Alemanha, Canadá e Austrália, depois alargada com tropas da Nova Zelândia, França, Itália, Espanha, Turquia, Polônia, Romenia, Dinamarca, Portugal, Bélgica, República Tcheca, Bulgária, Coréia do Sul, Azerbaijão e Singapura. Como todos esses países estavam sob o guarda-chuva do poder militar americano, com a saída dos EUA, todos abandonam  atabalhoadamente o território afegão.

A primeira invasão do Afeganistão por forças ocidentais ocorreu no século 4 antes de Cristo, quando a região (então a Báctria) foi ocupada pelo macedônio (grego), Alexandre Magno, fundador das cidades de Alexandria de Aracósia (Kandahar) e Alexandria Ariana (Herat).  O interesse de Alexandre devia-se ao ao fato de lá ter se refugiado seu aquiinimigo o rei persa Dario III. Mas Dario foi preso e morto por um governador provincial (Bessus), que se auto-coroou Imperador da Pérsia e da Ásia.

Mas Alexandre – assim como os invasores ocidentais de tempos posteriores – viu seus movimentos dificultados pelo terreno (montanhoso e seco), e de começo não conseguiu deslocar Bessus de sua fortaleza nas montanhas.  Na busca de vitória,  Alexandre tentou amealhar a simpatia dos súditos do imperador, tendo se casado com uma filha de Dario, Stateira, e com uma princesa bacteriana, Roxana. Mas Roxana, como boa afegã, era osso duro de roer, tendo assassinado Stateira. Mas a estratégia de Alexandre acabou dando certo, e Bessus lhe foi entregue por chefes militares, para ser torturado e morto.

Somente no século 19, ocidentais e afegãos – já muçulmanizados – voltariam a se confrontar. O gatilho, desta feita, relacionava-se à preocupação geopolítica da Inglaterra com a expansão da influência russa na Ásia Central. O potentado colonial britânico na região, o governador geral da Índia George Eden apresentou em 1838 um ultimato ao Doste Maomé Cã, que o rejeitou. O exército britânico invadiu então o Afeganistão, ocupou Cabul e prendeu Maomé Cã. Mas a sensação de vitória durou pouco: seu filho e sucessor, Akbar, acabou por expulsar  os britânicos.

As relações entre ingleses e afegãos continuaram tensas por muito tempo, até a situação política instável no Afeganistão levar a nova invasão britânica, em 1878, sendo Cabul ocupada no ano seguinte. Em 1880, a Grã-Bretanha deix0         u o país, espontaneamente.

Mas as tropas britânicas voltam quando Amanullah Khan declarou a independência do Afeganistão em 1919. Desta vez são os afegãos que provocam, e em maio ocupam a cidade de Bagh, controlada pelo Raj britânico. Em maio de 1919 o governo anglo-indiano declara guerra, que tecnicamente venceu mas que estrategicamente perdeu, na medida em que no mesmo ano, com a assinatura do tratado de Rawalpindi, o Afeganistão conseguiu livrar-se da tutela britânica e declarou sua independência.

60 anos depois, em 1979, em plena Guerra Fria, são os russos soviéticos que invadem o Afeganistão. Ficariam no país durante dez anos, tendo sucumbido suas forças regulares aos ataques constantes dos guerrilheiros ‘mujahedins”. Esse conflito, em razão de seu desfecho ( derrota e saída apressada das forças soviéticas” fem maio de 1988, ficou conhecido como o Vietnã da União Soviética ou a armadilha do urso.

Se tivessem lido um pouco sobre a história do Afeganistão, Bush e seu gabinete EUA não teriam invadido o Afeganistão, nem levado tão ilustre quantidade de aliados à situação em que hoje se encontram.

Pedro Luiz Rodrigues, embaixador aposentado, jornalista.

Pedro Luiz Rodrigues, diplomata e jornalista. Como diplomata serviu em Bangladesh, Washington, Assunção, Buenos Aires e Tel-Aviv. Ministro-Conselheiro em Paris. Foi embaixador na Nigéria, Benim, Níger e Chade. Foi da editoria de economia do JB e Estado de SP (do qual foi diretor em Brasília). Foi subsecretário e Secretário de Imprensa da Presidência da República (períodos Tancredo Neves, Sarney e Collor de Melo), do Ministério da Fazenda (ministros Galvêas, Marcílio Marques Moreira e Pedro Malan). Chefe de Gabinete do Ministro da Justiça José Carlos Dias. Diretor de Relações Internacionais do Senado Federal. Diretor de Comunicação da FEBRABAN. Sócio da Flecha de Lima Relações institucionais.